Três Reis • A Bacia das Almas

 

Paulo Brabo, 19 de dezembro de 2005

Três Reis

Estocado em Filmes · Homens e Mulheres · Nostalgia

Ontem à tarde precisei fazer uma visita em Curitiba e estiquei para assistir no Cinemark do Mueller o último King Kong, dirigido pelo Peter Jackson de O Senhor dos Anéis. Com este são três King Kongs na minha vida.

O primeiro foi o passável King de 1977 (a loira era Jessica Lange), memorável para mim porque aquela foi a primeira vez que fui ao cinema sozinho, sem os meus pais, com três amigos da escola. Era Londrina e eu tinha 10 anos.

Lembro que um dos colegas que arrastamos para aquela sessão nunca tinha ido ao cinema – coisa que aos dez anos de idade (decidimos os outros três) era inconcebível e constrangedor e precisava ser corrigido a todo custo. O sujeito acabou dormindo a maior parte do filme. Recordo que tive de ir ao banheiro durante a sessão; os banheiros ficavam na parte da frente da imensa sala de cinema, um em cada canto da tela, o dos meninos à esquerda. Quando voltei para a sala de projeção o rosto King Kong urrava enchendo a tela e meus amigos dizem que saí correndo de medo.

Depois veio o de 1933, em preto e branco e assistido pela primeira vez numa madrugada qualquer, e que permanece meu favorito. O mais recente King de Peter Jackson segue em inúmeros pontos o de 1933, (alguns muito curiosos, como a fala final do produtor diante do monstro morto e a maneira como Kong abre e fecha a boca do tiranossauro depois de matá-lo), mas trilha também muitos e congestionados caminhos novos.


Embora o filme de 1977 tenha atualizado a ação “para os nossos dias”, a história é definitivamente a mesma nos três filmes. King Kong poderia se chamar O Fim do Reinado do Macho Protetor. Trata-se, na verdade, de um tratado velado sobre as relações entre homens e mulheres – especialmente sobre as contradições do recente papel “civilizado” da masculinidade.

King Kong é um trágico triângulo amoroso entre a Mulher, o Macho Protetor e o Homem Civilizado. Os perigos na Ilha da Caveira são impossivelmente numerosos, para que fique claro que uma mulher que não tenha um King Kong para chamar de seu não tem qualquer chance de sobreviver. Mesmo no lento filme de 1933, em menos de quinze minutos o Macho Protetor tem de matar três monstros diferentes para salvar a mocinha. Diante de um desempenho desses, os olhos da loirinha (todas as três) enchem-se de admiração, gratidão e amor pelos irresistíveis charmes do Macho Protetor – não importa que você tenha mau hálito e oito metros de altura, você matou um tiranossauro por mim?

Mas meia hora depois mudam os pesos na balança, e também o amor da mocinha. Estamos agora na cidade mais civilizada do mundo, onde o Macho Protetor é uma intrusão e uma anacronia: não tem mais função e precisa ser eliminado. Os filmes deixam bem claro (especialmente o de Jackson) que toda a destruição que o monstro faz em Nova Iorque é motivada exclusivamente pela devoção e pelo amor do Macho Protetor – King Kong só quer proteger a mocinha de trens e aviões, como fez na ilha com serpentes e pterodáctilos.

Porém o terreno é agora do Homem Civilizado. Na civilização a Mulher não precisa e não quer ser protegida. O Macho Protetor é uma relíquia e portanto uma ameaça, e acaba saindo do caminho para que vença a sanidade e a mocinha fique com o mocinho. Saia para lá com esse peito peludo e esse braço forte, que o que eu preciso é de um homem que me satisfaça emocionalmente.

Aquela história.


Neste último filme incomodaram-me, em especial, as infindáveis panorâmicas: tudo é visto simultaneamente em vertiginosas pans, de cima e de todos os ângulos. O King Kong de 2005 é definitivamente 3D – e no que me diz respeito aí reside seu maior defeito (maior mesmo do que a perda do sentido de proporção de algumas das aventurosas adições, que fazem as Missões Impossíveis de Tom Cruise parecerem inteiramente cabíveis).

Estou falando de uma preferência minha, mas tudo no King Kong de 1933 era admiravelmente 2D; cada cena parecia ter sido arrancada de uma página de livro ou de uma gravura de naturalista. O Kong de 1933 habitava num mundo que só existia – em luz, sombra e design – numa gravura de Gustave Doré.

Ah, que saudade.

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Paulo Brabo @saobrabo

Escrevo livros, faço desenhos e desenho letras. A Bacia das Almas é repositório final de ideias condenadas à reformulação eterna.


 

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