Perímetro • A Bacia das Almas

 

Paulo Brabo, 15 de maio de 2007

Perímetro

Estocado em Manuscritos

Não sei se o que mais me irrita é a surra ou o fato de terem levado Cassandre, mas esforço-me para não pensar nisso. Tento prestar atenção no que o balseiro está dizendo; cerro os olhos para parecer sóbrio e concentro-me nas maliciosas súplicas que Dê Pabodí emite por trás da parede invisível que erigiu entre nós com duas garrafas de putra. Meus pés descalços estão apóiados um sobre o outro no assoalho úmido e levo de vez em quando as costas da mão os lábios, que estão começando a desinchar.

Aconteceu há menos de uma hora e já sou obrigado a agir como se não tivesse acontecido. Há meia hora apanhei e levaram Cassandre, e sei de repente que o que mais me irrita é não ter tido a liberdade ou a coragem de sair atrás dela naquele mesmo momento. Pabodí, que é tem feições de mulato e é troncudo e usa um chapéu de palha, não sabe de nada e compadeceu-se do meu aspecto lamentável ignorando-o.

O homem olha-me apreensivo, preocupado com minha capacidade de entender o que ele está pedindo, mas continua a me consolar reabastecendo os copos com putra feliz, guardada em garrafas abertas para acentuar o sabor.

Estou no escritório de Pabodí no segundo andar de um enegrecido complexo de construções de madeira sobre palafitas, salas úmidas entreligadas por passagens estreitas sem corrimão e escadinhas precárias. Um trecho de mata separa-nos do rio que daqui não posso ver, mas da janela ameaçam, imóveis, as imensas roldanas e cabos que animam as balsas de Dáun-Behri.

Do outro lado do rio, do outro lado dos cabos, está o inferno, e essa é a boa notícia. A má notícia é que as balsas não estão funcionando. Segundo Dê Pabodí, a última passagem bem-sucedida foi há três dias.

Ao contrário do que acontece com habitantes legítimos do céu, gente feliz como eu, é coisa melindrosa e arriscada para imigrantes do inferno como Dê Pabodí envolverem-se com contrabando. Caminhões guiados por motoristas do céu transitam impunentemente entre as fronteiras pelas Rondas Pardas e por canais ainda menos legítimos, mas aos encarnados e nativos do inferno está negada essa liberdade de ir e vir.

Os infernais não podem atravessar em primeiro lugar porque é ilegal é difícil, a não ser que se recorram aos serviços de facilitadores como eu, que somos nem sempre dignos de confiança; em segundo lugar, não atravessam com contrabando porque não têm como voltar – ao contrário de nós celestiais, que temos a cada visita três dias de franquia para escapar do inferno antes de ganharmos a condição de permanentes, efetuada a primeira travessia está vedada para sempre aos infernais a chance de voltarem atrás.

É precisamente por essa última razão que os encarnados, imigrantes bem sucedidos do inferno entre nós, não têm como se envolver diretamente com o tráfico. Se se aproximarem demais da linha da fronteira (digamos, dez ou quinze metros) serão irrestivelmente atraídos para uma condição imobilizante da qual não têm como escapar para um lado ou para outro – aquilo a que se dá o nome de “ir para a estremadura”, e tomou em seu abraço de ferro o Ermitão.

Para contornar as restrições impostas pela sua condição e colher os benefícios do tráfico clandestino, encarnados barra-pesada como Pabodí recorrem a todo tipo de artifícios. Em termos gerais, o céu é temperado e o inferno tropical, e a faixa da fronteira é uma extensão quase ininterrupta de banhados insalubres e manguezais. Em alguns poucos trechos, como em Dáun-Behri, a divisa é marcada por um rio de boa largura; aqui o contrabando é trocado em balsas de madeira – operadas a uma distância segura, tanto de um lado quanto de outro.

O problema de sistemas precários como esse está, evidentemente, na manutenção; quando algo dá errado, como acaba de dar, nem encarnados nem infernais tem como seguir os cabos até o rio para diagnosticar o problema. Um habitante do céu poderia fazê-lo, mas os que chegam à fronteira estão em geral interessados em escapar para o inferno, ou pelo menos em atravessar para ver o outro lado impunemente; dos outros, cidadãos respeitáveis que moram nas cidades, nenhum se rebaixaria publicamente a prestar serviço para um encarnado numa baiúca destas.

A não ser que esteja desesperado como eu.

– Levo pessoalmente o seu pacote para Howrah como você está pedindo, nos termos que você está pedindo – Dê Pabodí está falando muito sério com a límpida sanidade da embriaguez, os dedos vermelhos apertando o salvo conduto assinado por Pjelelani Andu – se você me ajudar aqui.

Sorrio cinicamente, engolindo em seco a odiosa consciência de que não tenho escolha. A todos os problemas que me assombram tenho de herdar esse que há dez minutos não me dizia respeito. Bato sobre a mesa o copo com a boca para baixo, para indicar que estamos fechando negócio, e dou-lhe uma batidinha com os dedos nas veias saltadas das costas da mão, para indicar que confio nele.

Sem qualquer intervalo estou descendo atrás de Dê Pabodí a escada de treze degraus que separa o nível das palafitas da base da torre da máquina principal. As engrenagens e roldanas pendem sobre o vazio vinte metros acima de nós, os cabos estirados mas imóveis perdem-se na copa das árvores na direção do sul e do inferno.

Pabodí me passa às mãos uma lanterna elétrica presa a um rolo de cabos, e uma tiara muito enferrujada à qual estão presos um fone de ouvido e um microfone.

– O rio fica a duzentos metros mato adentro – ele aponta com a mão para a picada enlameada que pode ser uma trilha de porcos do mato. – A balsa deve estar perto da margem, se é que já não chegou deste lado.

Aceno com a cabeça para mostrar que entendi.

– Não preciso da mercadoria – ele esclarece, – mas preciso da balsa funcionando. Faça qualquer coisa para desobstruir o caminho.

Ele prende ao meu cinto uma garrafa de putra acomodada num invólucro de couro, me ajuda a ajustar a tiara de comunicação e por fim, puxando-a com naturalidade de um bolso interno da japona, me oferece o cabo ranhurado de uma Browning 9mm.

– Treze tiros – ele explica.

– Não pretendo morrer hoje – aceito com relutância a pistola.

– Não é pra você se defender – ele sorri com dentes muito brancos.

Paulo Brabo @saobrabo

Escrevo livros, faço desenhos e desenho letras. A Bacia das Almas é repositório final de ideias condenadas à reformulação eterna.


 

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