Pequenas narrativas parciais • A Bacia das Almas

 

Paulo Brabo, 20 de julho de 2009

Pequenas narrativas parciais

Estocado em Goiabas Roubadas

A modernidade dos tempos recentes é inquieta, desordenada. De fato, alguém poderia argumentar que “pós-modernismo” é apenas o nome que damos a essa perturbação. Como observa Lyotard, o pós-moderno é “aquilo que, dentro do moderno… nega a si mesmo o conforto de formas positivas [good forms]; que busca novas formas de apresentação, não a fim de desfrutá-las, mas a fim de comunicar um senso mais acentuado do que não tem como ser apresentado“. Apesar da (e devido à) hegemonia do capitalismo global, o mundo contemporâneo é fragmentado pelo multiculturalismo, pelo pós-colonialismo e pelo fundamentalismo. Embora um império capitalista cada vez mais monolítico domine nosso mundo, múltiplas realidades culturais e psicológicas O pós-modernismo busca a parábola ao invés do mitoe tentativas desesperadas e polêmicas de defender determinada ideologia em detrimento de todas as outras vão fraturando-o cada vez mais. A pós-modernidade pertence a esse mundo, embora questione a verdade de qualquer totalização dele. Na verdade, o pós-modernismo deleita-se nessa multiplicidade e no estado instável da modernidade. Por essa razão, muitos teóricos descrevem a pós-modernidade usando vários termos com o prefixo grego para (junto, ao lado de). Parasita é um dos mais reveladores desses termos porque expressa muito bem a posição do pós-modernismo dentro do moderno. O pós-modernismo é a estática (em francês, parasite) inerente à mensagem modernista, o convidado indesejado que serve-se da comida do anfitrião.

Dessa forma, o pós-modernismo não é algo “outro” que o modernismo, como se se tratassem de dois movimentos filosóficos e eras históricas distintos. O pós-modernismo não existe fora do modernismo. Apesar disso, o pós-modernismo não aceita acriticamente o mito moderno com suas inclusões e exclusões. Como mencionado anteriormente, a postura básica do pós-modernismo é a suspeita, e isso inclui, e na verdade enfatiza, uma auto-suspeita crítica. Ele resiste ao anseio por uma metanarrativas míticas, dando preferência ao invés disso a uma multiplicidade de pequenas narrativas parciais. O pós-modernismo desafia as fronteiras do moderno, brinca com esses limites e demonstra finalmente seu caráter fictício e arbitrário. Ele desafia todas as oposições binárias –A postura básica da pós-modernidade é a da suspeita coisas como história e mito, mito e verdade e até mesmo moderno e pós-moderno, – tornando o suprimido manitesto e recuperando o marginalizado.

Seguindo uma distinção feita por Crossan nos anos 1970, podemos usar outro dos termos para e dizer que o pós-modernismo busca a parábola ao invés do mito. Segundo Crossan, o mito é uma narrativa que fornece suporte ao status quo cultural (o dominante), enquanto a parábola é uma narrativa que desafia a presunção definitiva do status quo sem endossar qualquer narrativa alternativa ou contramito. A párabola é uma “pequena narrativa” que existe parasiticamente ao lado da metanarrativa dominante. A insubordinada presença da párabola torna impossível a totalização mítica e ajuda portanto a gerar um conscientização do status fictício do mito. A parábola reside no mito dominante, mas também expõe suas lacunas e incoerências; dessa forma ela aponta para o mito como narrativa, levando as pessoas a hesitarem em sua fidelidade ao mito.

An Elephant in the Room:
Historical-Critical and Postmodern Interpretations of the Bible

George Aichele, Peter Miscal, Richard Walsh
Journal of Biblical Literature, 128, no 2 (2009)

Leia também:
O holocausto da Alma
Pucca e os contadores de histórias
Sobre dar nomes a primatas
O que é pós-moderno e o que não é

Paulo Brabo @saobrabo

Escrevo livros, faço desenhos e desenho letras. A Bacia das Almas é repositório final de ideias condenadas à reformulação eterna.

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