O segundo dia • A Bacia das Almas

 

Paulo Brabo, 23 de fevereiro de 2006

O segundo dia

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A CRIAÇÃO: O segundo dia

No segundo dia Deus criou quatro coisas: o firmamento, o inferno, o fogo e os anjos. O firmamento não é o mesmo que o céu do primeiro dia. Trata-se do cristal que se estende sobre as cabeças dos Hayyot, do qual o céu deriva a sua luz, da mesma forma que a terra deriva do sol a sua luz. Esse firmamento protege a terra de ser inundada pelas águas do céu; ele forma a divisão entre as águas de cima e as águas de baixo. Foi cristalizado na forma sólida pelo fogo celeste, que ultrapassou os seus limites e condensou a superfície do firmamento. Desta forma o fogo fez a divisão entre o celestial e o terrestre por ocasião da criação, da mesma forma que fez por ocasião da revelação no Sinai. O firmamento não tem mais de três dedos de espessura, e apesar disso faz separação entre dois corpos tão pesados quanto as águas inferiores, que são as fundações do mundo inferior, e as águas superiores, que são as fundações dos sete céus, do Trono Divino e da residência dos anjos.

A separação das águas entre águas superiores e inferiores foi o único ato dessa natureza realizado por Deus em conexão com a obra da criação. Todos os outros foram atos unificadores. Este causou, portanto, algumas dificuldades. Quando Deus ordenou: “Que as águas se ajuntem num só lugar, de modo que apareça a terra seca”, certas porções recusaram-se a obedecer, e abraçaram-se umas às outras ainda mais firmemente. Em sua indignação contra as águas, Deus determinou que toda a criação se dissolvesse novamente no caos. Ele chamou o Anjo da Face e ordenou que destruisse o mundo. O anjo arregalou os olhos e fogos abrasadores e espessas nuvens projetaram-se deles, enquanto ele gritava:

– Aquele que divide em duas metades o Mar Vermelho! – e as águas revoltosas não se moveram.

Todas as coisas estavam ainda sob perigo de destruição. Então aquele que canta os louvores de Deus começou:

Tende piedade do teu mundo, não o destruas; pois se o destruirdes, quem cumprirá a tua vontade?

– Ó Senhor do mundo, nos dias que virão tuas criaturas cantarão sem interrupção louvores a ti; bendizer-te-ão irrestritamente, e glorificar-te-ão sem medida. Tu tomarás Abraão à parte de toda a humanidade para ser teu; um de seus filhos tu chamarás de “meu primogênito; e seus descendentes tomarão sobre si o jugo do teu reino. Em santidade e pureza tu lhes conferirás a Torá, com as seguinte palavras: “Eu sou o Senhor seu Deus”; a que eles responderão: “Tudo que Deus tem falado faremos”. E agora suplico-te, tende piedade do teu mundo, não o destruas; pois se o destruirdes, quem cumprirá a tua vontade?

Deus assim apazigou-se. Retirou a ordem que determinava a destruição do mundo, mas as águas ele colocou sob as montanhas, para permanecerem ali para sempre.

A objeção das águas inferiores contra a divisão e a separação não foi o único motivo para a sua rebelião. As águas haviam sido as primeiras a dar louvor ao Senhor, e quando foi decretada a sua separação em superiores e inferiores, as águas superiores regozijaram-se, dizendo:

– Bem-aventuradas somos nós, que temos o privilégio de habitar junto ao nosso Criador e junto ao seu Trono Santo.

Assim celebrando elas lançaram-se para o alto, e proferiram canção de louvor ao Criador do mundo. Tristeza recaiu sobre as águas inferiores. Elas lamentaram:

– Ai de nós, que não fomos achadas dignas de habitar na presença de Deus, e de louvá-lo juntamente com nossas companheiras.

Elas tentaram portanto alçar-se para o céu, até que Deus as repeliu, pressionando-as contra a terra. Apesar disso elas não deixaram de receber recompensa pela sua lealdade: quando desejam dar louvores a Deus, as águas superiores precisam pedir antes permissão às águas inferiores.

O segundo dia foi um dia desfavorável não apenas no sentido de que introduziu uma separação no que antes havia sido apenas unidade: foi também o dia que contemplou a criação do inferno. Deus não pôde portanto dizer desse dia como disse dos outros, “e viu que era bom”. Uma divisão pode ser necessária, mas não pode ser chamada de boa, e o inferno certamente não merece o atributo de bom.

O inferno tem sete divisões, uma abaixo da outra. Essas são chamadas Sheol, Abaddon, Beer Shahat, Tit ha-Yawne, Sha’are Mawet, Sha’are Zalmawet e Gehenna. São necessários trezentos anos para se percorrer a altura, a largura ou a profundidade de cada divisão, e seriam necessários seis mil e trezentos anos para se atravessar uma extensão de terra correspondente à extensão das sete divisões.

