O custo da oportunidade

A primeira coisa é você não enganar a si mesmo; e ninguém você engana com mais facilidade do que a si mesmo.
Richard Feynman

 

Não entendemos a realidade diretamente, mas intermediada por discursos, preconcepções e filtros – óculos ideológicos que determinadas disciplinas chamam de modelos. Modelos conceituais explicam para nós a realidade mesmo quando não pensamos neles; na verdade, sua eficácia está ligada ao fato de que determinados modelos nos parecem tão naturais que não requerem reflexão. Cremos que estamos olhando o mundo diretamente, e esquecemos que estamos usando os óculos de determinada ideologia.

Diaz

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Diaz, Paulo Brabo | Clique no triângulo para ouvir

Este é o tema que escrevi para o protagonista de uma comédia musical que deixei inconclusa em 1998, e que deveria se chamar A igreja fantástica de Jackson Diaz.

Na história, um trilionário jovem, excêntrico e idealista vira crente, e sua interferência bem-intencionada mas extravagante começa a por à prova as tradições de uma igreja local. Sua iniciativa mais controversa é premiar com um salário a frequência dos Continue lendo →

A nós a liberdade

A nous la liberté/A nós a liberdade, de René Clair, é o melhor filme a que assisti neste milênio, e foi feito em 1931 (certo, Borges daria muita risada). A nous é um filme com pouquíssimos diálogos: render-se ao filme requer uma única linguagem, que você ou fala ou não.

[ATUALIZAÇÃO DE 5 de agosto de 2014]
O youtube tirou do ar o filme que estava aqui =\

Assista e depois me escreva. Se você acertar três ou mais das vezes em que o filme me fez chorar, vai ganhar minha cumplicidade eterna – e seu sonho de liberdade de volta.

 

O mundo ao reverso (e outros versos)

Nada é mais sério do que uma festa: nada concilia e emblema melhor a dupla paixão humana pela liberdade por um lado e pelo ritual por outro. Uma festa é um dia programado para ser fora do programa, e essa contradição encarna mais do que qualquer outro aspecto da cultura os contrastes da condição humana.

Os antropólogos entenderam há muito tempo o engano que seria continuar dividindo festas populares entre sagradas e profanas, visto que cada festa que encontrou ocasião de se entremear no calendário das gentes celebra a seu modo uma entrada no domínio do que não pode ser dito, visto ou explicado: o domínio do sagrado, que só pode Continue lendo →

O gerenciamento da esperança [3]

Em sua carta o Oliver esboça duas heranças ideológicas: de um lado a linhagem de Caim, gananciosa e otimista, que ignora a fragilidade e as contradições da condição humana e insiste em construir, cercar, organizar, produzir, conquistar, ampliar, ordenar e progredir (Ordem e Progresso!); do outro, a linhagem de Sete, lúcida e desiludida, que reconhece tanto a sua insuficiência quanto o potencial destrutivo da sua condição, pelo que avança um dia após o outro com toda a cautela, esperando misericórdia de Deus ou do universo. Caim é produtividade, Sete é responsabilidade.


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