Visita a uma cidade e a uma casa, e também ao mar e a um box de banheiro • A Bacia das Almas

 

Paulo Brabo, 14 de abril de 2006

Visita a uma cidade e a uma casa, e também ao mar e a um box de banheiro

Estocado em Sonhos

Eu estava dentro de um enorme armazém conversando com um homem muito sorridente de uns trinta anos, cabelos castanhos lisos que ele tirava eventualmente da testa. Perguntei, como costumo fazer, de onde ele era.

O homem revelou que era de Santa Catarina e perguntei de que cidade. Ele abriu um sorriso e disse que era de uma cidade muito pequena do interior que eu certamente não conhecia. Insisti (conheço algumas cidades do interior de Santa Catarina), e ele disse um nome muito real (do qual não me lembro) que podia ser mesmo de uma cidade mas que eu de fato não conhecia. Perguntei por uma cidade próxima que servisse de referência. Ele, sem deixar de sorrir, disse que ficava perto de Pioneira. Essa eu disse que já tinha ouvido falar mas não sabia onde era, e dei a entender que essa não servia porque devia haver um número enorme de Pioneiras Brasil afora. Meio irritado com o jeito evasivo do cara e não disposto a capitular, pedi o nome de outra cidade conhecida que ficasse perto. Ele disse um nome, depois outro, em seguida outro – nenhum dos quais representava referência para mim.

Em seguida e sem qualquer transição eu estava em pé, sozinho, bem no meio da tranqüila rua principal de uma cidade que não reconheci. Intuí em algum momento da narrativa que segue que se tratava da cidade do sujeito com quem eu havia estado falando.

A avenida, separada em duas pistas por um imaculado canteiro central, estendia-se para os dois lados de onde eu estava no sentido norte-sul. Era o crepúsculo e a luz inclinada do sol (que eu não via, porque estava se pondo atrás da linha de casas diretamente à minha frente) tingia de amarelo-dourado o verde da copa arredondada das árvores que ladeavam a rua.

O verdadeiro e imediato assombro estava em que a cidade era uniformemente bem cuidada, limpa, ordeira e viçosa ao ponto do surreal, com uma beleza terrível e ininterrupta de foto de calendário. Todas as casas eram impecavelmente construídas, bem acabadas e pintadas – a maioria com mais de um piso e todas emolduradas por gramados e canteiros impossivelmente alinhados. A despeito da escuridão crescente, todas as cores eram muito saturadas, sendo que sobressaíam os terracotas, os amarelos com um sutílissimo toque de laranja e verdes-limão. Nenhum automóvel que eu pudesse ver, e uns poucos pedestres caminhavam elegantemente e sem pressa para longe.

A longa avenida parecia não ter transversais, mas do meio onde eu estava dava para ver onde a cidade terminava nas duas pontas. No extremo sul a rua acabava numa curva brusca (para oeste) que eu não tinha como ver para onde dava – mas além das últimas casas naquela direção erguiam-se incongruentemente, contra o céu violeta, dois picos nevados de montanha tingidos de amarelo-laranja pelo sol que se punha em algum lugar à minha direita.

Por alguma razão (talvez a vontade de assistir aquele pôr-do-sol cujo fulgor irreal transformava em ouro tudo que tocava) decidi entrar numa das casas e escolhi logo a mansão de três pisos imediatamente adiante de mim, cuja fachada impecável, escura mas otimista, erguia-se diretamente do gramado da calçada.

A porta estava aberta e entrei; o hall, largo porém estreito, estava silencioso e deserto e a casa talvez vazia e às escuras. A única luminosidade (dourada) parecia derramar-se das janelas do andar superior pela curva da escada cujo primeiro degrau aguardava à minha esquerda. Apesar do que talvez fossem inúmeros quadros ou papéis de parede muito ornamentados na penumbra, a casa exsudava uma atmosfera acarpetada de luxuosa residência contemporânea.

O térreo aparentemente não me interessava. Lancei-me imediatamente aos degraus da curva da escada, que ascendia da esquerda para a direita ao longo da parede de trás da casa (por trás da qual, eu cria, o sol estava para morrer). A escada acompanhava uma parede de três planos, como uma bay window, e na terceira folha de parede, logo antes do piso superior, abria-se uma janela.

O ângulo não me permitia ver o sol diretamente, mas a vista me fez perder o fôlego. A casa e a rua deviam pousar na crista de uma colina, já que o que eu via era uma sucessão de telhados elegantes e (sim! eram gloriosos minaretes cintilando sob a luz amarela do crepúsculo!) descendo até uma avenida beira-mar muitos metros abaixo. Um único carro avançava pela avenida, afastando-se lentamente de mim, emoldurado pelas árvores incendiadas pela última luz do sol.

Eu queria ver melhor antes que escurecesse. Cruzei depressa o corredor do piso superior e lancei-me a subir outro lance de escadas, exatamente como o primeiro. Parei para olhar na janela correspondente, que também estava aberta. Sim: dali eu via com mais clareza, à minha esquerda, uma fatia do mar onde o sol estava se pondo (embora um ângulo da parede externa me negasse uma visão direta dos dois). Lá estavam, entre os telhados das casas, dois prédios coroados por cinco ou seis minaretes cada um: um mais claro à minha esquerda, junto à orla, e outro escuro à minha direita, beirando a avenida no lado do interior. Lá estava o carro solitário afastando-se na paisagem cinza-azulada sob o que tinha de ser o último raio do sol.

