Manual de emergência do observador de catástrofes

A conspiração contra a raça humana (2010), de Thomas Ligotti, foi recebido como o livro mais pessimista de todos os tempos, tendo entre outros méritos inspirado os discursos do policial niilista da primeira temporada de True Detective. Thomas Ligotti é um escritor que me deixa otimista com relação às possibilidades da literatura de horror; seus textos de ficção, reunidos em outros livros, são a única coisa contemporânea que chegou até mim e se aproxima da vertigem que é Lovecraft.

Na qualidade de pessimista, no entanto, Ligotti tem ainda muito a aprender. Comigo.

Jogo de pernada

 

– Uma alternativa que não te falei ainda – o italiano disse a Maiara – são relíquias. Temos que falar de relicários.

– Relicários – disse a índia, mas só para anular o ruído pelo método fogo contra fogo. Ela afastou o celular do ouvido. – Não adianta, o Simas não está atendendo o telefone. E agora acabaram os meus créditos.

– Então?

Maiara, que não tinha interesse maior do que saltar as partes da narrativa que não faziam a história avançar, estava irritadíssima. Olhou ao redor. Estavam na praia do Leme, na esperança que o tiroteio não os seguisse em lugar tão público.

– Não saia daqui – ela apontou Continue lendo →

Riodomar

 

O serestanejo Riodomar via qualquer assentamento de mais de 100 pessoas como um dragão que era preciso desbaratar e retalhar e espalhar mundo afora, na esperança que os pedaços pudessem recuperar alguma humanidade. Quando desceu na rodoviária e pisou o Sacrocondomínio de São Paulo, ao mesmo tempo testemunhava e lia sua própria história da descida aos infernos. Não Enéas, não Lampião: Riodomar. Era porém cravo temperado pelo Serestão: não ignorava que os infernos atraem com graça irresistível tudo que é humano, por isso devem ser entrados com a maior reverência. Não era à toa que andava descalço.

Esperava por Continue lendo →

Raízes

 

A sala da fazenda era emoldurada por dois quadros enormes: um mostrava a versão gaúcha do mapa da União, o outro o imperador Gerdau bebendo chimarrão de uma cuia que tinha o formato do mapa.

De dentro entrou Esmalte Heinz, deputado, homem loiríssimo e latifundiário, pulando para terminar de calçar uma bota de cano longo. De fora, escoltado por seguranças que ocuparam imediatamente todas as portas, o marechal Dos Santos, secretário de Estado dos negócios do Império.

– Estava de saída, deputado? – disse o marechal, estendendo ao fazendeiro uma mão enluvada.

– Sim, bom dia – Heinz terminou de calçar a bota e devolveu Continue lendo →

O anjo e a meritocracia

Como alguém pode dizer o que acha justo sem saber os privilégios que vai ter

– Vejo que você está com o panfleto na mão – disse o anjo no guichê – e deve ter visto também o vídeo de cinco minutos, então já sabe como funciona. Uma pergunta sua, depois você responde uma pesquisa curta e é liberado imediatamente.

Eu tinha muito mais que uma pergunta, mas fiz que sim com a cabeça.

Onde – eu disse, do modo mais claro e deliberado que consegui.

– Onde, onde – disse o anjo, e deslizou o dedo sobre a tablet que trazia na mão. – Olha, parabéns, você vai nascer no Brasil, um país muito legal.

Os usos políticos do ateísmo: o capitalismo é o preço da paz

Houve tempo em que o principal método para se justificar o uso da violência era alegando-se o direito divino dos governantes. Nos nossos dias, para substituir as obsoletas justificativas religiosas inventaram-se outras. Essas novas justificativas são tão inadequadas quanto as antigas, mas sendo novas a maioria das pessoas não consegue perceber de imediato a sua futilidade.
Leon Tolstoi em Carta a um hindu (1908)

 

O ateísmo não é reacionário por natureza ou por tradição. É o contrário: pela inclemência do seu ponto de vista, os ateus estiveram por milênios entre os críticos mais lúcidos e articulados da cultura e da sociedade, Continue lendo →

A crise das pessoas que as pessoas ouvem

O PT precisava de uma oposição que não ouvisse Leandro Narloch, Rodrigo Constantino e Reinaldo Azevedo

Dez anos (agora 11) sem assistir televisão me deram o dom que sempre desejei: o de uma enorme impaciência. Esse período mais ou menos coincidiu com os mandatos do PT, e sobre esses governos quase tudo que tenho a dizer está aqui: não puderam beneficiar-se de uma oposição articulada e coerente.

Pense o que quiser, o PT está no poder há uma década arrecadando os dividendos da oposição festiva e popular que já foi. É uma dívida que o povo teria muito mais dificuldade de continuar pagando ao PT se uma oposição perspicaz, organizada e popular (de direita, porque oposição de esquerda o PT tem muita Continue lendo →


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