Vértice • A Bacia das Almas

 

Paulo Brabo, 06 de fevereiro de 2008

Vértice

Estocado em Manuscritos

Na delegacia de Gerais, e isso deve ter sido mais de um mês depois, me perguntaram por que fiz o que fiz se não acredito no que Albano acreditava. Respondi que não vi mal em fazer, e talvez tenha dito tudo.

Moro numa região solitária, e transmitir uma impressão genuína deste lugar talvez seja mais importante do que relatar o que no fim das contas tenho a dizer. A terra onde nasci, a terra onde moro, é marcada por amplitudes e generalidades que as convenções da geografia não foram feitas para descrever. Onde em outros lugares faria sentido falar em planícies, várzeas e cadeias de montanhas, mais preciso seria dizer desta região que ela é definida por espaços negativos, por lacunas que competem umas com as outras pela primazia. Não deve haver mais ou menos elementos do que em outras paisagens semelhantes, mas aqui há beligerância, há franca hostilidade entre as partes que a compõem. O resultado é uma terra fustigada por vastidões horizontais e verticais, coisas hostis que reduzem o homem a vértice temporário numa paisagem que prescinde dele.

Árvores e coqueiros e morros erguem-se de modo peculiar, como se não tivesse terminado de se desdobrar para cima enquanto você olha para eles, e as nuvens passeiam profanamente no nível dos mortais, engolindo casas e morros inteiros e regurgitando-os em condição diferente no momento seguinte. Não é algo que os grupos de turistas percebam enquanto esticam suas barracas coloridas no contrafortes da serra; trata-se de uma escala que requer que você esteja caminhando sozinho para atingi-lo, e aqui andamos sozinhos a maior parte do tempo.

Trata-se, no fim das contas, de um conflito de solidões; diz respeito tanto à conformação do lugar – sua sucessão de morros, grotas, várzeas, pântanos, matagais fechados, galinheiros abandonados, cascatas, casinhas de dois cômodos e curvas de rio, – quanto à distância entre as pessoas. Falo, em suma, da índole que essas demarcações imprimem ao rosto dos homens e ao coração da paisagem. A coisa toda é conformada de modo a que todos sintam-se intrusos, mesmo a terra, que o mato fecha sem deixar cicatriz, mesmo o céu, que as nuvens censuram e onde sol e estrelas parecem ser exceção.

É território inóspito e de difícil acesso, e há um silencioso orgulho local de que as coisas sejam assim. As duas ou três estradas que cruzam a região não foram feitas para automóveis, e as trilhas que não se usam por duas ou três semanas são requeridas pelo deus da mata. A eletricidade chegou há sete anos mas as tempestades regem as linhas elétricas e telefônicas; tudo que tenho é um rádio e uma geladeira, mas para alimentá-los confio menos nos postes que predam os deslizamentos do que no gerador a diesel que cospe baforadas enquanto treme no seu telhadinho lá fora.

Finalmente há os estalos, rugidos prolongados que abalam periodicamente os vazios entre os morros, mesmo em dias de céu limpo. Três equipes de meteorologistas da capital já vieram analisar os ruídos, a mais recente há coisa de dois anos, e com esses conversei e travei alguma amizade. O parecer é que trata-se de algum fenômeno atmosférico, mas não há consenso sobre qual é a sua verdadeira natureza, ou se há registro de fenômenos similares em outros lugares. Foram embora levando suas gravações e seus registros, mas não tivemos notícia dos resultados.

Entre nós um estalo (que a gente velha chama de atroada) é um som metálico que vem do céu; dura dois ou três segundos e reverbera por metade disso. Para se ter uma idéia do timbre é preciso ter ouvido o grito da araponga, que por sua vez tem algo do choque de uma marreta contra uma bigorna. Um estalo é ao mesmo tempo mais alto em volume, mais prolongado e mais metálico; é ainda, se é que isso é possível, mais seco. Sempre achei que evocava a colisão de poderes invisíveis no espaço acima da mata.

O que aconteceu foi que o Albano mandou me chamar.

Saí de casa de cedo e fui encontrá-lo fumando sozinho no terreiro da casa do Samuel, o guardador do nosso cemiteriozinho. Ofereceu-me fumo para aplacar a manhã fria e aceitei para aplacar o nervosismo do Albano, que demonstrava grave desconforto todas as vezes que tinha de falar comigo semi-oficialmente, porque eu era uma pessoa que lia livros, talvez de forma voluntária. Perguntou se eu tinha ouvido falar dos ladrões de túmulos e ficou satisfeito quando respondi que não: sinal de que o Samuel tinha guardado segredo.

– Faz duas ou três semanas que tem gente mexendo nos túmulos. O Samuel disse que até ontem não viu nada, mas ouviu os tiros.

– Tiros – eu disse.

– Essa é a parte. Essa gente vinha cavar os túmulos, abria os caixões e dava tiros nos cadáveres. Três tiros em cada um: na cabeça, no peito e num dos pés. Não conseguiram terminar o serviço porque o Samuel aparecia com o cachorro, mas já vieram cinco noites.

Parei de tirar lama da sola da botina com um pedaço de pau.

– Você avisou na sede do distrito?

– Fiquei sem saber o que fazer. Fora o Samuel e o cachorro, só eu estava sabendo. Nós dois mesmo tratamos de enterrar as pessoas de volta e limpar a merda que o cara fez.

