O Protocolo Mainardi • A Bacia das Almas

 

Paulo Brabo, 20 de dezembro de 2006

O Protocolo Mainardi

Estocado em Brasil · Manuscritos

Pouca gente sabe, mas todos os banheiros públicos do Brasil são interligados, através de uma intrincada rede subterrânea de caríssima e embaraçosa manutenção, ao enorme Complexo de Inteligência da ANA no Planalto Central. Quando todas as linhas 0800 estão saturadas ou se o celular encontra-se ocupado ou fora de área, nossos agentes estão instruídos a recorrer a esse canal direto de comunicação com a nossa Inteligência: qualquer sanitário público do território nacional.

Os banheiros de botecos e postos de beira de estrada estão entre os mais procurados pelos agentes; são essas as unidades que contam com recursos mais sofisticados e valiosos de comunicação e exigem, por essa razão, os maiores esforços de camuflagem. Equipes inteiras da ANA visitam esses lugares públicos sob os mais variados disfarces e contribuem abnegadamente para os esforços de acobertamento – seja riscando recados e diagramas em código na fórmica das portas, mijando altruisticamente no chão ou entupindo as privadas pelo emprego das soluções mais criativas. Esses banheiros-chave da Inteligência são mantidos em estado de permanente imundície para que simplesmente não ocorra a um civil entrar neles por vontade própria; semelhantemente, os poucos contraventores devem sentir-se compelidos a partir de imediato, antes que descubram o acesso às maravilhas da tecnologia embutidas em cada canto do recinto. É um serviço sujo, mas alguém tem de fazer.

Era uma tarde pelante do verão de 2004 quando estacionei meu Corsa 1.0 naquele posto isolado da BR 101. Pedi uma coxinha em voz alta o bastante para vencer a opilência do ventilador e fui servido diretamente no balcão sebento por um sujeito sem camisa que talvez fosse um agente, tendo em vista a barriga esférica de cerveja e o imenso crucificixo que ele mantinha nas costas de modo a não prender nos cabelos do peito. Perguntei onde ficava o banheiro.

Protegi o assento com uma camada tripla de papel higiênico e estava prestes a digitar meu código pessoal de sete dígitos no painel de azulejos à minha direita quando bateram na porta. Eu disse que estava ocupado e o homem lá fora respondeu com a contra-senha correspondente, por isso cancelei a comunicação e no momento seguinte caminhávamos lado a lado, falando em voz baixa no pátio abarrotado de caminhões.

– Quem me mandou foi o Bira – revelou-me meu contato, um caminhoneiro irriquieto e miúdo com sotaque cantado de catarina, que arrastava pelo saibro havaianas brancas ainda menores que os pés que calçavam.

O Bira eu não via pessoalmente fazia anos, mas eu sabia que trabalhava agora na Inteligência. O Bira tinha sido meu aliciador, mentor e treinador nos meus primeiros anos de ANA em Bauru; nossa despedida não tinha sido das mais civilizadas, mas guardávamos o candor de nos desprezarmos lealmente apesar da distância.

– Porque não veio ele mesmo dar o recado? – reclamei.

– Ele veio – confidenciou o outro, parando para juntar distraidamente uma arruela do chão – mas estamos sob vigilância cerrada, você não faz idéia. Os dissidentes, cara. O Bira está nos observando a uma distância segura.

E olhou significativamente para lugar nenhum à sua direita. Não movi um músculo diante da revelação, mas pensei ter visto com o canto do olho algum movimento atrás de uma pilha de pneus.

– Qual é a missão? – perguntei, irritado, voltando a caminhar pelo pátio e esperando que o baixinho me seguisse com as instruções.

– Você sabe muito bem – resmungou ele, adiantando o passo para me acompanhar e passando a arruela de uma mão para a outra – Sua missão é deixar de cumprir as suas missões de forma tão eficaz.

Parei entre um passo e outro, indignado, e encarei o catarina de frente.

– Não faça essa cara – exigiu ele. – Ou você vai me dizer que desconhece o Protocolo Mainardi?

– É evidente que conheço.

– Recite pra mim – pediu ele com falsa delicadeza, e cuspi as palavras em resposta:

– “Consagração é tanto ser odiado quanto ser amado. Para permanecer invisível o Brasil precisa ser mantido na Zona da Mediocridade, a terra de ninguém em que ninguém nos ama nem odeia”.

– Essa, meu caro, é a sua missão. Pare de ser tão competente dentro da nossa organização. Você está destoando, está chamando a atenção, e nenhum dos peixes graúdos gosta de sentir-se ameaçado por um subordinado.

– O que eles esperam que eu faça?

– É óbvio: não lute contra a corrente. Não se destaque. Procastine. Se a missão demora um dia, gaste nela quatro. Se custa cinco mil reais, apresente notas para dez. Se sua missão é salvar o mundo, salve metade. A sua metade. Não seja amado nem odiado. Então qual é, companheiro, a diretriz primeira da Agência Nacional de Acobertamento?

– Esconder dos brasileiros a grandeza do Brasil – recitei.

– Pois trate de esconder a sua – disse o baixinho, dando as costas e partindo em direção ao seu caminhão sem se dar ao trabalho de erguer dos quadris a bermuda.

Neste momento ouvi o clique de uma pistola sendo engatilhada, e o baixinho estacou a cinco passos de mim. Alguém cujo rosto eu não podia ver, oculto atrás de um caminhão de soja, apertara-lhe uma arma contra a têmpora. Reconheci na mesma hora a mão engordurada do atendente da lanchonete.

– Eu tenho exigências – disse o homem com a pistola.

– Brabo, me salve – implorou o catarina.

– O Protocolo Mainardi – disse eu, e dei as costas em direção ao Corsa.

Minha alegria era saber que o Bira estava observando tudo, e foi obrigado a me mandar uma comenda mesmo depois que o banheiro do posto explodiu, mandando faxes para todos os lados.

Paulo Brabo @saobrabo

Escrevo livros, faço desenhos e desenho letras. A Bacia das Almas é repositório final de ideias condenadas à reformulação eterna.

Arquivado sob as rubricas

 

<
>

Depositado em juízo por Paulo Brabo · Desde 2004 · Sobre o autor e esta Bacia · Leia um livro · Olhe desenhos · Versões digitais dos manuscritos da Biblioteca do Monastério de São Brabo nas Índias Ocidentais · Fale comigo · A Bacia das Almas já foi longe demais