Há em cada caverna sete mil fendas, e em cada fenda sete mil escorpiões.

Cada uma das sete divisões tem por sua vez sete subdivisões, e em cada compartimento há sete rios de fogo e sete de granizo. A largura de cada um é de mil varas, sua profundidade mil, seu comprimento trezentos, e eles fluem um para dentro do outro, sendo supervisionados por noventa mil anjos de destruição. Há, além disso, em cada compartimento sete mil cavernas, em cada caverna sete mil fendas, e em cada fenda sete mil escorpiões. Cada escorpião tem trezentos anéis, e em cada anel sete mil bolsas de veneno, dos quais fluem sete rios de veneno mortal. O homem que o toca explode imediatamente: cada membro é separado do corpo, suas entranhas se esfacelam e ele cai de rosto no chão.

Há também cinco tipos diferentes de fogo no inferno. Um deles devora e absorve, outro devora e não absorve, enquanto o terceiro absorve e não devora; há ainda outro fogo que nem devora nem absorve, e finalmente um fogo que devora o fogo. Há brasas do tamanho de montanhas, brasas do tamanho de colinas e brasas do tamanho do Mar Morto, e brasas que se assemelham a enormes pedras, e há rios de asfalto e enxofre que fluem e borbulham como brasas vivas.

A terceira criação do segundo dia foram as hostes de anjos – tanto os anjos ministradores quanto os anjos de louvor. A razão pela qual eles não foram trazidos à existência no primeiro dia foi para que os homens não cressem que os anjos auxiliaram Deus na criação do céu e da terra. Os anjos que são moldados de fogo têm formas de fogo, mas apenas enquanto permanecem no céu. Quando descem à terra, a fim de fazerem a vontade de Deus aqui embaixo, são ou transformados em vento ou assumem a aparência de homens. Há dez escalões hierárquicos, ou graus, entre os anjos.

Os de nível hierárquico mais exaltado são os que cercam o Trono Divino por todos os lados: à direita, à esquerda, na frente e atrás, sob a liderança dos arcanjos Miguel, Gabriel, Uriel e Rafael.

Deus os silencia: “Quietos, até que eu tenha ouvido as canções e doces melodias de Israel”.

Todos os seres celestiais louvam a Deus com as palavras: “Santo, santo, santo é o Senhor dos exércitos”, mas nisso os homens têm precedência sobre eles. Os anjos não podem começar sua canção de louvor até que os seres terrenos tenham trazido sua exaltação a Deus. Israel em particular tem a preferência dos anjos. Quando circundam o Trono Divino na forma de montanhas de fogo e colinas flamejantes, e ensaiam levantar as vozes em adoração ao Criador, Deus os silencia com as palavras:

– Quietos, até que eu tenha ouvido as canções, louvores, orações e doces melodias de Israel.

Assim sendo, os anjos ministrantes e todas as outras hostes celestiais aguardam até que os últimos ecos das doxologias de Israel, erguendo-se da terra, tenham se extinguido, e só então proclamam em alta voz: “Santo, santo, santo é o Senhor dos exércitos”.

Quando se aproxima a hora da glorificação de Deus por parte dos anjos, o augusto arauto divino, o anjo Shamiel, desce até as janelas do céu mais inferior para escutar as canções, orações e louvores que ascendem das sinagogas e casas de saber, e quanto terminam, ele anuncia o seu fim aos anjos de todo o céu. Os anjos ministrantes, aqueles que têm contato com o mundo sublunar, dirigem-se agora a suas câmaras para seu banho de purificação. Eles mergulham num riacho de fogo e chama por sete vezes, e por trezentas e sessenta e cinco vezes examinam-se cuidadosamente, para certificar-se que nenhuma mancha permanece aderida a seus corpos. Só então sentem-se dispensados para galgar sua escada de fogo e juntar-se aos anjos do sétimo céu, e cercar o trono de Deus juntamente com Hashmal e todos os santos Hayyot. Adornados de milhões de coroas chamejantes, trajando vestes de fogo, todos os anjos em uníssono, com as mesmas palavras e a mesma melodia, entoam canções de louvor a Deus.

Lendas dos Judeus é uma compilação de lendas judaicas recolhidas das fontes originais do midrash (particularmente o Talmude) pelo talmudista lituano Louis Ginzberg (1873-1953). Lendas foi publicado em 6 volumes (sendo dois volumes de notas) entre 1909 e 1928.

Paulo Brabo @saobrabo

Escrevo livros, faço desenhos e desenho letras. A Bacia das Almas é repositório final de ideias condenadas à reformulação eterna.

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