Enfiei o pauzinho na terra macia do terreiro.

– E por que você veio me avisar?

– Porque ontem à noite ficamos de tocaia e apanhamos o sujeito – ele apagou o cigarro. – É o seu avô.

Desviei o olhar para a neblina.

Meu avô era um curandeiro e um charlatão. Nunca cheguei a saber se ele era mesmo louco ou mero canalha, e nunca cheguei a decidir qual seria pior. Não nos falávamos há anos, e a moeda principal na nossa transação era o caso do meu pai.

Fui embora naquela manhã com a incumbência de conversar com ele. O Albano estava disposto a abafar a coisa toda (“afinal de contas ninguém tinha se machucado”) se meu avô se dispusse a arrematar o detalhe mais constrangedor da história, o desaparecimento de um dos defuntos, o corpo da velha Coralina. Se ele devolvesse o corpo ou dissesse onde o tinha colocado, ninguém mais precisava ficar sabendo.

Na minha lembrança falar com meu avô era uma tortura, e nesse caso não foi diferente. Era possível ofendê-lo e ser ofendido por ele, mas não entabular uma conversa equilibrada sobre qualquer assunto. Ele não foi exatamente evasivo, mas parecíamos estar falando de coisas diferentes. Ao mesmo tempo em que tagarelava sobre sua teoria e mostrava-me de longe seus cadernos de anotações e envelopes de fotografias, resmungava que não era a mim que devia explicações. Perguntou-me trivialidades obscenas como “se eu sabia por que os egípcios embalsamavam os seus mortos”, e quando jurou-me que não tinha tocado no defunto da velha Coralina, saí dali resolvido a deixar que o Albano resolvesse o caso do jeito que achasse melhor. Fui para casa debaixo de um céu armando chuva, e quando liguei o gerador para ter luz em casa estava encharcado até os ossos.

No que aconteceu em seguida não tive qualquer parte e sei muito pouco. O que consigo recuperar é que naquele mesmo dia o Albano teve uma longa (e certamente tortuosa) conversa com meu avô. Deve ter explicado que não havia sandice que justificasse um comportamento bárbaro daqueles, e que qualquer reincidência era coisa inadmissível. Deve ter deixado claro que se o corpo desaparecido não fosse devolvido ou encontrado seria obrigado a formalizar uma denúncia. Deve ter saído de lá deixando algum prazo para que a situação fosse resolvida – prazo que no fim das contas não foi necessário, porque meu avô, que não era jovem, foi encontrado morto em sua cama dois depois. Minha avó, que tinha tido um derrame seis anos antes e pode se mexer mas não falar, jazia tremendo deitada ao lado do falecido, e em seus olhos encontrei o que podiam ser iguais medidas de tristeza e pavor.

Era de madrugada e o corpo do velho estava sendo velado na capelinha do cemitério quando o céu finalmente desabou. Choveu como não chovia há décadas; os ribeirões incharam, as árvores caíram e os rios cobriram todas as pontes. Trilhas e estradas viraram tentáculos de um monstro de lama, e o vento amarrou os postes nos seus próprios fios. Eu, que tinha passado o dia na capela e tinha ido para casa descansar, estava acordado quando começou. Esperei uma hora e assim que concluí que a chuva não ia ceder resolvi me vestir, selar a Morena e ver se conseguia chegar ao cemitério.

Estava nisso quando bateram com força na porta. Era o Samuel.

Tremendo de frio mas recusando-se a entrar porta adentro, o guardador do cemitério explicou-me que o Albano tinha enlouquecido; que chutara a porta da capela no meio da noite, puxara a mesinha do canto para junto do caixão e subira nela; que, para horror da meia dúzia de pessoas reunida ali naquela hora (inclusive minha avó), desfechara três tiros sobre o defunto: um na cabeça, um no peito e um nos pés. Sumira em seguida noite adentro sem dizer palavra, e enquanto o céu ainda estrelado ribombava de atroadas começara a chover.

Entendi imediatamente para onde o Albano tinha ido, e levei o Samuel comigo. Cobrimos em hora e meia o terreno que em condições normais teríamos percorrido em vinte minutos, e quando chegamos à choupana do meu avô vimos de longe as chamas lá dentro. Disse com firmeza que o Samuel aguardasse do lado de fora; entrei sozinho pela porta aberta e encontrei o Albano em pé, olhando diretamente para mim com lágrimas de fogo. Ele afastara a mesa e usara a madeira das cadeiras para armar uma fogueira ali mesmo, sobre o assoalho. O fogo já começava a escalar as paredes, e no alto da fogueira queimava o que tinha de ser os cadernos de anotações do meu avô e as fotografias que ele recolhera.

Pedi ao Albano que saísse comigo, e quando ele se recusou perguntei por que estava fazendo aquilo. Chorando sem trégua, meu amigo disse-me que fora convencido “porque o velho tinha morrido do jeito que morreria” e “a velha Coralina estava onde ele disse que estaria”.

– Me ajude – ele implorou, e deu um tiro na cabeça.

Com a ajuda do Samuel arrastei o corpo agonizante para a chuva, e na luz da casa que se dobrava sobre si mesma animada pelo fogo, disparei sobre o Albano morto as duas balas que restavam no revólver.

Paulo Brabo @saobrabo

Escrevo livros, faço desenhos e desenho letras. A Bacia das Almas é repositório final de ideias condenadas à reformulação eterna.

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