Onde se fala dos desendemoninhados • A Bacia das Almas

 

Paulo Brabo, 15 de outubro de 2010

Onde se fala dos desendemoninhados

Estocado em Manuscritos

— Pouco fazia tinha largado o monstro para trás quando vi que que no fio do meio do dia se penduravam umas figuras. Logo se desprenderam do horizonte e achei que mudaram de rumo quando me viram, mas eu mesmo segui em frente sem desviar o passo. Foi quando me fecharam a largura do sertão que vi que eram muitos, uma multidão: homens, mulheres, velhos e crianças. Estavam todos tão pelados quanto eu, mas dei por ordinário porque nunca tinha visto gente vestida antes; diante do festival da carne de tantos homens a descoberto, senti-me entre irmãos. Um deles, o mais valente, meteu o pé descalço no meu caminho, para me fazer parar, e falou: o menino sabe apontar de que lado fica o mar? E eu falei: não tenho um mês ainda de vida, e do mar não sei dizer porque nunca vi; e arremedei logo para não ter de esconder o que não conhecia: o mar, o que é? O mar, assim falou uma mulher carnuda de cabelos pretos pintados com círculos vermelhos, é o monstro e o abismo que começa onde a terra termina. O mar, falou um velho desdentado, é o fosso dos continentes e o mijo de Satanás. O mar, falou o primeiro que me tinha fechado o caminho, é um dos três lugares do mundo em que se preserva, exatamente como era, o caos que existia antes da criação. E quais são os outros dois, eu falei. O membro viril do homem e os caprichos da mulher, falou o velho sem dentes. A loucura da mente e o coração da guerra, falou a mulher de cabelo pintado. O valente só falou: o menino também não viu por acaso uma multidão de demônios se arrastando em procissão por esse sertão, e se viu, pra que lado caminhavam? Eu falei: vi não, por quê? Só então uma velha muito crepitosa e encardida, de cabelo que era um cipó, saiu do meio daquela gente dando de mamar a um menino que devia ter nem mais nem menos a minha idade, e aclarou: somos índios do Rio U e saímos à cata dos nossos demônios, que os missionários vieram e expulsaram de nós e das nossas aldeias. É fato conhecido que os demônios moram todos no mar e é para lá que voltam, e é por isso que buscamos seguir nessa direção. Se são desendemoninhados e estão mais leves, eu falei, por que querem os seus demônios de volta? Porque na carne dos demônios está encravada a nossa alma, a velha falou; não se pode ter uma coisa sem a outra. Então disseram: temos que seguir viagem, mas antes o valente falou: não é todo o dia que encontramos um guerreiro tão jovem e tão valente, e vi que estavam olhando todos para as cicatrizes nos meus braços. Falou ainda: aceite da nossa tribo este presente, que é uma ponta de flecha de pedra lascada. Usamos o torno elétrico para fazer um motor a combustão, e com o motor a combustão fizemos uma máquina a vapor; usamos a máquina a vapor para moldar uma talhadeira de ferro, com a talhadeira fizemos um cinzel de bronze, e com o cinzel de bronze esculpimos esta ponta de flecha branca. Ela é muito valiosa. Agradeci o presente, amarrei na ponta solta do cordão do umbigo e desejei boa sorte na lida de recuperação de suas almas. Fiquei olhando até que desaparecessem na faixa entre os dois mundos, e pensei: devem ter chegado no mar.

— Você tem sorte de ter encontrado esses índios sem a posse de seus demônios — disse o pai do menino. — Se tivessem em seu poder as suas almas é certo que teriam lhe feito mal.

— Só que antes de ir embora os índios falaram: quer vir com a gente? Pois de certo se encontra um demônio também pra você. No que eu emendei obrigado não, eu tenho o meu já.

O menino então usou a lambedeira para livrar a corda de imbira que prendia o calção do pai. Com outro gesto usou a arma para lançar para longe corda e calção, e na mesma hora o pai estava tão nu quanto ele.

— Mas essa é só a penúltima parte da minha história — o menino declarou.

Paulo Brabo @saobrabo

Escrevo livros, faço desenhos e desenho letras. A Bacia das Almas é repositório final de ideias condenadas à reformulação eterna.

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