O reflexo dos olhos da aranha • A Bacia das Almas

 

Paulo Brabo, 20 de maio de 2006

O reflexo dos olhos da aranha

Estocado em Quase Ciência

Estava no Hélio ontem à noite e ele saiu da mesa do café de lanterna em punho para ver porque a pitbull estava latindo lá nos fundos. Devia ser o gambá que estava voltando.

O sujeito voltou alguns minutos depois contando que não tinha visto o gambá, mas que enquanto vasculhava o muro dos fundos com a lanterna tinha visto primeiro o reflexo dos olhos da Pit e em seguida outros reflexos menores, do olho de outro bicho que na distância ele não conseguira identificar. Contou o Hélio que atravessou os cinqüenta metros que separam o fundo da casa do muro de trás, apenas para descobrir surpreso que o reflexo que tinha visto eram os olhos de duas aranhas de jardim encarapitadas sobre um monte de entulho.

Duvidei na hora, mas mais por obrigação, porque achei que ele estivesse brincando. Quando meu amigo deixou muito claro que falava sério, exigi que ele refizesse comigo o trajeto e me mostrasse as aranhas em questão. Ele fez uma reconstituição completa, mas não vi reflexo algum daquela distância, e quando chegamos não havia qualquer aranha sobre o monte de entulho, talvez porque – ele disse – “a pit tinha andado por ali”.

Seguiu-se uma bem-humorada e estilizada discussão que prolongou-se até o momento em que, muito depois do café, eu estava na rua da frente, dentro do carro ligado e pronto para partir, o Hélio em pé do lado de fora empunhando sua lanterna preta de agente do FBI.

Eu argumentava obedientemente, como era meu papel, que era impossível que ele tivesse visto, a cinqüenta metros de distância, o reflexo de olhos que não tinham como ser maiores do que uma cabeça de alfinete. Contra-atacava o Hélio dizendo que uma aranha tem vários olhos, e que as aranhas que ele tinha visto não eram de modo algum pequenas. Perguntei de que tamanho e ele fez com os dedos um círculo de uns quatro centímetros de diâmetro. Perguntei se o círculo incluía as pernas e ele esclareceu que não. Pedi que ele mostrasse o tamanho do corpo e ele diminuiu o círculo para um centímetro e meio. Eu reiterei que uma aranha daquele tamanho não tinha como ter um conjunto de olhos maior do que a cabeça de um alfinete, e que mortal algum seria capaz de enxergar um reflexo de uma cabeça de alfinete a cinqüenta metros de distância. O Hélio garantiu que sim, se fosse de noite e o alfinete estivesse na posição certa para refletir o brilho da lanterna. Eu insisti que não, e ele lembrou com acerto que sou tão míope que não posso ser levado em conta como exemplo. Eu disse que uma coisa é eu não ser capaz de ver o que todos vêem, outra ele dizer ter visto o que ninguém pode ver. E, para irritá-lo, concluí dizendo que acreditava que ele acreditava que tinha visto o que dizia.

Ele emendou com o bordão do Chicó de O Auto da Compadecida, que havia também comparecido em algum momento à nossa discussão:

– Não sei como foi, só sei que foi assim.

Sem perder o bom humor mas meio chateado por perceber que eu não acreditava por completo na exatidão da percepção dele, o Hélio apontava o facho da lanterna para todas as direções, ali mesmo na rua, tentando achar um alvo que comprovasse o seu delirante argumento. Ele de repente abriu um meio sorriso que eu não tive como avaliar e assentou a lanterna numa única direção.

– Está vendo ali, ó? – ele disse. – Aquilo ali é um poste da cerca do vizinho.

Olhei, e a lanterna iluminava a base de um poste de granito a uns trinta metros de distância. Zombei:

– Pois é, o poste eu consigo ver daqui.

– Pois na quina do poste tem um bicho, e estou vendo o reflexo do olho dele daqui.

Balançando incredulamente a cabeça mas sem resistir à tentação de dar àquela história o fim mais espetacular possível, desliguei o carro e saí.

– Está vendo o reflexo? – ele perguntou.

Alinhei o rosto com o facho da lanterna e para minha surpresa eu, o míope, enxerguei nitidamente um impossivelmente pequeno e fugaz reflexo branco esverdeado onde o Hélio estava mostrando.

– Estou vendo – eu disse, mas a curiosidade e a pura dramaticidade do momento já me levavam a passos largos em direção ao poste. Assim que me afastei do facho da lanterna o reflexo desapareceu; o Hélio veio caminhando devagar no meu encalço, supostamente para não perder o enquadramento da presa. Quando fui chegando perto senti nitidamente que tinha matado a charada, e que o que tínhamos visto era um reflexo da mica do granito, que faísca às vezes como um pedacinho de vidro. Estava pronto para dizer isso quando me agachei diante do poste e vi, metade do corpo saindo para fora de uma pequena fresta, uma aranha de jardim.

– Está vendo? – exigiu ele. – E essa é menor do que aquelas.

– Você combinou isso, não é? – foi tudo que consegui dizer, tirando a lanterna da mão dele e refazendo de costas o trajeto para confirmar que no escuro os olhos de uma aranha [de jardim] são surrealmente reflexivos. Pelo menos três vezes mais do que os de um gato, por exemplo, e com um desconcertante fulgor verde.

Sei que é difícil acreditar e não sei como foi, só sei que foi assim.

Paulo Brabo @saobrabo

Escrevo livros, faço desenhos e desenho letras. A Bacia das Almas é repositório final de ideias condenadas à reformulação eterna.


 

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