O sexto dia • A Bacia das Almas

 

Paulo Brabo, 05 de julho de 2006

O sexto dia

Estocado em Goiabas Roubadas

A CRIAÇÃO: O sexto dia

Da mesma forma que os peixes foram formados da água e os pássaros de argila misturada com água, os mamíferos foram formados da terra sólida; da mesma forma que o leviatã é o representante mais notável dos peixes e o ziz dos pássaros, o behemoth é o mais notável representante dos mamíferos. A força do behemoth se equipara à do leviatã, tendo sido ele também impedido, como o leviatã, de crescer e multiplicar-se, do contrário o mundo não poderia continuar a existir. Depois de tê-lo criado macho e fêmea, Deus privou-o imediatamente do desejo de propagar sua espécie. Ele é tão monstruoso que requer a vegetação de milhares de montanhas para sua alimentação diária. Toda a água que flui pelo leito do Jordão num ano inteiro basta-lhe para precisamente um único gole. Foi por essa razão necessário conceder-lhe um corrente dedicada a seu uso exclusivo, corrente que flui do Paraíso e chama-se Yubal. Também o behemoth está destinado a ser servido aos bem-aventurados como apetitosa iguaria, mas antes de desfrutarem da sua carne ser-lhes-á permitido assistir ao combate mortal entre o leviatã e o behemoth, como recompensa por terem se privado dos prazeres do circo e das disputas dos gladiadores.

O leviatã, o ziz e o behemoth não são os únicos monstros; há inúmeros outros, e fabulosos, como o re’em, animal de proporções gigantescas do qual um único casal, macho e fêmea, existem. Se fossem mais numerosos o mundo mal teria como manter-se diante eles. A cópula dos re’em ocorre apenas a cada setenta anos, pois Deus ordenou que o macho e a fêmea residissem em cantos opostos da terra, um a leste, outro a oeste. A cópula resulta na morte do macho, que é mordido pela fêmea e morre com a mordida. A fêmea emprenha e permanece nesse estado por não menos que doze anos. Ao final desse longo período ela dá a luz gêmeos, um macho e uma fêmea. No ano que precede ao parto ela é incapaz de se mover e morreria de fome, não fosse pela saliva que brota copiosamente da sua boca, que rega e faz frutificar a terra junto a ela, levando-a a produzir o que basta para o seu sustento. Por um ano inteiro tudo que o animal consegue fazer é rolar de uma lado para o outro, até que seu ventre finalmente se rompe e saem os gêmeos. Sua aparição é portanto o sinal para a morte da mãe re’em. Ela abre espaço para a nova geração, que está por sua vez destinada a sofrer o mesmo destino da geração anterior. Imediatamente após o nascimento um dos gêmeos parte para leste e outro para leste oeste, para reencontrarem-se apenas após a passagem de setenta anos, reproduzirem-se e morrerem. Um viajante que viu certa vez um re’em descreveu-o com tendo vinte quilômetros de altura, sendo o comprimento da sua cabeça de oito quilômetros. Seus chifres têm uma circunferência de cem metros, e sua altura é muito maior.

Uma das criaturas mais notáveis é o “homem da montanha”, Adne Sadeh, ou, simplesmente, Adão. Sua aparência é exatamente a de um ser humano, porém ele permanece preso ao chão por um cordão umbilical, do qual sua vida depende. Quando o cordão é cortado, ele morre. Esse animal mantém-se vivo com o que é produzido no solo ao redor de si, dentro da distância que sua corda permite que ele cubra. Nenhuma criatura pode aventurar-se a adentrar o raio do seu cordão, pois ele ataca e destrói qualquer coisa a seu alcance. Para matar o Adne Sadeh não se pode aproximar-se dele; seu cordão umbilical deve ser rompido à distância com um dardo, sendo que ele morre em seguida entre gemidos e lamentos.

Certa vez aconteceu de um viajante encontrar-se hospedado dentro da região em que esse animal é encontrado. Ele ouviu, sem ser percebido, seu anfitrião conversando com a esposa sobre o que deveriam fazer para honrar seu hóspede, e resolvendo servir a ele “o nosso homem”, nas suas palavras. Pensando que havia caído entre canibais, o estranho correu o mais rápido que pôde para longe de seu hóspede, que tentava em vão impedi-lo. Ele mais tarde descobriu que não havia existido nenhuma intenção de recreá-lo com carne humana, mas apenas com a carne de um estranho animal chamado “homem”.

Da mesma forma que o “homem da montanha” permanece fixado ao chão pelo seu cordão umbilical, o barnacle cresce de uma árvore pelo seu bico. É difícil dizer se ele é um animal que deve ser abatido antes de ser consumido propriamente, ou se é uma planta e pode ser comida sem nenhum cerimonial.

Dentre os pássaros a fênix é o mais fabuloso. Quando Eva deu a todos animais um pouco da fruta da árvore do conhecimento, a fênix foi o único pássaro que se recusou a comer, tendo sido então recompensado com vida eterna. Depois de viver mil anos o seu corpo se encolhe e as penas caem, até ficar pequeno como um ovo. Esse é o núcleo do novo pássaro.

