Riodomar • A Bacia das Almas

 

Paulo Brabo, 29 de agosto de 2015

Riodomar

Estocado em Brasil · Manuscritos

Esta é a parte 3 de 7 da série Despachos da Muralha

 

O serestanejo Riodomar via qualquer assentamento de mais de 100 pessoas como um dragão que era preciso desbaratar e retalhar e espalhar mundo afora, na esperança que os pedaços pudessem recuperar alguma humanidade. Quando desceu na rodoviária e pisou o Sacrocondomínio de São Paulo, ao mesmo tempo testemunhava e lia sua própria história da descida aos infernos. Não Enéas, não Lampião: Riodomar. Era porém cravo temperado pelo Serestão: não ignorava que os infernos atraem com graça irresistível tudo que é humano, por isso devem ser entrados com a maior reverência. Não era à toa que andava descalço.

Esperava por ele atrás da gradinha o paulistano Abaeté Ribeiro, que o conduziu como Virgílio aos círculos interiores. A selva de pedra, Riodomar entendeu, era um ensaio do bicho-homem nas artes do descomunal e do impenetrável: uma zombaria e um clone infernal da Muralha. A cidade é autoexplicativa no trato da desesperança: três horas de caminhada pelas barranceiras dos prédios que não mudam de rosto e o cabra já não consegue conceber que haja em outro lugar outra vida.

– O que Maria falou sobre corrupção – disse o serestanejo quando encontraram onde acocorar.

Abaeté estava aquecendo café numa lata e demorou um instante para entender que Riodomar falava de corrupção na política, e de Maria Ressurreta do Cariri.

– Ah – ele disse, – a primeira Lei não-escrita da Corrupção no Vazil: os dois lados de cada interesse devem participar. Também lembrei disso esta semana.

E estendeu um copinho de plástico ao serestanejo.

Riodomar Remanso ergueu o copo para o céu e bebeu. Era um sujeito muito baixo, cabelo curto loiro-queimado agarrado na cabeça, mãos e pés enormes com veias que saltavam para fora da carne. Vestia calça social amarrada com imbira, túnica de algodão cru e colete. Na bolsinha do lado trazia talvez uma sandália de couro, mas fora do Serestão calçado não sabia usar.

– Sempre achei – disse Riodomar – que Ressurreta falasse aqui das conveniências do rabo preso e só. Enquanto cada lado tiver uma mão na vara da corrupção, o mundé tende a não cair. O que Clarice pôs nome de garantia torta.

– Situação e oposição são as duas cobras – disse Abaeté, fazendo um círculo com os dedos – que se alimentam uma da outra. Não convém para nenhum dos lados que fique decidido que um é sem sombra de dúvida mais virtuoso do que o outro. Daí a lei não-escrita adivinhada por Ressurreta do Cariri: da corrupção cada lado deve participar.

O paulistano abriu um saco de papel e tirou de dentro dois sanduíches de tomate. Abaeté Ribeiro era negro, muito magro, tinha olhos que provocavam sem pausa e se movia com um aprumo e uma ligeireza que Riodomar aprendeu imediatamente a invejar. Vestia agasalho esportivo vermelho e um boné feito de pedaços de outros bonés.

– É bom pra todo mundo, obrigado – Riodomar aceitou um dos sanduíches, – que a corrupção seja vista como coisa que ninguém é grande para contornar. Ninguém mais se surpreende, Abaeté, porque as denúncias se alternam.

– A corrupção vira uma comissão de frente, um novelão que é impossível deixar de assistir porque só tem bandidos e falsianes. E você sabe: como todo mundo curte ser expectadorzão, a narrativa sempre serve. Quando te enfiam na cara uma narrativa é para tirar a sua atenção das que querem que passe batido.

– É isso, quem mais distrai mais ganha – disse Riodomar. – À medida em que o cinza da cidade me foi apagando as cores o que entendi foi isso da narrativa da corrupção: vale muito à pena que esteja na cabeça e na boca de todos que existe um modo ilegítimo, corrompido e corrupto, de enriquecer, porque isso valida a ideia oposta.

– A corrupção estando na frente como ilegítima – Abaeté entendeu na hora – valida a ideia de que existe um modo legítimo de enriquecer dentro do mesmo sistema.

– Valida tudo – disse Riodomar. – Que se ponha abaixo a Muralha, que se estrangulem os rios, que se afoguem no esquecimento cascatas e modos de fazer, que se queime o Mar Cerrado com pasto e soja.

– Valida o Sacrocondomínio da Exclusão – disse Abaeté, – a cidade em que a festa apagou.

– Basta chamar o desfiguramento de desenvolvimento – disse o serestanejo. – Basta chamar a apropriação de tornar produtivo.

– Só ajuda ter o Judas da corrupção para malhar – Abaeté guardou o sanduíche no pacote sem ter dado uma mordida. – O que me traz à razão do meu convite e a outra visão de Ressurreta do Cariri: a ideia que o Vazil é uma gambiarra mantida em pé às custas de barragens. “Quando quer tirar um problema do caminho”, disse Maria, “o governo cria uma nova barragem”.

