Porém quando percebo • A Bacia das Almas

 

Paulo Brabo, 15 de agosto de 2008

Porém quando percebo

Estocado em Manuscritos

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Porém quando percebo, no meu sonho, a presença de uma ameaça secreta que meus amigos desconhecem, a bem-aventurança do grupo se transmuta imediatamente em material mais frágil e mais fluido, mais difícil de segurar entre os vãos dos dedos.

Meu sentimento de segurança e bem-estar estava ligado à sensação de ser parte indeferenciada do grupo: não se originava do fato de sentir-me alguém em particular, mas de sentir-me um diluído entre muitos. A aparição da serpente que ninguém mais parecia ver mudava tudo, porque me obrigava a um posicionamento de que eu preferia poder me esquivar.

O mero fato de enxergar uma ameaça que nenhum deles era capaz de perceber já me afastava, talvez irremediavelmente, dos demais componentes do grupo. Apesar de que nada mudara no acolhimento dos meus companheiros, no que me dizia respeito uma enorme distância se abrira sem aviso e sem cura entre nós.

Por outro lado, a serpente estava logo ali, caminhando impunemente entre as pernas dos meus amigos. Eu não sabia há quanto tempo aquela ameaça estivera entre nós ou o que a havia mantido oculta até aquele momento, mas agora eu via um perigo muito real, muito próximo, à minha integridade e à dos meus companheiros.

Meu dilema estava em que para proteger o grupo eu precisava apontar uma ameaça que o próprio grupo não aparentava perceber. Meu dilema estava em que, para proteger o grupo, eu precisava dar um passo para além da indiferenciação — perdendo, assim, todas as seguranças e privilégios que ser parte indiferenciada do grupo me havia conferido até aquele momento.

A singularidade daquela percepção me pressionava na direção de um processo que eu buscara por longos anos evitar: aquilo que Jung chamou de individuação, a penosa tarefa de se tornar um indivíduo.

Paulo Brabo @saobrabo

Escrevo livros, faço desenhos e desenho letras. A Bacia das Almas é repositório final de ideias condenadas à reformulação eterna.

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