Os ocupantes da arca • A Bacia das Almas

 

Paulo Brabo, 01 de setembro de 2008

Os ocupantes da arca

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NOÉ: Os ocupantes da arca

A arca foi completada de acordo com as instruções contidas no livro de Raziel. A próxima tarefa de Noé foi reunir os animais.

Ele teria de levar consigo nada menos do que trinta e duas espécies de pássaros e trezentas e sessenta e cinco espécies de répteis. Deus, no entanto, ordenou aos animais que se dirigissem até a arca, e sem que Noé tivesse de mover um dedo todos eles agruparam-se ali.

Na verdade os animais compareceram em número maior do que seria necessário, pelo que Deus instruiu Noé a sentar-se junto à porta da arca e prestar atenção em quais animais deitavam e quais ficavam em pé assim que chegavam à entrada. Os primeiros pertenceriam à arca, porém não esses últimos.

Assumindo seu posto como lhe havia sido ordenado, Noé ficou observando uma leoa acompanhada de seus dois filhotes. Os três animais estavam deitados, mas os dois filhotes começaram a brigar com a mãe, que logo levantou-se e ficou em pé ao lado deles — e Noé levou os filhotes para dentro da arca.

Os animais selvagens, os animais domésticos e os pássaros que não foram aceitos ficaram em pé ao redor da arca por um total de sete dias, porque o ajuntamento dos animais ocorreu uma semana antes que o dilúvio descesse. No dia em que eles chegaram à arca o sol escureceu, as fundações da terra tremeram, luziram relâmpagos e soaram trovões como nunca havia acontecido antes, porém ainda assim os pecadores não se arrependeram: nada mudaram na sua conduta perversa durante aqueles sete últimos dias.

Quando o dilúvio finalmente desabou, setecentos mil dos filhos dos homens reuniram-se ao redor da arca e imploraram pela proteção de Noé.

Em voz muito alta ele respondeu:

— Não eram vocês que viviam em rebelião contra Deus, dizendo “Deus não existe”? Ele então trouxe ruína sobre vocês, a fim de aniquilá-los e destruí-los da face da terra. Não tenho estado profetizando essas coisas entre vocês ao longo destes cento e vinte anos, sem que vocês desses ouvidos à voz de Deus? E agora vocês querem ficar vivos!

— Que seja! — gritaram os pecadores. — Estamos dispostos a voltarmos para Deus, desde que você abra a porta da sua arca e nos receba, de modo a que vivamos ao invés de morrer.

Noé respondeu:

— Isso vocês fazem agora, quando é tão urgente a sua necessidade. Porque não voltaram para Deus nos duzentos e vinte anos do período de graça em que Deus colocou-me entre vocês? Agora vocês vêm e falam assim, mas é porque suas vidas correm perigo. Deus portanto não ouvirá nem lhes dará ouvidos; vocês nada conseguirão.

A multidão de pecadores tentou então entrar na arca à força, mas os animais selvagens que vigiavam ao redor da arca lançaram-se sobre eles. Muitos foram mortos mas alguns escaparam, apenas para encontrarem a morte nas águas do dilúvio.

A água sozinha não foi capaz de ocasionar-lhes a morte, pois eram gigantes em força e estatura. Quando Noé os ameaçava com o castigo divino eles costumavam responder:

— Se as águas do dilúvio vierem de cima, nunca nos chegarão à altura do pescoço; se vierem de baixo, as solas dos nossos pés são grandes o bastante para tampar as nascentes.

Porém Deus fez com que cada gota passasse pelo Geena antes de cair na terra, de modo que o calor da chuva queimava a pele dos pecadores — punição apropriada para os seus crimes. Da mesma forma que foram aquecidos por seus desejos sensuais, que os inflamavam a excessos de imoralidade, foram castigados com água aquecida.

Nem mesmo na hora da morte os pecadores conseguiram suprimir seus instintos perversos. Quando a água começou a jorrar das nascentes eles começaram a atirar seus filhinhos dentro delas, na tentativa de estancar o dilúvio.

Foi pela graça de Deus, e não por seus próprios méritos, que Noé encontrou na arca refúgio para a força devastadora das águas. Embora tenha se mostrado mais íntegro do que seus contemporâneos, não era ainda sim digno das maravilhas realizadas em seu favor. Noé tinha fé tão pequena que não entrou na arca até que a água lhe chegava na altura dos joelhos. Escaparam o perigo com ele sua piedosa esposa Naamá, filha de Enos, seus três filhos e suas respectivas esposas.

Noé não casou até completar quatrocentos e noventa e oito anos de idade; o Senhor então disse a ele que tomasse uma esposa para si. Sua intenção tinha sido não colocar filhos no mundo, sabendo que morreriam todos no dilúvio, pelo que teve apenas três filhos, nascidos não muito antes que o dilúvio viesse.

Deus lhe deu um número pequeno de filhos, a fim de poupá-lo da necessidade de construir uma arca grande demais caso eles se mostrasse piedosos. E poupá-lo também, caso se mostrassem depravados como os demais da sua geração, da tristeza de testemunhar a sua destruição.

Da mesma forma que Noé e sua família foram os únicos a não compartilharem do caráter corrompido da sua época, os animais acolhidos na arca haviam também vivido uma vida natural. Pois naquela época os animais eram tão imorais quanto os homens: o cão unia-se ao lobo, o galo ao pavão, e muitos outros viviam sem qualquer pureza sexual. Os que se salvaram foram os que se mantiveram imaculados.

Antes do dilúvio os animais impuros era mais numerosos do que os animais puros. Depois do dilúvio a proporção foi invertida, porque sete pares de animais puros foram preservados na arca para cada dois pares de animais impuros.

Um animal, o reem, Noé não pode receber na arca, por causa do seu enorme tamanho. Em vista disso Noé amarrou-o à arca, e o reem acompanhou-os correndo atrás. Noé também não conseguiu espaço para o gigante Ogue, rei de Basã, que escapou do dilúvio amarrado no topo da arca, sobre a qual veio sentado. Noé alimentou-o diariamente através de um buraco, pois Ogue havia prometido que ele e seus descendentes seriam seus escravos perpetuamente.

Duas criaturas muito peculiares também encontraram refúgio na arca. Dentre os seres que vieram até Noé pedindo abrigo, estava a Falsidade. Foi-lhe negada a entrada porque não tinha um companheiro, e Noé estava apenas admitindo animais em pares. Falsidade saiu então em busca de um parceiro, e encontrou o Infortúnio, que juntou-se à Falsidade com a condição de poder apropriar-se de tudo que a Falsidade obtivesse para si. O par foi dessa forma admitido à arca. Quando saíram, Falsidade percebeu que tudo que juntava desaparecia de imediato, e foi procurar seu companheiro para uma explicação.

— Não concordamos — disse o Infortúnio à Falsidade — que eu poderia ficar com tudo que você conseguisse?

Assim a Falsidade teve de partir de mãos vazias.

* * *

Lendas dos Judeus é uma compilação de lendas judaicas recolhidas das fontes originais do midrash (particularmente o Talmude) pelo talmudista lituano Louis Ginzberg (1873-1953). Lendas foi publicado em 6 volumes (sendo dois volumes de notas) entre 1909 e 1928.

Paulo Brabo @saobrabo

Escrevo livros, faço desenhos e desenho letras. A Bacia das Almas é repositório final de ideias condenadas à reformulação eterna.

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