Os descendentes de Noé espalham-se pelo mundo • A Bacia das Almas

 

Paulo Brabo, 08 de dezembro de 2008

Os descendentes de Noé espalham-se pelo mundo

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NOÉ: Os descendentes de Noé espalham-se pelo mundo

Quando ficou sabendo que seu pai o havia amaldiçoado, Cão fugiu envergonhado, e fixou-se com sua família numa cidade construída por ele, à qual deu o nome de sua esposa, Neelatamauque. Com inveja de seu irmão, Jafé seguiu seu exemplo: construiu uma cidade e deu a ela o nome de sua esposa, Adataneses. Sem foi o único filho de Noé que não o abandonou. Nas redondezas da casa do pai, junto à montanha, Sem construiu sua cidade, à qual deu também o nome de sua esposa, Zedequetelbabe. Essas três cidades ficam próximas ao monte Lubar, a elevação sobre a qual repousou a arca. A primeira encontra-se ao sul, a segunda a oeste, a terceira a leste.

Noé conseguiu inculcar em seus filhos e nos filhos de seus filhos as ordenanças e mandamentos que conhecia. Ele em particular advertiu-os contra a libertinagem, contra a impureza e contra toda sorte de perversidade que havia provocado o dilúvio sobre a terra. Ele os repreendeu por viverem longe uns dos outros e pela inveja que nutriam, pois temia que depois de sua morte eles chegariam a derramar sangue humano. Contra isso ele advertiu-os severamente, para que não fossem aniquilados da terra como os que os haviam precedido.

Outra lei que Noé transmitiu-lhes para que observassem foi que a fruta de uma árvore não deveria ser usada nos três primeiros anos em que a árvore frutificar. Mesmo no quarto ano, as frutas deveriam ser consumidas apenas pelos sacerdores, depois que uma parte delas fosse oferecida no altar de Deus.

Ao terminar de fornecer esses ensinos e prescrições, Noé disse:

— Pois da mesma forma Enoque, nosso ancestral, exortou seu filho Matusalém, e Matusalém seu filho Lameque, e Lameque transmitiu-me tudo que seu pai lhe havia dito que fizesse; agora eu os exorto, meus filhos, como Enoque exortou seu filho. Quando ele era vivo em sua geração, que foi a sétima geração do homem, ele ordenou e testificou essas coisas a seus filhos e aos filhos de seu filho, até o dia de sua morte.

No ano 1569 depois da criação do mundo Noé dividiu a terra entre seus filhos, na presença de um anjo. Cada um deles estendeu a mão e tirou um pedaço de papel do peito de Noé. No papel de Sem estava escrito “o meio da terra”, e essa porção tornou-se herança para seus descendentes por toda a eternidade. Noé exultou que aquela porção tivesse sido designada a Sem. Dessa forma se cumpria a benção que proferira sobre ele, “Deus… nas tendas de Sem”, pois três lugares santos situavam-se dentro dessa área: o santo dos santos no Templo, o Monte Sinai, ponto central do deserto, e o Monte Sião, o ponto central do umbigo da terra.

O sul coube a Cão, e o norte tornou-se herança de Jafé. A terra de Cão é quente, a terra de Jafé é fria, mas a de Sem não é fria nem quente: tem clima temperado.

A divisão da terra ocorreu perto do fim da vida de Pelegue/Divisão, nome dado por seu pai Éber, o qual, sendo profeta, sabia que a divisão da terra ocorreria perto da hora final de seu filho. O irmão de Pelegue recebeu o nome de Joctã/Pequeno, porque em sua época a duração da vida humana foi abreviada.

Os três filhos de Noé, ainda em pé na presença dele, dividiram por sua vez a sua porção entre os seus filhos, enquanto Noé ameaçava com sua maldição qualquer um que tentasse se apropriar de uma área que não lhe tivesse sido designada. E todos exclamavam:

— Assim seja! Assim seja!

Dessa forma foram dividas cento e quatro terras e noventa e nove ilhas entre setenta e duas nações, cada uma com uma língua própria, e usando dezesseis alfabetos diferentes. A Jafé foram destinadas quarenta e quatro terras, trinta e três ilhas, vinte e duas línguas e cinco alfabetos; Cão recebeu trinta e quatro terras, trinta e três ilhas, vinte e quatro línguas e cinco alfabetos; Sem recebeu vinte e seis terras, trinta e três ilhas, vinte e seis línguas e seis alfabetos — um alfabeto a mais do que receberam seus irmãos; este alfabeto extra é o hebraico.

A terra designada como herança dos doze filhos de Jacó foi temporariamente concedida a Canaã, Sidom, Hete, os jebuseus, os amorreus, os girgaseus, os heveus, os arqueus, os sineus, os arvadeus, os zemareus e os hamateus. Era dever dessas nações cuidar da terra até que seus verdadeiros possuidores chegassem.

Mal haviam os filhos de Noé e os filhos de seus filhos tomado posse das áreas designadas a eles, os espíritos imundos começaram a seduzir os homens e atormentá-los com dor e toda sorte de sofrimento, de modo a levá-los à morte física e espiritual.

Diante das súplicas de Noé, Deus mandou o anjo Rafael, que expulsou noventa por cento dos espíritos imundos da terra, deixando apenas dez por cento para Mastema/hostilidade, a fim de punir os pecadores através deles.

Rafael, assistido pelo chefe dos espíritos imundos, revelou naquela ocasião a Noé todos os remédios que residem nas plantas, para que ele recorresse a eles quando necessário. Noé registrou-os num livro, que transmitiu a seu filho Sem. A esta fonte reportam todos os livros médicos dos quais os sábios da Índia, de Arã, da Macedônia e Egito extraem seu conhecimento. Os curandeiros da Índia devotaram-se especialmente ao estudo das especiarias e árvores curativas; os arameus eram bem versados no conhecimento das propriedades de grãos e sementes, e traduziram para sua própria língua os antigos livros médicos. Os sábios da Macedônia foram os primeiros a aplicar o conhecimento médico de forma prática, enquanto os egípcios procuravam efetuar curas através de astrologia e de artes mágicas; foram eles a ensinar o Midrash dos caldeus, composto por Kangar, filho de Ur, filho de Quesede.

Os conhecimentos médicos foram se espalhando cada vez mais até a época de Esculápio. Esse sábio macedônio, acompanhado por quarenta magos doutos, viajaram país por país até chegarem à terra além da Índia, na direção do Paraíso. Eles esperavam encontrar alguma madeira da árvore da vida, e dessa forma divulgar sua própria fama ao redor do mundo. Suas esperanças foram frustadas. Quando chegaram ao local, encontraram árvores curativas e madeira da árvore da vida mas quando estendiam suas mãos para pegar o que desejavam um relâmpago lançou-se da espada que se volvia por todos os lados, derrubou-os ao chão e queimou-os por completo. Com eles desapareceu todo o conhecimento da medicina, e não reviveu até a época do primeiro Artaxerxes, sob a condução do sábio macedônio Hipócrates, Dioscorides de Baala, Galeno de Caftor e o judeu Asafe.

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Lendas dos Judeus é uma compilação de lendas judaicas recolhidas das fontes originais do midrash (particularmente o Talmude) pelo talmudista lituano Louis Ginzberg (1873-1953). Lendas foi publicado em 6 volumes (sendo dois volumes de notas) entre 1909 e 1928.

Paulo Brabo @saobrabo

Escrevo livros, faço desenhos e desenho letras. A Bacia das Almas é repositório final de ideias condenadas à reformulação eterna.

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