Transgredir é escolher • A Bacia das Almas

 

Paulo Brabo, 05 de junho de 2009

Transgredir é escolher

Estocado em Manuscritos

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Transgredir é escolher, portanto apenas a mais rigorosa inatividade, a mais deliberada paralisia poderiam nos manter a salvo da narrativa, cujo outro nome é controvérsia. Todos os outros de nós somos atirados ao centro do palco da história e banhados pela luz inclemente do foco da escolha. O homem que escolhe amar um filho mais do os outros não escapará da controvérsia mais do que o homem que escolhe amá-los igualmente. Pergunte a Jacó, pergunte ao pai do filho pródigo da parábola. O único jeito de escapar do dilema é não ter filhos, é não desejar ter filhos; a única alternativa isenta é nada fazer, nada desejar, nada esperar e nada ser.

A História não ignora deuses que escolheram ser narradores. Embora goste de se apresentar como totalmente singular e à parte da realidade que é subordinada a ele, o Deus da Bíblia renuncia consistentemente ao papel, necessariamente distanciado, de narrador. Desde a primeira linha Deus é personagem da história, é fazedor de escolhas — trangressor e gerador de controvérsias.

O resultado essencial da transgressão divina é o universo, isto é, um espaço até então inconcebível em que Deus podia, através do homem, opor-se e contrapor-se à sua própria suficiência. O resultado essencial da transgressão humana é a queda, isto é, um espaço até então inconcebível em que o homem podia opor-se e contrapor-se a Deus.

A transgressão divina foi gerar um filho; a transgressão humana foi exigir a sua parte na herança. Em três capítulos ficou estabelecida a tensão que todas as demais páginas, autores e protagonistas desta história tentarão resolver.

Mas este é o momento em que Deus distribui castigos e portanto culpas. E, mais uma vez, falando ao ser humano, Deus fala a si mesmo e sobre si mesmo. Ao determinar ao homem que terá de suar para trabalhar, à mulher que terá de sofrer para gerar vida e à serpente que terá de rastejar entre as demais criaturas e conhecer a perseguição e a repugnância dos homens, Deus não está distribuindo paisagens aleatórias. Ele sabe que, na qualidade de protagonista, cada palavra que proferir voltará sem sombra de dúvida para tocar e qualificar a sua própria pessoa. Nas páginas que seguem Deus se apresentará como trabalhador, falará de si mesmo como uma mulher grávida e se identificará com a serpente. Sua integridade narrativa não tem limites, e não há punição que ele outorgue aos outros e não esteja pronto a sofrer ele mesmo.

Paulo Brabo @saobrabo

Escrevo livros, faço desenhos e desenho letras. A Bacia das Almas é repositório final de ideias condenadas à reformulação eterna.

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