O que há de errado (e de bom) no capitalismo

Foto: Alexey Titarenko

O trajeto usual é este: quem se aproxima do socialismo é porque sente que há algo de errado com o capitalismo.

Como neste mundo o capitalismo é praticamente tudo que existe, é relativamente raro que as pessoas enxerguem no sistema (que é o seu mundo) falhas que as levem a concluir que o sistema precisa ser revisto ou substituído. Essa infrequência tem diversos motivos, mas deve-se antes de tudo à profundidade das transformações que o regime capitalista produziu no rastro da sua ascensão.

O capitalismo existiu em regime embrionário em todas as gerações dos homens, mas foi por milênios contido por restrições técnicas, morais Continue lendo →

O mundo ao reverso (e outros versos)

Nada é mais sério do que uma festa: nada concilia e emblema melhor a dupla paixão humana pela liberdade por um lado e pelo ritual por outro. Uma festa é um dia programado para ser fora do programa, e essa contradição encarna mais do que qualquer outro aspecto da cultura os contrastes da condição humana.

Os antropólogos entenderam há muito tempo o engano que seria continuar dividindo festas populares entre sagradas e profanas, visto que cada festa que encontrou ocasião de se entremear no calendário das gentes celebra a seu modo uma entrada no domínio do que não pode ser dito, visto ou explicado: o domínio do sagrado, que só pode Continue lendo →

A festa do fim do mundo

Na cultura popular de tradição europeia o tipo de cenário mais importante era o do festival: festivais de família, como casamentos; festivais comunitários, como a festa do padroeiro de uma cidade ou paróquia; festivais anuais que envolviam a maior parte dos europeus, como a Páscoa, a Festa da Primavera [May Day], o solstício de verão [Midsummer], a Quadra Natalícia [Twelve Days of Christmas], o Ano Novo e a Epifania; e, finalmente, o Carnaval. Eram ocasiões especiais em que as pessoas paravam de trabalhar para comer, beber e gastar tudo que tinham.
Peter Burke, Popular Culture in Early Modern Europe

A peleja do Carnaval com a Quaresma

Óleo de Pieter Bruegel, datado 1559.

Esse título – A peleja do Carnaval com a Quaresma, – ainda que o li pela primeira vez esta manhã, é o subtítulo que a Bacia nasceu para ter.

Na tradição europeia, o Carnaval era a temporada de excessos e glutonaria que precedia a temporada de austeridade e jejuns que culminava na Páscoa. Em alguns casos a oposição era celebrada ostensivamente num festival (de Carnaval), em que Carnaval e Quaresma, personificados, batalhavam pela alma do povo.

A necessária reviravolta: entrou em cena a Reforma, e ambos os lados perderam.


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