A medicalização do desvio da norma

Dentro do manicômio a cura da loucura continuava sendo vista como levar os pacientes a aceitar a moral, os valores e as prioridades da sociedade burguesa. O foco permanecia sendo ensinar os pacientes a aceitar a obediência, a produtividade e o valor da propriedade. A sanidade vinha com o aprendizado de julgar as coisas do mesmo modo que o restante das pessoas, e em adquirir os hábitos do restante das pessoas.

Essa trajetória se alongou até o século 20, quando grandes descobertas no campo de medicamentos psicotrópicos aumentou a conformidade dos grupos dissidentes sem limitar muito a funcionalidade dos membros desses grupos. Os loucos Continue lendo →

De que modo o sistema reverte em seu favor os alertas dos pessimistas

O capitalismo não só anula os esforços dos seus críticos, mas os incorpora e se beneficia deles

Por milênios as instituições se perpetuaram com base em autoridades “fortes” e centralizadas, coisas como a vontade de Deus e o direito de sangue das monarquias. Eram autoridades que os próprios discursos oficiais tomavam por inquestionáveis. Qualquer dissidência tinha de ser tomada como absurda e sem fundamento, e todo dissidente tinha de ser tirado espetacularmente do tabuleiro, devidamente desqualificado pela nudez, pela tortura, pela forca, pelo fogo ou pela cruz.

Apesar de terem funcionado por séculos, o fato de serem fortes e centralizadas era para essas autoridades, sem que ninguém se desse conta, uma desvantagem. Seu ponto Continue lendo →

A história da loucura

Para entender como isso funciona pode ser útil prover um sumário da história da ideia de doença mental. Nesta seção quero resumir A história da loucura de Michael Foucault, valendo-me ainda de Deviance and Medicalization: From Badness to Sickness, de Peter Conrad e Joseph W. Schneider. Enquanto examinamos essa história é fundamental que reflitamos sobre a nossa própria experiência nos serviços sociais. O quanto nossas instituições refletem os valores, trajetórias e estruturas das instituições que descobrimos aqui?

Surgia a compreensão de que os pobres eram benéficos para a riqueza das nações e dos capitalistas

A sociedade ocidental é singular na sua compreensão de que a “loucura” é uma “doença mental”. De que Continue lendo →

Sobre barragens

O fundamentalismo de mercado requer a fé de que as coisas podem ser mantidas isoladas umas das outras por muros de contenção.
A má notícia é que as barragens funcionam. A notícia pior é que não funcionam indefinidamente.

Em algum momento entre hoje e o instante em que desliguei uma televisão pela última vez, em 2004, o capitalismo tornou-se tudo que existe.

A expressão “espacialização do capital” quer dizer várias coisas, inclusive que não resta espaço – real ou virtual, distinção que o capitalismo trata de ignorar – que não tenha sido ocupado pelo capitalismo ou distorcido pela sua força gravitacional. Faz sentido continuar chamando de Império ao Império que anulou toda a competição? Tendo ocupado todos os espaços, o capitalismo tornou-se indistinguível daquilo com que poderia ser contrastado.

Mas “espacialização do capital” quer Continue lendo →

Árvores que andam

Há porém muitas espécies de ortodoxia, não somente aquelas ligadas explicitamente a credos religiosos, e a ortodoxia que quero mencionar hoje é a que domina o modo como vemos a pobreza e os sem-teto.

Os serviços sociais engajados com gente que experimenta pobreza e vida sem-teto acabaram sendo dominados por uma perspectiva médica. As pessoas hoje em dia veem a pobreza e os sem-teto como questões de saúde pública ou comunitária. Quando olha as fotos abaixo, por exemplo – você acha que está vendo o contraste entre um pessoa má que se tornou boa ou entre uma pessoa doente que se tornou sadia?
 

Modos de se ver

Daniel Oudshoorn

Quero começar reconhecendo que falo na qualidade de ocupante da terra que o Criador deu ao cuidado dos Anishinaabe e compartilhou com as tribos Haudenosaunee e Lenape. Ergo as mãos aos cuidadores desta terra e agradeço a eles por permitirem que gente como eu viva, trabalhe, brinque e e viva nos territórios que pertencem a eles ao lado do Askunessippi e ao longo de toda a ilha Turtle.

Na qualidade de colono, beneficio-me do projeto em andamento de colonialismo como se desenrola nos territórios ocupados que recebem o nome de “Canadá” nos mapas que estudamos na escola (mapas que deixaram de mostrar colônias europeias Continue lendo →

Solidariedade

 

– Ela tem razão – disse Caio Gonçaço, enrubescendo um pouco, e deslizou a mão sobre o mapa estendido no quadro-negro. – A Muralha amazônica você pode pensar como uma enorme, enorme biblioteca. Toda planta e todo animal, todo índio e todo ribeirinho é um volume dessa biblioteca, com o detalhe que cada livro está repleto de referências a todos os outros e só pode ser adequadamente lido e apreciado dentro desse sistema de alusões, descontinuidades e remetências. Se pegar isoladamente uma bromélia ou um índio você vai ter ainda uma obra prima, um livro formidável, mas vai perder as referências cruzadas a todos Continue lendo →


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