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– Pompeu Coxé morreu como ninguém morre – disse Lauco, – com o pescoço esmagado por um mourão de cerca.

– Não um mourão, uma viga horizontal de cerca rústica – corrigiu Ticiano. – Se for como as que vimos por aí, é uma tora, uma coisa longa, larga e pesada. Como arma é bastante desajeitada.

Estavam na casa de uma amiga de Ticiano, Priscila, na rua mais alta e iluminada de Gadaraí, junto ao penedo. Tinham acabado de jantar e estavam espraiados ao redor de três grandes travessas do que tinha sido peixe assado. Lauco e Niconó procuravam com os dedos traços de peixe, cebola e alcaparra que tivessem ficado para trás.

Tinham Continue lendo →

3

– Por dizer – disse José Fabro, para arredondar o que filho vinha lhe contando das conversas com os filhos de Niconó, – durante o dia as três meninas têm sustento e querendo até aplauso, mas de noite se têm proteção ninguém sabe quem a dá.

– Na casa de Niconó acreditam que dormem na rua, mas confirmar ninguém sabe.

Gadaraí ficava polvilhada no alto de um morro com uma das faces cortada. Estavam na estrada que descia a face mais suave do morro, cruzando pomares irrigados e pequenas pastagens, em direção à planura. Na orla da estrada um armazém ou outro, uma olaria e um par de banquinhas de frutas e cereais sem ninguém Continue lendo →

2

– Seu pai adora esta cidade – disse ao menino o homem que se chamava Niconó – por causa dos repentistas e dizedores de frases de efeito. Os modos que vossia toma por originais ele aprendeu aqui.

Niconó era baixo e muito magro, e tinha um nariz e uma barba longa e ondulada que pertenciam a pessoa muito maior. José Fabro e o filho tinham lavado os pés e estavam acomodados contra almofadas, os braços apoiados às mochilas, bebendo água com cravo. Ao redor, sentados sobre esteiras, jiraus e almofadões, observavam em silêncio oito dos dez filhos de Niconó.

– Sou feito de um modo assim – disse José Fabro – que não me apego a Continue lendo →

1

José Fabro não conseguia entender a vergonha; não conseguia entendê-la e era desse modo incapaz de simpatizar com ela.

Era sempre uma criança diferente das redondezas que vinha entregar o bilhete no meio da tarde, um pedaço de papel dobrado ao meio sem qualquer conteúdo que não a aplicação em relevo de um brasão nobiliárquico.

Quando todos dormiam e José Fabro saiu da casa para a noite eram dez e meia. Encontrou o questor Quintino denunciado por um palmo de luar, sentado na balaustrada de uma cisterna arruinada que no vilarejo estavam usando como depósito. Parecia sozinho, mas a cinquenta passos em alguma direção aguardavam sem Continue lendo →

Episódio 7:
Fortuna e glória

 

– Em pé no alto da construção, Miro Valhacouto perscruta a paisagem, erguendo o olhar da esplanada estéril até a selva circundante. Valhacouto pode ser o mais prestigiado especialista em desarmamento de hidrelétricas da União, mas está sempre pronto para recordar as suas origens.

– Toma – disse Genésio Casabranca, empurrando a caixa de metal pelo concreto até tocar a perna do outro.

– Nascido num quilombo do Catupiry, filho de um índio gaúcho com uma fazendeira do Xingu, Miro começa de baixo, desarmando mata-burros na fazenda do doutor Clory. Nos anos 90 ganha prestígio no Serestão desarmando argumentos de candidatos Continue lendo →

Liminar

 

Minona Martins, em pé na soleira da porta, era um homem rechonchudo de camiseta, chinelo e calça pescador; era também um índio de cocar de penas, e apoiava o braço sobre o tacape como se fosse uma bengala.

– Você não faz ideia – ele disse ao jornalista dentro da casa, – o que é lutar por dez anos contra hordas invasoras quando as regras dizem que você pode morrer mas não pode matar. O seu direito de pedir justiça termina onde começa o direito do Império de te exterminar.

