O toque da língua • A Bacia das Almas

 

Paulo Brabo, 22 de outubro de 2008

O toque da língua

Estocado em Fé e Crença · História

Não habitamos um país, habitamos um idioma.
Emil Cioran (a quem, Gustavo, eu nunca havia citado antes) em Aveux et anathèmes (1987)

 

Ao conquistar as duas faces opostas do mundo antigo, três séculos antes de Cristo, o Macedônio realizava sem o saber sua maior façanha: abolira formidavelmente a fronteira entre oriente e ocidente.

O perplexo mundo unificado passou a aguardar obedientemente sob os pés vitoriosos de Alexandre, e sob sua supervisão a cultura grega passou a ser injetada diretamente nas veias do império. Poucas gerações depois a língua grega se tornara idioma universal e indispensável, da Pérsia ao Egito e em qualquer região que se colocasse no seu caminho: o mundo se dobrava ao avanço irresistível da helenização (de hellenizein, palavra grega que quer dizer tanto “falar grego” quanto “viver como grego”).

Alexandre, que nunca esteve em Jerusalém e não se demorou na Judéia, acabou determinando dessa forma o espírito que viria a permear a porção final do Antigo Testamento e servir de pano de fundo para o seguinte.

Os judeus tinham vivido por séculos dentro de um universo cultural peculiar, isolado e muito bem amarrado, repleto de dispositivos internos contra a penetração de idéias estrangeiras. Graças a esses mecanismos de preservação a cultura judaica sobrevivera mais ou menos intacta à influência de babilônios e persas.

Porém a cultura grega tinha uma voz doce e articulada, e não demorou para que o sistema estanque do judaísmo começasse a fazer água. Com a passagem de não muitos anos havia duas facções muito distintas dentro do judaísmo, a dos ortodoxos (que rejeitavam e lutavam ativamente contra qualquer influência grega) e a dos helenizados (que afirmavam o valor do pensamento grego e sua compatibilidade com o judaísmo). Essa disputa acabaria estendendo-se cristianismo adentro.

A despeito dos esforços e do relativo sucesso dos ortodoxos, mesmo o judaísmo mais conservador acabou acolhendo em alguma medida a influência grega. O mundo conhecido se tornara helenista, e irresistivelmente helenista. A começar da capital Alexandria, mas não apenas ali, os judeus começaram a falar o grego no dia a dia, relegando o costumeiro aramaico ao segundo lugar e o hebraico a um distante terceiro.

E no pacote do idioma grego vinha encapsulada toda uma visão de mundo. Primeiro os judeus cederam e abraçaram o idioma, mas em seguida estavam adotando os costumes e o modo grego de pensar. Os velhos judeus começaram a ler os clássicos, os jovens começaram a lutar nus nos seus estádios.

Não demorou e o helenismo havia tocado o mais sacrossanto cerne da identidade judaica, sua religião e suas Escrituras. Essa influência pode ser entrevista na própria composição dos textos bíblicos, especialmente na terceira porção da Bíblia Hebraica (em hebraico Ketubim) — mas a coisa não parou aí. Não apenas as idéias gregas acabaram infiltrando-se no texto bíblico, mas (talvez mais importante) os métodos gregos de interpretação passaram a mudar o modo como a Bíblia era lida.

Paulo Brabo @saobrabo

Escrevo livros, faço desenhos e desenho letras. A Bacia das Almas é repositório final de ideias condenadas à reformulação eterna.

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