Só então • A Bacia das Almas

 

Paulo Brabo, 10 de outubro de 2010

Só então

Estocado em Goiabas Roubadas

Eu serei o que serei.

Êxodo 3:14

 

Essa questão caracteriza-se pela dicotomia com a qual a questão religiosa é normalmente proposta, a saber, ou Deus existe ou não existe. Ao invés de conceder autonomia aos termos desse debate, Meillassoux quer resolver o problema com uma terceira posição que se fundamenta na inexistência de Deus, posição atestada claramente como “Deus não existe mais”. A partir dessa afirmação Meillassoux formula a tese que ele chama de “divina inexistência”. Essa tese se fundamenta na assertiva de que embora possamos claramente argumentar que hoje em dia Deus não existe, não temos razão para crer que ele não poderia um dia existir — e dessa forma a noção de um Deus-por-vir é filosoficamente sustentável.

Michael Burns, em The Hope of Speculative Materialism

 

Ao contrário de tudo que podemos incluir em nossas categorias ontológicas, Yahweh não é; ele será. Ele será quando quando houver um povo que cumpra determinadas condições. É assim que podemos entender expressões como esta: “Por causa do seu nome Yahweh/o Senhor não rejeitará o seu povo, pois Yahweh/o Senhor quis fazer de vocês povo dele (1 Samuel 12:22)”. Yahweh é essencialmente um Deus escatológico, e toda sua intervenção na história é no sentido de formar uma humanidade em que ele finalmente seja capaz de ser.

Os autores bíblicos insistem que um deus concebido como existindo fora da convocação inter-humana por justiça e amor não é o Deus que se revela a eles, mas alguma sorte de ídolo. Além disso, a Bíblia inteira concentra-se no projeto de criar um mundo em que o relacionamento inter-humano autêntico seja uma possibilidade e uma realidade.

Deus só será num mundo de justiça, e se Marx não encontra Deus no mundo ocidental é porque ele não está mesmo ali — não é ali — nem pode estar. Como atestado por Freud: “Na atual vida civilizada não existe mais qualquer lugar para um amor simples e natural entre dois seres humanos”. Toda nossa rebelião contra a civilização ocidental e contra seu extremo mais crítico, chamado capitalismo, é a atração exercida sobre nós por um mundo futuro em que justiça e amor autêntico sejam possíveis. Só então, num relacionamento societário de justiça, e não antes, a mente autenticamente dialética terá de ver se Deus existe ou não existe. Qualquer outra coisa seria materialismo vulgar ou dogmatismo.

Jose P. Miranda, em Marx and the Bible

Leia também:
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Arrepender-se é mudar o mundo e Pecar é omitir-se

Paulo Brabo @saobrabo

Escrevo livros, faço desenhos e desenho letras. A Bacia das Almas é repositório final de ideias condenadas à reformulação eterna.

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