Um leito belíssimo • A Bacia das Almas

 

Paulo Brabo, 01 de setembro de 2011

Um leito belíssimo

Estocado em Goiabas Roubadas

Não há santo mais inesperado e humano (e portanto mais santo) do que Francesco. A maior parte das histórias que se agregaram ao redor da sua pessoa confirma esse seu compromisso com uma santidade sensual da qual não se tinha notícia desde os tempos de Jesus.

Uma:

No caminho para a Babilônia, São Francisco entrou numa pousada para repousar. Ali havia uma mulher belíssima de corpo mas impura de alma, que aproximou-se dele e convidou-o a pecar.

— Eu aceito — disse Francisco, — vamos para a cama.

A mulher o foi levando para o quarto, mas ele disse:

— Venha comigo, vou levá-la a um leito belíssimo.

Francisco levou-a então até um grande fogo que havia naquela casa, e em fervor de espírito despiu-se por completo e deitou-se ao lado daquele fogo no lugar mais quente, e convidou-a a despir-se e deitar-se com ele naquele leito belo e confortável. Francisco permaneceu naquela posição por um longo intervalo, com o rosto alegre, sem arder nem se queimar; diante disso aquela mulher, assustada pelo milagre e compungida de coração, não apenas arrependeu-se do pecado e da sua má intenção, mas também converteu-se perfeitamente à fé de Cristo, tornando-se santa a tal modo que através dela muitas almas salvaram-se naquelas regiões.

Citada nos anônimos “Fioretti” do século XIV, capítulo vinte e quatro

 

Ignore a improbabilidade do milagre se achar necessário; a história permanece magnífica ilustração da santidade como ela deveria ser. Pois Francesco não nega a força da paixão nem a sua legitimidade; ele não condena em atos ou palavras a pecadora que o seduz, e não sonega dela sequer a sua nudez. Como faria um verdadeiro santo, ele diz imediatamente sim à tentação, mas o faz de um modo que transtorna todas as expectativas e promove uma improvável conciliação. Fica revelado nele o que estava revelado em Jesus: que expor sem disfarces a humanidade e alinhar-se a ela é coisa capaz de seduzir os pecadores mais do que a mais estrita das santidades seria capaz de fazer 1Talvez ainda melhor: o relato é ambíguo o bastante para deixar no ar a possibilidade de que, tivesse tido a mulher fé ou amor (ou santidade) suficiente, poderia ter se juntado a Francesco no seu leito de fogo para o mais ardente dos encontros..

A história reaparece, com singeleza talvez maior (“con te io peccherò”) na segunda estrofe 2Irmão Francisco parou para repousar
E uma mulher resolve aproximar-se,
bela sua figura mas venenoso o coração,
com seu corpo o convidava a pecar.
Disse irmão Francesco:
“Com você eu pecarei”
No fogo se deitou
E os braços a ela estendeu
Ela se arrependeu, se converteu…
assim Francisco partiu para pregar na Babilônia
de Il Sultano Di Babilonia E La Prostituta (2000), do menestrel contemporâneo Angelo Branduardi:

Frate Francesco si fermò per riposare
Ed una donna gli si volle avvicinare,
bello il suo volto ma velenoso il suo cuore,
con il suo corpo lo invitava a peccare
Frate Francesco parlò:
“Con te io peccherò”
Nel fuoco si distese,
le braccia a lei protese
Lei si pentì, si convertì…
così Francesco partì per Babilonia a predicare

Paulo Brabo @saobrabo

Escrevo livros, faço desenhos e desenho letras. A Bacia das Almas é repositório final de ideias condenadas à reformulação eterna.

Notas   [ + ]

1. Talvez ainda melhor: o relato é ambíguo o bastante para deixar no ar a possibilidade de que, tivesse tido a mulher fé ou amor (ou santidade) suficiente, poderia ter se juntado a Francesco no seu leito de fogo para o mais ardente dos encontros.
2. Irmão Francisco parou para repousar
E uma mulher resolve aproximar-se,
bela sua figura mas venenoso o coração,
com seu corpo o convidava a pecar.
Disse irmão Francesco:
“Com você eu pecarei”
No fogo se deitou
E os braços a ela estendeu
Ela se arrependeu, se converteu…
assim Francisco partiu para pregar na Babilônia
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