Véu • A Bacia das Almas

 

Paulo Brabo, 21 de maio de 2008

Véu

Estocado em Manuscritos

E já afastou-se, demorando a dar-me as costas, para deixar-me sozinho com ele.

— Ciro — diz o homem.

— Eu.

Estendo o braço para cumprimentá-lo e ele toma minha mão por alguns segundos na dele. Como o homem não diz nada, restamos em pé um ao lado do outro com os pés sobre a areia vermelha, eu de braços cruzados, pensando no que dizer enquanto procuro assimilar o meu choque diante da natureza multiétnica do acampamento. Ele olha com curiosidade para os lugares para onde estou olhando, como se fosse importante tentar enxergar o mundo pelos meus olhos; logo não sei se sou eu que estou olhando ou se é o homem que me está guiando o olhar, e talvez não faça diferença, porque que tudo que há ao nosso redor é pessoas.

Ocorre-me que talvez tenha sido por isso que o Mahatma planejou que nosso encontro fosse aqui, no isolamento populoso de um de seus ashrams: para que diante de tanta gente que parece ter aberto mão de tanto coisa a urgência da minha própria missão fosse diluída. É uma estratégia vil, mas pode estar funcionando. Entendo que serei eu inevitavelmente o primeiro a falar, e não começaremos falando sobre o meu problema. A sombra gigante do homenzinho apagou o fogo da minha busca; ele me venceu, e nem sequer começamos a lutar.

— Não é o que eu esperava — digo.

— Ah. O quê, o ashram? O que você esperava?

— Não sei — estou falando a verdade. — Um galpão cheio de rocas e de gente fiando, provavelmente. Todos de turbante.

Ele sorri.

— Imagino. Não somos todos indianos aqui, Ciro. Essa foi uma das primeiras surpresas que tive de enfrentar quando cheguei.

Não consigo deixar de abrir um sorriso, mesmo depois de achar que talvez não fosse piada.

— Não deve ter sido a última surpresa — observo. — É a pena do paraíso: ninguém morre, mas todos tem de conviver com todos. É porque o inferno está cheio de gente decepcionada com o céu.

Procuro, mas não encontro no semblante dele nenhuma reação ao que acabei de dizer, e calculei deveria provar minha sagacidade logo no início da conversa.

— Às vezes não sei se a eternidade vale à pena — completo, mas apenas por achar que será algo que ele vai gostar de ouvir. Ou talvez por mais alguma razão.

Ele desvia o rosto e se permite uma longa pausa, como que para apagar das atas qualquer trivialidade do que falei.

— Você acredita mesmo, Ciro, que este é o céu? — o homenzinho aperta os olhos para alongar o olhar e abracar as metrópoles que dali não vemos.

— E você, acredita em quê? — devolvo imediatamente a pergunta, coisa que talvez irrite os homens santos, por ser coisa que eles gostam de fazer.

Ele sorri e baixa os olhos por um instante, como se fosse resposta suficiente. Mas insisto:

— Vai me dizer que Gandhi abraça a heresia de Yhteys? — refiro-me ao ensino mais ou menos fora de moda que denuncia, libertariamente, que este reino de delícias é o inferno, e que o que chamamos de inferno o verdadeiro paraíso.

— Digamos que creio numa forma dessa heresia — ele responde com cautela, olhando-me com carinho nos olhos, como se fossemos amigos há muito tempo. — Se não, não estaria aqui.

Não digo nada, mas penso abruptamente que de um modo poético talvez faça sentido. Gandhi escolhe o céu porque aqui é o verdadeiro inferno; as ruas da capital Q são de um modo secreto Calcutá.

— Parece-me natural concluir que um lugar em que uma pessoa pode ter tudo que deseja não seja o céu — ele complementa cuidadosamente, e fica estudando a minha reação.

— Será preciso talvez ser Gandhi para pensar assim — opino, mais ou menos ofendido.

— Quero dizer — ele parece acanhado por um instante, mas logo se recompõe, — o homem que tem tudo que quer está em posição de clara desvantagem. Não lhe parece evidente?

— De um jeito muito transversal, talvez. Mas que a maior parte dos homens querem ter tudo o que querem, isso me parece evidente. Para a maioria isto é o céu, não tenha dúvidas.

— Também pra você?

— Na maior parte do tempo, sim.

— Hum — ele junta as mãos e abaixa a cabeça, como que para resetar a argumentação. — Meu amigo, para dizer a coisa de outra forma: estamos falando de um mundo em que as pessoas acreditam em céu e inferno, e acreditam neles como destinos eternos. Você naturalmente sabe que para muitas culturas, para na verdade a maioria das culturas representadas aqui, essas categorias simplesmente não existem. Na sua própria Bíblia, até perto das últimas páginas, o constraste é mantido entre céu e terra, entre o domínio de Deus e o domínio da criação. O paraíso como recompensa e o inferno como punição aparecem como reflexões tardias, particularmente a partir do Novo Testamento. Da forma como você os concebe céu inferno são contribuição, para não dizer invenção, da instituição cristã.

— Invenção? Olhe ao redor, meu amigo. Pergunte a esse encarnado que está passando se o inferno não é muito real. Pergunte a estas manchas de sangue.

— Ah, sim, o caráter peculiar da evidência física. Meu amigo, essas manchas de sangue me dizem alguma coisa, mas provavelmente não o que você está pensando. Talvez minha vantagem esteja em que, na minha cultura, estamos mais habituados do que na sua a pensar no universo como uma eficaz ilusão. O que você experimenta pode não ser a verdade última; a verdade pode estar oculta por um véu, não pode?

— Ou talvez — recorro finalmente à altercação, esperando que seja isso que ele espera — você esteja ressentido por ser obrigado a rever as suas próprias categorias. Ter de escolher entre céu e inferno deve ter sido um baque para quem esperava a reencarnação.

E ele começa, do nada, a sorrir, a cantar e a o que talvez seja a idéia de um santo de dançar.

“Ponhas uma bela roupa, própria para a ocasião
Pois tu vais agora para o lar da amada
Vais deitar no pó
Cobrir-te de pó
Ser um com o pó
Banha-te e vista uma roupa própria
Lembra que não voltas
do lugar para onde vais…”

Paulo Brabo @saobrabo

Escrevo livros, faço desenhos e desenho letras. A Bacia das Almas é repositório final de ideias condenadas à reformulação eterna.


 

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