Prefácio a Castellion • A Bacia das Almas

 

Paulo Brabo, 14 de janeiro de 2014

Prefácio a Castellion

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Mas se alguém difere deles a respeito do batismo, da ceia ou da justificação, é um herege, é o diabo, é necessário persegui-lo sobre terra e mar, como um inimigo eterno da Igreja, como um terrível destruidor da “sã doutrina”, mesmo se sua vida é pura, mesmo se ele é clemente, paciente, bom, misericordioso, liberal, religioso, temente a Deus, mesmo se seus costumes são irrepreensíveis aos olhos de seus amigos e de seus inimigos.
Sébastien Castellion (1515-1563)

 

A quem se sente tentado a me atribuir alguma medida de originalidade me toca sempre lembrar: meu único e repetitivo argumento é a história. Meu trabalho é fácil, porque nossa atitude com relação ao tempo é embaraçosamente provinciana. Crendo que vivemos no mais lúcido e avançado dos tempos, esquecemos que no terceiro século Orígenes chamava de “privado de entendimento” quem acreditava na literalidade de Gênesis, e que no segundo século Celso denunciava a tendência do cristianismo a pulverizar-se em facções e a beneficiar-se disso.

Tome-se ainda o caso exemplar de Sébastien Castellion, a respeito de quem Leandro Thomaz de Almeida escreveu um livro – É necessário queimar os hereges – que me coube prefaciar. O livro será lançado pela Fonte Editorial no dia 1º de fevereiro; nesse meio tempo, leia o prefácio e pasme comigo diante de tudo que já foi dito, e a quem.

 

Prefácio a “Queimar os hereges”, de Leandro Thomaz de Almeida

Mais do que falar de Sébastien Castellion, um teólogo francês do século XVI, este livro o deixa falar. E assim que ouvi-lo falar você vai entender por quê.

Numa época que fervia de gente formidável, Castellion foi um pensador particularmente brilhante. Para Voltaire, sua erudição e intelecto superavam os de Calvino. O realmente notável, no entanto, é que não é sobre o brilhantismo de Castellion que este livro convida você a se debruçar, mas sobre a sua gentileza. Estamos falando de um homem que tomou por missão viver dizendo a gente religiosa que parasse de matar, e uma figura dessas merece a minha atenção em qualquer século.

Castellion testemunhou com horror as fogueiras da Inquisição católica, e esse fogo o impeliu em direção ao ensino protestante, que ele tomava por mais fiel ao espírito dos evangelhos: mais lúcido, menos dogmático e menos pronto a condenar. O que ele não esperava, e com isso não chegou a se conformar jamais, era ver repetidas nas trincheiras protestantes as mesmas chamas discriminatórias.

Porque, claro, aconteceu: um médico espanhol, Michael Servetus, questionou a doutrina da trindade como sustentada por João Calvino, e apresentou seus argumentos num livro. Ele não sobreviveu ao crime de não omitir a sua discordância: em sua próxima passagem por Genebra, governada por Calvino, Servetus foi condenado por heresia e entregue ao fogo com um exemplar do seu livro preso à perna.

Sébastien Castellion entrou para a história como o sujeito que ousou apontar a Calvino, através de vários livros e com uma miríade de argumentos, que como cristão ele não tinha direito de mandar matar quem quer que fosse, especialmente alguém que meramente discordasse dele. Castellion tinha sido por anos aliado de Calvino, mas o assassinato de Servetus demonstrou que os separava a única diferença que não se pode ignorar: Calvino não sabia conviver com a diferença, e Castellion tomava a habilidade de tolerar o diferente como a mais fundamental das virtudes cristãs.

Este livro deixa que Castellion diga com suas próprias palavras que a gentileza e a tolerância são mais importantes do que a ortodoxia. Ele quer convencer leitores obtusos como Calvino e como nós mesmos daquilo que a um seguidor de Jesus deveria parecer evidente: que ser bom, generoso e tolerante é coisa mais admirável e desejável do que estar meramente certo. E não só isso: para Castellion, um cristão só demonstra que está certo quando o que ele acredita que é certo faz com que ele seja e permaneça bom.

O discípulo não precisa ser mais ortodoxo do que o mestre, e a ortodoxia de Jesus era o amor.

 

Nos nossos dias não custa nada tuitar “hereges somos todos aos olhos de quem não pensa como nós”. Sébastien Castellion articulou essas precisas palavras há quase quinhentos anos, quando não haviam sido proferidas antes, e colocou-as por escrito quando fazê-lo implicava em verdadeiro risco de vida.

Como nos faz refletir logo de início o Leandro Thomaz de Almeida, Castellion nos obriga a questionar a crença de que somos meramente filhos da época – a noção de que ninguém deveria por exemplo se arvorar a condenar Calvino pela execução de Servetus, quando vivemos numa sociedade com outros valores e parâmetros de justiça muito diversos. Ninguém que vive na luz presente deveria condenar a treva do passado, certo?

Castellion está aí para denunciar que talvez estejamos culturalmente condicionados a crer que estamos culturalmente condicionados. O próprio conceito de “época” talvez seja apenas uma construção útil; provavelmente tudo que existe são pessoas, gente que só pode ser apreciada na medida em que agiu ou deixou de agir como gente.

Pode parecer incrível encontrar um teólogo do século XVI sustentando a separação entre igreja e estado, enfatizando a supremacia do amor sobre a ortodoxia e insistindo que tolerância (que é hospitalidade) é a virtude cristã por excelência. Porém talvez seja menos a raridade de um homem que ousou vencer o condicionamento do seu tempo e mais a raridade de um ser humano que se recusou a apagar o fogo da própria humanidade. Castellion não queria que fossemos capazes de apagar de ninguém a chama sempre distinta que nos distingue, porque acreditou encontrar nessa chama indecisa e vária a decidida luz divina.

A voz de Castellion é uma voz terrível porque nos condena a todos, não só aqueles cristãos que insistem com Calvino que matar é justo e necessário em algumas circunstâncias. O mais humilde, pacífico e tolerante dos cristãos não desconhece que a vontade de estar certo é sempre maior do que a vontade de sermos humildes e tolerantes – mesmo, e talvez especialmente, quando ser humildes e tolerantes nos parece tão claramente a coisa certa a se fazer.

A última tentação é responder com violência à intolerância violenta, e Castellion insistiu até o final que o fato de discordar de Calvino não implicava que ele desejasse para o reformador algo que não fosse bom e benéfico. Seu grande argumento era na verdade esse: o cristianismo deveria não apenas suportar a discordância, mas demonstrar ao mundo infinitamente dividido que na luz do amor a discordância e a comunhão interpessoal podem conviver pacificamente.

Sébastien Castellion continuou respondendo Calvino com gentileza mesmo depois de ser condenado por ele à morte, mesmo depois de ser chamado por ele filho de Satanás. Castellion teve um mestre formidável, e com ele não aprendeu só a defender a verdade (que é o amor) com argumentos em que se alternavam lucidez e brilho. Aprendeu com Jesus ainda que a gentileza e o amor nos custam tudo, mas são – neste mundo em que tudo se perde – a única pérola que vale a pena comprar.

 

* * *

É necessário queimar os hereges será lançado no primeiro dia de fevereiro deste ano, às 10 da manhã, na sede da Fonte Editorial, na rua Barão de Itapetininga 140, centraço de São Paulo – ali mesmo onde foi o lançamento de As divinas gerações.

Paulo Brabo @saobrabo

Escrevo livros, faço desenhos e desenho letras. A Bacia das Almas é repositório final de ideias condenadas à reformulação eterna.

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