Os ricos como não conformistas: o populismo de mercado • A Bacia das Almas

 

Paulo Brabo, 24 de março de 2014

Os ricos como não conformistas: o populismo de mercado

Estocado em Política

Populismo foi, desde sempre, a modalidade retórica de colocar “o povo” contra “a elite” – de modo a manipular as massas e fazer avançar algum interesse. Tradicionalmente, o populismo idealizou o homem comum, simples, de família, opondo seu modo de vida singelo e despretensioso ao modo de vida decadente e privilegiado dos ricos e poderosos.

Porém basta ouvir gente lúcida como o analista político Thomas Frank para entender que o capitalismo neoliberal inverteu por completo esse discurso, e criou no processo uma modalidade de populismo muito mais insidiosa. O populismo de mercado, em vez de idealizar o homem comum, glorifica o capitalismo e os grandes empreendedores.

Basicamente, o populismo de mercado entende que as corporações e a operação do mercado são de algum modo mais LEGÍTIMAS do que o governo, mais próximas do povo, algo com que as pessoas podem se identificar. É por isso que, de acordo com o populismo de mercado, um diretor de empresas rico como Bill Gates é um homem do povo de um modo que alguém como Al Gore, que passou a vida no governo, jamais chegará a ser.

Nesse populismo invertido, os ricos são admirados e a elite que deve ser odiada é o governo. A democracia e os representantes eleitos nada representam além de seus próprios interesses. “O povo” é verdadeiramente representado pelos empreendedores bem-sucedidos, gente como Steve Jobs, a quem o livre mercado enriqueceu e premiou.

Ainda Thomas Frank:

Revelador é que, na retórica de seus opositores, os sindicalistas deixaram de ser “comunistas” e “gente despreparada”: eles são agora chamados de “autômatos” – gente sem iniciativa própria, recipientes vazios preenchidos com a vontade de outros. Tratar os trabalhadores desse modo tem suas vantagens táticas – faz com que não tenhamos de levar suas ideias a sério, – mas reflete também um dos pressupostos mais básicos da cultura da Nova Economia: acredita-se que os sindicalistas são autômatos porque eles agem fora do âmbito do mercado.

É só quando agem no âmbito do mercado, dizem-nos os pensadores econômicos neoliberais, que as pessoas agem racionalmente, escolhem de modo acertado e tornam os seus desejos conhecidos de modo transparente. É só desse modo que os negócios podem nos dar o que queremos, provendo-nos a partir de nossas escolhas livremente expressas. É no mercado de consumo e de trabalho que somos completamente humanos; são nos mercados que demonstramos que temos uma alma. Protestar contra o mercado equivale a abrir mão de nosso próprio caráter de pessoa, a nos posicionarmos do lado de fora da família da humanidade.

É por isso que [o economista Jagdish] Bhagwati encontrou como alegar que Phil Knight, diretor presidente da Nike, “tomou uma posição” quando batalhou contra os que apoiavam os sindicatos nas universidades, mas chamou de “marionetes dos sindicatos”, incapazes de pensar por si mesmos, os que criticaram as condições de trabalho nas fábricas asiáticas. É por isso que, dentro dessa retórica, grandes empresários são “líderes” e líderes de sindicato são “chefes” – apesar do fato que sindicatos são normalmente democracias e corporações são quase sempre ditaduras.

É por isso que é visto como ato de heroísmo denunciar uma iniciativa governamental que procure regulamentar o mercado (como aconteceu recentemente em Davos), mas é tido como ato de cinismo entrar em greve contra as novas estratégias de administração das fábricas (como aconteceu recentemente em Detroit).

É por isso que os hipsters que trabalham para empresas de software a agências de propaganda são vistos como não-conformistas iluminados, possivelmente santos, enquanto os hipsters que marcham pelas questões ambientais são vistos como loucos ou estúpidos.

É por isso que trabalhadores que se unem aos sindicatos são tidos como robôs, enquanto os trabalhadores que transacionam ações online estão entrando em contato com a sua humanidade.

Nós nos vemos como participantes voluntários e interativos da autêntica, individualista e cambiante rede da democracia de mercado; eles simplesmente ouvem e obedecem.



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Paulo Brabo @saobrabo

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