Os desgovernos do Natal • A Bacia das Almas

 

Paulo Brabo, 11 de dezembro de 2007

Os desgovernos do Natal

Estocado em História

Na Nova Inglaterra, durante os dois primeiros séculos de colonização branca a maior parte das pessoas não comemorava o Natal. Na verdade, o feriado foi sistematicamente suprimido pelos puritanos durante o período colonial e amplamente ignorado pelos seus descendentes. Foi na verdade ilegal celebrar o Natal em Massachusetts entre 1659 e 1681 (a multa era de cinco shillings). Foi só em meados do século dezenove que o Natal ganhou reconhecimento legal como feriado público oficial na Nova Inglaterra. Escrevendo perto do final daquele século, um natural da Nova Inglaterra, nascido em 1822, recordava ir à escola quando criança no dia de Natal, acrescentando que mesmo em 1850, em Worcester, Massachusetts, “os tribunais deliberavam no Natal, os mercados abriam, e duvido que houvesse qualquer serviço religioso na cidade, a não ser que fosse domingo”. Mesmo em 1952, um escritor lembrava ter ouvido de seus avós que na Nova Inglaterra um trabalhador corria o risco de perder o emprego se chegasse tarde ao trabalho no dia 25 de dezembro, e que por vezes “os proprietários das fábricas mudavam os horários de chegada para as cinco da manhã no dia de Natal, para que os que quisessem assistir a uma celebração na igreja tivessem de abrir mão ou ser dispensados por chegarem tarde ao trabalho”.

Dezembro era a única época de carne fresca.

[…] Na Europa pré-Moderna, mais ou menos entre 1500 e 1800, a estação natalina era época para dar vazão aos apetites – e refestelar-se. Hoje em dia é difícil entender o que era essa celebração sazonal. Para a maior parte dos leitores deste livro, comida de qualidade está disponível em quantidade suficiente ao longo do ano inteiro. Mas a Europa pré-moderna era acima de tudo um mundo de escassez. Pouca gente comia comida de qualidade, e para todos a disponibilidade de comida era determinada pelas estações. Final de verão e começo do outono era a época dos vegetais frescos, mas dezembro era a época – a única época – de carne fresca. Os animais não podiam ser mortos até que o clima estivesse suficientemente frio para garantir que a carne não estragaria; e qualquer carne reservada para o restante do ano teria de ser preservada (e tornada portanto menos saborosa) pela conservação no sal. Dezembro era também o mês quando o suprimento anual de cerveja ou vinho estava pronto para beber. E para os fazendeiros, além disso, a época marcava o início do período de ócio. Não é de se admirar, portanto, que fosse a ocasião de excesso celebratório.

Os excessos tomavam inúmeras formas. Os festejos tornavam-se com facilidade desvario; lubrificada pelo álcool, as comemorações acabavam mesclando-se com desordem. O Natal era uma época de “desgoverno”, ocasião em que os freios comportamentais usuais podiam ser violados com impunidade. Era parte do que um historiador chamou de “mundo do carnaval” (o termo carnaval tem suas raízes nas palavras latinas carne e vale – “adeus à carne”. E carne aqui refere-se não apenas à comida mas também ao sexo – carnal bem como carnívoro). O “desgoverno” do Natal significava que não apenas a fome, mas também a ira e a luxúria podiam ser expressas em público (Não foi por acidente que [o reverendo] Increase Mather chamou dezembro de Mensis Genialis, “o mês da voluptuosidade”). As pessoas costumavam passar tinta negra nos rostos ou fantasiar-se de animais ou vestiar roupas típicas do sexo oposto, operando assim sob o manto da anonimidade. O historiador John Ashton, do século dezenove, conta um episódio acontecido em Lincolnshire em 1637, em que o homem escolhido pela multidão de foliões como “Barão do Desgoverno” recebeu uma “esposa” numa cerimônia conduzida por um homem vestido de sacerdote. Em seguida, conta Ashton em linguagem contidamente vitoriana, “o negócio foi levado até as últimas conseqüências”.

Stephen Nissenbaum, The Battle For Christmas

Paulo Brabo @saobrabo

Escrevo livros, faço desenhos e desenho letras. A Bacia das Almas é repositório final de ideias condenadas à reformulação eterna.

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