A fênix é também chamada de “guardiã da esfera terrestre”. Ela acompanha o percurso do sol em seu circuito, estendendo as asas e capturando os raios inflamados do sol. Não fosse a fênix a interceptá-los, nem o homem nem outro ser inanimado teria como sobreviver. Em sua asa direita estão inscritas em caracteres imensos, com cerca de quatrocentos estádios de altura, as seguintes palavras: “não é a terra que me dá origem, nem o céu, mas somente as asas do fogo”. Seu alimento consiste em maná do céu e orvalho da terra. Seu excremento é um verme, cujo excremento é por sua vez a canela usada por reis e príncipes. Enoque, que viu as fênices quando foi trasladado, descreve-as como criaturas voadoras, fabulosas e de aparência estranha, com pés e caudas de leão e cabeças de crocodilo; seu aspecto é de cor púrpura semelhante ao arco-íris; seu tamanho, novecentas medidas. Suas asas são como as dos anjos, sendo que cada uma tem doze; as fênices assistem a carruagem do sol e acompanham-no, levando calor e orvalho onde são ordenados por Deus. De manhã, quando o sol dá início a sua jornada diária, as fênices e os chaldriki cantam, e todos os pássaros batem suas asas, regozijando o Doador de luz, e cantam uma canção ao comando do Senhor.

Dentre os répteis a salamandra e o shamir são os mais fabulosos. A salamandra origina-se de uma fogueira de madeira de murta mantida ardendo continuamente por sete anos através de artes mágicas. Não maior do que um camundongo, a salamandra é ainda assim investida de propriedades peculiares. A pessoa que se mancha com o seu sangue torna-se invulnerável, e a teia tecida por ela é um talismã contra o fogo. As pessoas que viviam por ocasão do dilúvio se vangloriavam de que, caso viesse um dilúvio de fogo, protegeriam a si mesmas com o sangue da salamandra.

O rei Ezequias deve sua vida à salamandra. Seu perverso pai, o rei Acabe, havia-o entregue aos fogos de Moloque, e ele teria sido queimado vivo não tivesse sua mãe pintado o filho com sangue de salamandra, de modo que o fogo não lhe causasse mal.

O shamir foi criado no crepúsculo do sexto dia da criação juntamente com outras coisas extraordinárias. Ele tem o tamanho de um grão de cevada, e possui a notável propriedade de cortar o mais duro dos diamantes. Por essa razão ele foi utilizado para as pedras do peitoral vestido pelo sumo sacerdote. Primeiro os nomes das doze tribos foram traçados com tinta nas pedras a serem engastadas no peitoral, e em seguida o shamir passou por sobre as linhas, gravando-as. Uma circunstância formidável foi que a fricção não produziu qualquer partícula das pedras. O shamir foi também usado para lavrar as pedras com as quais o Templo foi construído, porque a lei probia1 que ferramentas de metal fossem utilizadas na obra do Templo.

O shamir não pode ser guardado num vaso de ferro ou de qualquer outro metal, porque partiria em dois o receptáculo. Ele é guardado embrulhado num pano de lã, que é por sua vez colocado num cesto de chumbo cheio de grãos de cevada. O shamir foi mantido no Paraíso até que Salomão precisasse dele, tendo enviado sua águia para trazer até ele o verme. Com a destruição do templo o shamir desapareceu. Destino semelhante recaiu sobre o tahash, que foi criado com o propósito único de que sua pele fosse utilizada no Tabernáculo. Assim que o Tabernáculo foi completado o tahash desapareceu. Ele possuía um único chifre na testa, tinha cores alegres como um peru e pertencia à classe dos animais puros.

Dentre os peixes há também criaturas fabulosas, como os cabritos-do-mar e os golfinhos, para não mencionar o leviatã. Um marinheiro viu certa vez um cabrito-do-mar em cujos chifres estava gravado: “Sou um pequeno animal marinho, mas apesar disso atravessei 1500 quilômetros para me oferecer como comida ao leviatã”. Os golfinhos são metade homem, metade peixe, e mantém até mesmo relações sexuais com seres humanos; são por isso chamados “filhos do mar”, pois num certo sentido representam a raça humana na água.

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1 E se me fizeres um altar de pedras, não o construirás de pedras lavradas; pois se sobre ele levantares o teu buril, profaná-lo-ás. *Êxodo 20:25*

Lendas dos Judeus é uma compilação de lendas judaicas recolhidas das fontes originais do midrash (particularmente o Talmude) pelo talmudista lituano Louis Ginzberg (1873-1953). Lendas foi publicado em 6 volumes (sendo dois volumes de notas) entre 1909 e 1928.

Paulo Brabo @saobrabo

Escrevo livros, faço desenhos e desenho letras. A Bacia das Almas é repositório final de ideias condenadas à reformulação eterna.

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