Eu precisava encontrar naquele andar uma janela que abrisse diretamente para a parte de trás da casa, de onde eu pudesse ver o apagar final do crepúsculo e o mar lá embaixo. Caminhei pelo corredor daquele piso no sentido sul e parei diante da primeira porta à minha direita, que abria para oeste, para o sol e (no sonho) para o mar. A porta era inteiramente negra e cedeu de imediato quando tentei a fechadura.

Da porta aberta, que eu me recorde, descortinava-se diretamente a atordoante paisagem quilômetros abaixo: a curva perfeita de uma baía de azul profundo sob um céu pacífico de violeta no qual não restava qualquer sinal de sol. Era noite perfeita e não havia nuvem no céu, mas sobre o plácido azul-turquesa da baía uma frota de nuvens brancas (digamos, doze) repousava diretamente sobre a água; talvez, ocorreu-me na mesma hora, fossem navios brancos construídos para se assemelharem a nuvens, mas naquele momento a distinção não me pareceu especialmente importante.

Segui descendo o corredor daquele andar até a última porta na extremidade sul, que abria-se (descobri) para uma varanda bege com piso em forma de triângulo. Era noite ainda mas, impossívelmente, o eixo central do arco da baía estava agora mais de um quilômetro à minha direita, ao norte (ele havia estado exatamente diante de mim na paisagem da porta anterior). Olhando da varanda eu via, à minha esquerda e muitos metros abaixo, um belíssimo (e deserto) parque arborizado, iluminado por lâmpadas amarelas e pontuado por transparentes lagos e chafarizes e, junto da entrada, uma cascata. À direita descortinavam-se o mar e a orla iluminada da cidade: dois barcos de vários deques concêntricos em labirinto (um pequeno e um grande, ambos brancos mas não em forma de nuvem) chapinhavam na água ali perto. Olhando pela mureta vi que terra e mar dividiam-se precisamente abaixo de mim: se eu pulasse da varanda pelo seu vértice direito cairia diretamente na água lá embaixo.

De algum modo senti que o sonho estava chegando ao fim, e intuí que havia dois modos de terminá-lo: saindo pela porta da varanda de volta para a casa ou saltando para a água verde-azulada do mar lá embaixo. Decidi pular. Ignorei a mureta e despenquei da varanda com as mãos abraçando o peito, sentindo primeiro a vertigem depois a paisagem se aproximando e finalmente a água me abraçando numa terna lufada azul.

Estranhamente, o sonho não terminou como eu previra, e observei para mim mesmo o quanto isso era irregular enquanto nadava para a superfície. Saí do mar num único golpe de corpo, como quem saí de uma piscina, e caminhei pingando pelo quintal de uma casa (ignoro se a mesma, mas devia ser logo abaixo da varanda que eu acabara de abandonar) a meros dez passos dali. Esta estava muito iluminada, e entrei pelas folhas (abertas) da porta de vidro sem ver ninguém.

Decidi que precisava de um banho para me livrar da sensação daquele mar – embora muito límpida e de um tom belíssimo de turquesa, a água tinha a consistência filamentosa e vagamente pegajosa da gelatina que a geladeira ainda não endureceu. Encontrei um banheiro atrás da primeira porta (à direita), e no momento seguinte estava debaixo de uma inclemente chuveirada dentro de um box de acrílico semifosco. Eu lavava a cabeça e os braços e refletia o quanto aquele sonho era peculiar: ao contrário de na primeira metade do sonho, eu agora sabia definitivamente que estava sonhando, e ponderei com alguma surpresa o quanto as sensações da água do mar e do banho de chuveiro eram verossímeis e indistinguíveis da coisa em si, e – em especial – como era estranho estar dentro de um sonho que eu mesmo decidira que já devia ter terminado.

Eu estava pensando nisso quando vi, pela translucência indistinta do box, um vulto se aproximando. Não senti medo nem constrangimento, e ocorreu-me que isso era desnecessária prova de que estava mesmo sonhando. A porta do box se abriu sem a minha intervenção e lá fora estava um burocrata: entre trinta e cinco e quarenta anos de idade, camisa branca de manga curta e calça social escura, cabelo loiro-avermelhado ralo e desalinhado, o rosto nada notável, redondo, pálido e cansado, bondoso mas sem expressão. Ele não esboçou reação: apenas inclinou-se para a frente, estendeu o braço para dentro do box e apertou um interruptor retangular branco na parede de trás. Isso acionou um rápido flash de luz branca no alto do box, e senti como se estivesse sendo submetido a algo como uma radiografia.

Tentei falar com o sujeito mas ele recusou-se a responder. Disse finalmente que estava muito triste. Tinha perdido um filho ou, talvez, um filho seu estava desaparecido. Nada mais parecia importar.

* * *

na noite de 12 para 13 de abril de 2006

Paulo Brabo @saobrabo

Escrevo livros, faço desenhos e desenho letras. A Bacia das Almas é repositório final de ideias condenadas à reformulação eterna.

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