Todas as coisas louvam ao Senhor • A Bacia das Almas

 

Paulo Brabo, 14 de outubro de 2006

Todas as coisas louvam ao Senhor

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A CRIAÇÃO: Todas as coisas louvam ao Senhor

“Tudo que Deus criou tem valor.” Até mesmo os animais e insetos que parecem à primeira vista inúteis e nocivos tem uma vocação a cumprir. A lesma, que deixa atrás de si uma trilha pegajosa, consumindo dessa forma a sua vitalidade, serve de remédio para o furúnculo. A picada do marimbondo é curada aplicando-se à ferida uma mosca doméstica esmagada. O mosquito, débil criatura, que capta alimento mas jamais o secreta, é específico contra o veneno da víbora, e esse réptil venenoso cura por sua vez erupções, enquanto que o lagarto é o antídoto ao escorpião.

Não apenas todas as criaturas servem o homem e contribuem para o seu conforto, mas Deus também “ensina-nos através dos animais da terra, e concede-nos sabedoria através das aves do céu”. Ele concedeu a diversos animais admiráveis qualidades morais como padrão para o homem. Se a Torá não nos tivesse sido revelada poderíamos ter aprendido o cuidado para com as decências da vida com o gato, que cobre seu excremento com terra; o respeito à propriedade com as formigas, que jamais avançam sobre as reservas umas das outras; e o cuidado para com uma conduta decorosa com o galo, que quando deseja unir-se à galinha promete comprar para ela um manto longo o bastante para chegar até o chão, e quando a galinha lembra-o da promessa ele sacode sua crista e diz: “que a minha crista seja tirada de mim se eu não comprá-lo assim que tiver condições”.

O gafanhoto também tem uma lição a ensinar ao homem. Ele canta durante todo o verão, até que seu ventre se rompe e a morte o leva para si. Embora não desconheça o destino que o espera, ele permanece cantando. Da mesma forma o homem deve cumprir seu dever para com Deus, não importando as conseqüências. A cegonha deve ser adotada como modelo em dois sentidos. Ela guarda zelosamente a pureza de sua vida familiar, e para com seus semelhantes é compassiva e misericordiosa. Mesmo o sapo tem o que ensinar ao homem. Junto à água vive uma espécie de animal que subsiste apenas de criaturas aquáticas. Quando percebe que um desses está com fome o sapo vai até ele espontaneamente e oferece-se como comida, cumprindo dessa forma a prescrição: “se teu inimigo tem fome, dê-lhe de comer; se tiver sede, dê-lhe de beber”.

“Se teu inimigo tem fome, dê-lhe de comer; se tiver sede, dê-lhe de beber”.

Toda a criação foi chamada à existência por Deus para sua glória, e cada criatura tem seu próprio hino de louvor através do qual exalta o criador. O céu e a terra, o paraíso e o inferno, o deserto e os prados, rios e mares – todos têm seu modo próprio de prestar homenagem a Deus. O hino de louvor da terra é: “dos confins da terra ouvimos cantar: glória ao Justo!”. O mar exclama: “o SENHOR nas alturas é mais poderoso do que o bramido das grandes águas, do que os poderosos vagalhões do mar”.

Também os corpos celestes e os elementos proclamam o louvor de seu criador: o sol, a lua, as estrelas, as nuvens e os ventos, o relâmpago e o orvalho. O sol diz: “o sol e a lua param nas suas moradas, ao resplandecer a luz das tuas flechas sibilantes, ao fulgor do relâmpago da tua lança”; e as estrelas cantam: “só tu és Senhor, tu fizeste o céu, o céu dos céus e todo o seu exército, a terra e tudo quanto nela há, os mares e tudo quanto há neles; tu os preservas a todos com vida, e o exército dos céus te adora”.

Cada planta, além disso, tem uma canção de louvor. A árvore frutífera canta: “então cantarão de alegria todas as árvores do bosque, na presença do Senhor, pois ele vem; pois vem julgar a terra”; e as espigas do campo cantam: “os campos cobrem-se de rebanhos, e os vales vestem-se de espigas; exultam de alegria e cantam”.

Notável entre os que cantam louvores são os pássaros, e dentre eles o maior é o galo. Quando Deus visita à meia-noite os piedosos no Paraíso, as árvores dali irrompem em adoração, e suas canções acordam o galo, que começa por sua vez a dar louvor. Por sete vezes ele canta, e cada uma das vezes recita um verso. O primeiro verso é: “levantai, ó portas, as vossas cabeças; levantai-vos, ó portais eternos, para que entre o Rei da Glória. Quem é o Rei da Glória? O Senhor, forte e poderoso, o Senhor, poderoso nas batalhas”. O segundo verso: “levantai, ó portas, as vossas cabeças; levantai-vos, ó portais eternos, para que entre o Rei da Glória. Quem é esse Rei da Glória? O Senhor dos Exércitos, ele é o Rei da Glória”. O terceiro: “levantai-vos, vós justos, e ocupai-vos da Torá, para que seja grande a vossa recompensa no mundo vindouro”. O quarto: “tenho aguardado pela tua salvação, ó Senhor!” O quinto: “ó preguiçoso, até quando ficarás deitado? Quando te levantarás do teu sono?” O sexto: “não ames o sono, para que não empobreças; abre os olhos e te fartarás do teu próprio pão”. E o sétimo verso cantado pelo galo diz: “já é tempo de trabalhar para o SENHOR, pois a tua lei está sendo violada”.

A canção do abutre é: “eu lhes assobiarei e os ajuntarei, porque os tenho remido; multiplicar-se-ão como antes se tinham multiplicado” – o mesmo verso com o qual o pássaro anunciará, no devido tempo, o advento do Messias. A única diferença será que quando anunciar o Messias ele cantará esse verso pousado no chão, sendo que ele o canta sempre sentado em outro lugar.

Tampouco os outros animais louvam menos do que os pássaros. Mesmo as feras predadoras entoam adoração. O leão diz: “o Senhor sairá como valente, despertará o seu zelo como homem de guerra; clamará, lançará forte grito de guerra e mostrará sua força contra os seus inimigos”. E a raposa exorta à justiça com as seguintes palavras: “ai daquele que edifica a sua casa com injustiça e os seus aposentos, sem direito! Que se vale do serviço do seu próximo, sem paga, e não lhe dá o salário”.

Sim, os peixes mudos do mar sabem proclamar o louvor de seu Senhor. “Ouve-se a voz do SENHOR sobre as águas,” dizem eles, “troveja o Deus da glória; o Senhor está sobre as muitas águas”, enquanto o sapo exclama: “bendito seja o nome da glória do seu reino, para todo o sempre”. Desprezíveis como são, mesmo os animais rastejantes dão louvor a seu criador. O camundongo exalta a Deus com as seguintes palavras: “porque tu és justo em tudo quanto tem vindo sobre nós; pois tu fielmente procedeste, e nós, perversamente”. E o gato canta: “todo ser que respira louve ao Senhor. Louvai ao Senhor!”

Lendas dos Judeus é uma compilação de lendas judaicas recolhidas das fontes originais do midrash (particularmente o Talmude) pelo talmudista lituano Louis Ginzberg (1873-1953). Lendas foi publicado em 6 volumes (sendo dois volumes de notas) entre 1909 e 1928.

Paulo Brabo @saobrabo

Escrevo livros, faço desenhos e desenho letras. A Bacia das Almas é repositório final de ideias condenadas à reformulação eterna.

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