Riodomar terminou o seu sanduíche, limpou o circuito dos lábios com os dedos e esvaziou o copo de café.

– Isso que Ressurreta deixou claro – ele disse – que falava de todo tipo de barragens.

– Certo, no pensamento dela barragem é tudo que represa energia, não o que produz. Escolas são barragens, porque mano está ali sendo instruído nas artes de um mundo que não é o dele, na promessa de chegar a fazer parte desse mundo que dele nunca vai ser.

– Quem mais distrai mais ganha – Riodomar procurou na bolsa um papel de cigarro e a bolsinha de fumo. – Enquanto está ali sentado na escola sendo doutrinado na promessa da cenoura o cabra é represado pra não pensar em outras coisas.

– Tudo que mano aprende na escola é a desprezar a subsistência.

– Eeeeeeeh – disse Riodomar, derramando fumo na canoinha do papel, – quando subsistência deixar de ser tabu nesse país voltamos a conversar, eu e você.

– Não – disse Abaeté, – vamos conversar agora. Você é do Serestão, conhece as manhas da subsistência.

Riodomar lambeu e lacrou o cigarro e indicou com ele a cidade ao redor.

– Você é de São Paulo – ele disse, e não precisou completar a frase.

– O que estou querendo dizer – Abaeté rejeitou com o mão o cigarro que lhe ofereceu o outro – é que quem está ocupado com as manhas da subsistência está entranhado sem saber numa barragem sua.

– Como assim? – Riodomar vasculhou a bolsa procurando fósforos. – Quem só tem tempo para a subsistência não tem tempo para a revolução?

– Mais ou menos – disse Abaeté, e com um isqueiro que tirou do bolso acendeu o cigarro do outro. – Polícia também é barragem. Empresa e indústria também é barragem. Exército.

Ribamar deu uma tragada, apertou os olhos e deu um meio sorriso, incrédulo consigo mesmo que tivesse feito toda a viagem só para ouvir aquilo.

– Você quer formar um exército – ele disse.

– Mais ou menos – disse Abaeté. – Um exército é uma agremiação treinada para não ser necessária. Uma represa. Nesse Vazil de Deus em que a narrativa só fica de pé porque os trincados e emendas são amarrados com barragens, não há quem não faça sem saber parte de um. Um exército, quero dizer.

Riodomar estava para despejar um amontoado de vírgulas quando uma viatura encostou na esquina em que estavam alojados. Riodomar nunca tinha visto veículo maior, e de dentro quatro botas reluzentes conduziram para a rua dois policiais militares que tinham a altura de, fora de brincadeira, três homens normais. Quatro Riodomares.

O serestanejo tinha ouvido falar que no Rio e em São Paulo a polícia era gigante e poderosa, mas uma coisa era ouvir falar, outra ver aquelas coxas de peixe-boi avançado na direção da sua testa. Traziam pendurado no exoesqueleto todo o tipo de granada, cassetete, bomba de gás, arma preta, cinza e branca, e o colete à prova de balas projetava-lhes o peito um bom palmo para a frente.

– Que serviço porco – disse um dos policiais. – Só de olhar estou vendo três ou quatro contravenções. Imagina depois de revistarmos os caras.

– Calçada é lugar público – disse o outro – não é a cozinha da sua casa pra você ficar fazendo fogo, cacete. E pode-se saber o que os dois estão fumando?

– E qual é essa de andar descalço, ae?

O segundo deu um empurrão em Riodomar, derrubando-o das suas cócoras e fazendo cair o cigarro no chão.

– Vem cá, isso é jeito de responder à autoridade? – ele disse.

– Eu não falei nada – disse Riodomar, e sem se levantar estendeu o braço para recolher o cigarro.

– Por isso mesmo! – completou o primeiro, e apagou o cigarro com uma pisada distraída da bota enorme. Nem foi de propósito, e diante disso Riodomar abriu a boca; o policial podia com a mesma inocência ter apagado o seu braço inteiro.

O olhar de Abaeté disse “não reage, mas se for pra reagir reage muito”; Riodomar estava ponderando o que fazer com esses estímulos e perorações, quando outro automóvel encostou na frente do primeiro. Riodomar não entendia de carros, mas carro era um bicho que encontrava prazer em explicar por si mesmo quanto poderia custar: nesse caso não era pouco.

Da porta de trás saiu um homem muito feio e muito elegante que pintava o cabelo, e a praça cintilou com os reflexos que saltaram da sua gravata. Riodomar não tinha televisão e não lia revista, mas da perseguição daquele rosto nem mesmo ele tinha sido poupado: Procênio Mandaçaia, fundador da Bolsa de Valores de Deus e terceiro pastor mais rico da União.

– Pode deixar – o pastor deu um sorriso condescendente que Riodomar pensava só existir em cartaz de propaganda eleitoral, e dispensou com um gesto conciliador os dois policiais. – Eles estão comigo.

Paulo Brabo @saobrabo

Escrevo livros, faço desenhos e desenho letras. A Bacia das Almas é repositório final de ideias condenadas à reformulação eterna.

Este relato faz parte da série

Despachos da Muralha

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