Estavam em território ocupado pelo Império Gaúcho no Mato Grosso do Sul, fronteira com o Paraguai. Lá fora as fogueiras de pneu perfuravam a Continue lendo →

Jogo de pernada

 

– Uma alternativa que não te falei ainda – o italiano disse a Maiara – são relíquias. Temos que falar de relicários.

– Relicários – disse a índia, mas só para anular o ruído pelo método fogo contra fogo. Ela afastou o celular do ouvido. – Não adianta, o Simas não está atendendo o telefone. E agora acabaram os meus créditos.

– Então?

Maiara, que não tinha interesse maior do que saltar as partes da narrativa que não faziam a história avançar, estava irritadíssima. Olhou ao redor. Estavam na praia do Leme, na esperança que o tiroteio não os seguisse em lugar tão público.

– Não saia daqui – ela apontou Continue lendo →

Riodomar

 

O serestanejo Riodomar via qualquer assentamento de mais de 100 pessoas como um dragão que era preciso desbaratar e retalhar e espalhar mundo afora, na esperança que os pedaços pudessem recuperar alguma humanidade. Quando desceu na rodoviária e pisou o Sacrocondomínio de São Paulo, ao mesmo tempo testemunhava e lia sua própria história da descida aos infernos. Não Enéas, não Lampião: Riodomar. Era porém cravo temperado pelo Serestão: não ignorava que os infernos atraem com graça irresistível tudo que é humano, por isso devem ser entrados com a maior reverência. Não era à toa que andava descalço.

Esperava por Continue lendo →

Raízes

 

A sala da fazenda era emoldurada por dois quadros enormes: um mostrava a versão gaúcha do mapa da União, o outro o imperador Gerdau bebendo chimarrão de uma cuia que tinha o formato do mapa.

De dentro entrou Esmalte Heinz, deputado, homem loiríssimo e latifundiário, pulando para terminar de calçar uma bota de cano longo. De fora, escoltado por seguranças que ocuparam imediatamente todas as portas, o marechal Dos Santos, secretário de Estado dos negócios do Império.

– Estava de saída, deputado? – disse o marechal, estendendo ao fazendeiro uma mão enluvada.

– Sim, bom dia – Heinz terminou de calçar a bota e devolveu Continue lendo →

Pasto e soja

 

– Querendo dizer – disse Maiara, apontando para o mapa – que esses reinos são todos uma fachada. Estão conjuminados.

– Estão em guerra, você quer dizer – disse o italiano. Tocou por um instante a ilha no centro do mapa, depois fez com que o dedo deslizasse do sul para o noroeste. – A Residência em Vazília jurou proteger os índios e outros guardiões da Muralha, mas é há trinta anos que o Império Gaúcho está invadindo e dilapidando a Muralha com a conivência da União.

– Que ninguém faz nada só comprova o que eu estou dizendo – disse Maiara, que estava nua para disfarçar o fato de que estava usando Continue lendo →

O anjo e a meritocracia

Como alguém pode dizer o que acha justo sem saber os privilégios que vai ter

– Vejo que você está com o panfleto na mão – disse o anjo no guichê – e deve ter visto também o vídeo de cinco minutos, então já sabe como funciona. Uma pergunta sua, depois você responde uma pesquisa curta e é liberado imediatamente.

Eu tinha muito mais que uma pergunta, mas fiz que sim com a cabeça.

Onde – eu disse, do modo mais claro e deliberado que consegui.

– Onde, onde – disse o anjo, e deslizou o dedo sobre a tablet que trazia na mão. – Olha, parabéns, você vai nascer no Brasil, um país muito legal.


Depositado em juízo por Paulo Brabo · Desde 2004 · Sobre o autor e esta Bacia · Leia um livro · Olhe desenhos · Versões digitais dos manuscritos da Biblioteca do Monastério de São Brabo nas Índias Ocidentais · Fale comigo · A Bacia das Almas é repositório final de ideias condenadas à reformulação eterna