Só a dúvida brilhará • A Bacia das Almas

 

Paulo Brabo, 09 de agosto de 2010

Só a dúvida brilhará

Estocado em Goiabas Roubadas

Príncipes, poderosos, espíritos imortais, sede bem-vindos!

Eis os motivos da festa que hoje pretendo realizar convosco: Fausto, um atrevido mortal, que como nós contesta o Eterno e, pela força de seu espírito, quer tornar-se digno de morar conosco no inferno, descobriu a arte de multiplicar com facilidade milhares e milhares de vezes os livros, esse perigoso entretenimento dos homens, propagadores da demência, dos enganos, das mentiras e do terror, fonte do orgulho e mãe da trágica dúvida.

Até aqui, devido a seu elevado preço, eles haviam sido privilégio dos ricos, enchendo-os de vaidade e afastando-os da simplicidade e humildade exigidas pelo Eterno, que colocara esses sentimentos em seu coração para sua felicidade. Triunfo! Em breve, o perigoso veneno da sabedoria e da ciência contaminará a todos! Loucura, dúvida e intranquilidade e novas necessidades alastrar-se-ão, e eu duvido que meu terrível reino possa abarcar todos aqueles Sua fantasia inflamar-se-á para criar milhares de novas necessidades.que serão contaminados por esse veneno sedutor.

Essa seria, por enquanto, apenas uma pequena vitória em comparação com o que prevejo para um futuro remoto, que para nós representa apenas uma volta dos ponteiros.

Aproxima-se o tempo em que os pensamentos e opiniões de ousados renovadores e críticos do antigo sejam contagiados pela descoberta de Fausto como a peste. Surgirão pretensos reformadores do céu e da terra, cujos ensinamentos, pela facilidade de comunicação, atingirão até a choça do mendigo. Eles pensarão estar prestando serviço à humanidade e evitando que sua mensagem de salvação e esperança seja mal interpretada; mas quando e por quanto tempo é o homem capaz de praticar o bem? O homem é tentado mais facilmente a praticar abusos e más ações em nome de suas mais puras aspirações do que pelo pecado propriamente dito.

O povo escolhido, que o Todo-Poderoso quis salvar para sempre do inferno, através de um terrível milagre, se baterá em guerras sangrentas por ideias que ninguém entende e dilacerar-se-á como os animais selvagens. Horrores que superam qualquer loucura que os homens tenham cometido devastarão a Europa. Acolheremos criminosos carregados de culpas que nem sequer se enquadram nos castigamos que aplicamos até agora.

Os pilares da religião, tão temida por nós, se desmoronam, e, se o Eterno não socorrer a estrutura decadente através de novos milagres, ela desaparecerá da face da Terra, e nós seremos novamente idolatrados nos templos como deuses. Até que ponto chegará o espírito do homem, quando ele começar a refletir sobre o que até agora tivera por sagrado? Ele dançará sobre o túmulo do tirano diante do qual tremera ainda ontem; arrasará o altar no qual fizera sacrifícios no momento em que procurar, à sua maneira, o caminho da felicidade.

Quem poderá algemar o seu espírito irrequieto por milhares de anos? Poderá o Criador impedir que um único homem se aproxime muito mais do nosso reino do que do seu, só porque o criou? O homem abusa de tudo, da força de seu espírito e de seu corpo; de tudo que ele vê, ouve, prova, sente ou pensa, daquilo com que se diverte ou daquilo com que se ocupa seriamente. Não satisfeito em destruir e desfigurar aquilo que está a seu alcance, deixa-se levar pelas asas da fantasia a mundos desconhecidos, desfigurando-os em sua imaginação. O homem é capaz de trocar até mesmo a liberdade, seu mais precioso bem, que lhe custou rios de sangue, por ouro, prazeres e ilusões, quando mal chegou a conhecê-la.

Fatigado de crimes e guerras sangrentas, descansará por um momento, e seu ódio se manifestará apenas secretamente. Alguns valer-se-ão desse ódio para, em nome da verdade, se vingarem daqueles que discordem da sua fé, queimando-os em fogueiras. Outros procurarão desvendar os mistérios e enigmas indecifráveis, e os filhos das trevas lutarão ousadamente pela busca da luz.

Sua fantasia inflamar-se-á para criar milhares de novas necessidades. Para escrever um livro que lhes traga fama e ouro, não hesitarão em pisotear a verdade, a simplicidade e a religião. Escrever livros tornar-se-á um ofício vulgar, através do qual gênios e charlatões procurarão glória e riqueza, sem preocupar-se com a confusão que irão causar na mente de seus irmãos e o germe de ódio que irão incutir nos inocentes.

O céu, a terra e Aquele que tememos, as forças ocultas da natureza, os motivos obscuros de seus fenômenos, o poder que determina o rumo dos astros e dos cometas, o tempo incomensurável, tudo o que é visível e invisível os homens pretenderão provar, medir e compreender, inventar palavras e números para as coisas inexplicáveis, acumular sistema sobre sistema, até que tenham conseguido atrair as trevas para a Terra, onde só a dúvida brilhará, como o fogo-fátuo que atrai o peregrino para o pântano. Só então pensarão estar vendo a luz, e nesse momento estarei à sua espera! Quando se tiverem descartado da religião, como se fosse lixo, e forem obrigados a criar dos restos uma nova e monstruosa mistura de sabedoria e superstição, então estarei à sua espera! Podereis então abrir as portas do inferno para receber o gênero humano! Durante séculos derramarão sangue sobre a face da Terra em nome Daquele que tememos, e assim o inferno derrotará Aquele que nos jogou aqui, valendo-se de seus próprios favoritos.

Era isso, poderosos, o que eu tinha a dizer-vos. Festejai comigo esse maravilhoso dia e desfrutai antecipadamente a vitória que posso prometer-vos, porque conheço os homens. Viva Fausto!

Friedrich Maximilian Klinger
O discurso de Satã em A Vida de Fausto (1791)

Paulo Brabo @saobrabo

Escrevo livros, faço desenhos e desenho letras. A Bacia das Almas é repositório final de ideias condenadas à reformulação eterna.

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