Qual é a diferença • A Bacia das Almas

 

Paulo Brabo, 13 de agosto de 2006

Qual é a diferença

Estocado em Filmes

Assisti novamente esta semana, depois de um intervalo de talvez mais de vinte anos, ao filme Jogos de Guerra (Wargames), de 1983, dirigido por John Badham (de Os embalos de sábado à noite!) e estrelado por um muito jovenzinho Matthew Broderick (de Curtindo a vida adoidado).

Aqueles eram os eternos anos 80: o filme, em sua tentativa de resolver vicariamente o conflito da guerra fria, reflete adequadamene o bom-mocismo de toda a minha geração.

Concluo que, além de aventurona competente, o filme foi embrionário em mais de um sentido. Primeiro, no inconcebível mundo pré-internet em que todos vivíamos, Jogos de Guerra foi para muitos de nós o primeiro veículo de divulgação de conceitos que hoje são onipresentes: coisas notáveis como um computador conectando-se a outro pelo telefone, a vulnerabilidade de sistemas de segurança a ataques externos e a idéia de que todo desenvolvedor acaba deixando em seu sistema uma porta dos fundos de que alguém pode se beneficiar. Modems, hackers e backdoors – palavras e conceitos com que demoraríamos mais vinte anos para nos familiarizar, são elementos fundamentais do fio narrativo de Jogos de Guerra.

“O único modo de ganhar é não jogando.”

Segundo, Jogos de Guerra foi em seu proselitismo parte essencial da consolidação da posição pacifista de muitos, inclusive da minha. A moral estarrecedoramente lúcida da história não poderia ficar mais clara do que na confissão final do computador a seu criador: ”[A guerra] é um jogo estranho. O único modo de ganhar é não jogando”. O mesmo já tinha sido dito antes, mas nunca com a mesma pirotecnia e a tanta gente. Hoje em dia – ai de nós! – até mesmo os profetas de Hollywood se calaram, e não ocorreria a ninguém, nem mesmo ao doce Spielberg, sugerir a paz como possibilidade a ser levada a sério.

Finalmente, Jogos de Guerra foi, mais do que Tron, do ano anterior. e tanto quanto Brainstorm, do mesmo ano, precursor e profeta do mundo de Matrix (1999), em que finalmente se dissolve a barreira entre realidade e simulação. Depois de desencadear uma crise internacional ao convidar o computador do Comando da Defesa Aerospacial Norte-Americana para um jogo amigável de Guerra Termonuclear Global, o personagem de Matthew Broderick digita nas letras verdes da antiquada tela negra de fósforo:

Is this a game, or is it real?

Depois da conveniente pausa dramática o computador responde, em maiúsculas na tela e audivelmente em distorcida voz sintetizada:

WHAT IS THE DIFFERENCE?

Paulo Brabo @saobrabo

Escrevo livros, faço desenhos e desenho letras. A Bacia das Almas é repositório final de ideias condenadas à reformulação eterna.

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