Ser e estar • A Bacia das Almas

 

Paulo Brabo, 21 de setembro de 2006

Ser e estar

Como se sabe, em inglês usa-se um único verbo, o infame to be, para duas condições que em português e outras línguas de gente não poderiam ser mais distintas uma da outra: ser e estar.

Às vezes penso que a origem da diferença entre as barbaridades perpretadas pela América contra o mundo e as barbaridades perpetradas pelo Brasil contra si mesmo está na diferença do idioma. É uma questão clara de ser e de estar. To be or to be, that is the question.

Porque, naturalmente, não pode haver psicologia mais oposta do que entre alguém que diferencia ser de estar e alguém que não. Trata-se de uma distinção filosófica fundamental, talvez A distinção filosófica por excelência, aquela entre a imanência e a transcendência, entre o temporal e o eterno, entre o infinito e o além – e que em inglês não tem como ser expressa adequadamente.

“Ser ou estar, eis a questão”.

O cara diz “I am sad” e você não tem como dizer se ele está triste ou se é um cara triste. Shakespeare diz “that is the question” e você não tem como saber se a questão em questão é temporária e localizada ou transcendente e diz respeito a todas as épocas. Talvez a melhor tradução seja mesmo a minha: “ser ou estar, eis a questão”.

Pessoalmente, não consigo imaginar como seria minha relação com um universo que não diferencie propriamente ser de estar. Se alguém pergunta se estou brabo, minha resposta pronta é “eu sou brabo,” distinção sofisticadíssima primária que em inglês é impossível fazer.

Dentre as dificuldades para um english-speaker que se dispõe a aprender o português, a bifurcação do to be não será a menor. O sujeito vê-se obrigado a recorrer a artifícios (“ser” é sempre, “estar” é temporário”) para tentar explicar a si mesmo a diferença que para nós é natural como sanduíche. Ser não é “sempre”, nem estar é “temporário”. Isso não diz nada, my dear. Ser é ser, estar é estar. Se houvesse outro jeito de dizer, o português, que é uma língua riquíssima, diria.

Paulo Brabo @saobrabo

Escrevo livros, faço desenhos e desenho letras. A Bacia das Almas é repositório final de ideias condenadas à reformulação eterna.


 

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