O primeiro dia • A Bacia das Almas

 

Paulo Brabo, 24 de setembro de 2006

O primeiro dia

Estocado em História

Lembranças de uma excursão aos Monastérios de Alcobaça e Batalha,
pelo autor de Vathek (William Beckford)

PRIMEIRO DIA
3 de junho de 1794

O príncipe regente de Portugal, por razões com que nunca cheguei inteiramente a me familiarizar, colocou uma bela manhã em sua cabeça real desejar que eu visitasse os monastérios de Alcobaça e Batalha, e de nomear meus amigos íntimos e particulares, o Grande Prior de Aviz e o Prior de São Vincente, como meus guias e companheiros. Nada poderia ser mais gracioso e, em muitos sentidos, mais agradável; ainda assim, num primeiro momento, tendo o que julgava serem compromissos muito mais agradáveis mais perto de casa, não quero fingir ter me sentido tão encantado quanto deveria.

Diante da comunicação da ordem suprema aos dois prelados, não descobriu-se neles o menor traço de supresa; aparentemente estavam inteiramente preparados para ela. O Grande Prior observou que o tempo estava horrivelmente quente e as estradas execráveis; o outro prelado pareceu mais animado e quase que totalmente pronto para a expedição. Pensei ter detectado num canto de seu olho vivaz e inteligente uma centelha de esperança de que, ao retornar de seu pequeno percurso de observação, os comentários que era provável que inspirasse talvez conduzissem a conferências mais íntimas em Queluz, levando-o a colisões mais freqüentes com a realeza.

Como meus mui justamente reverendos companheiros haviam providenciado não renunciar a um átomo de seus confortos e conveniências habituais, e levarem consigo seus acólitos e secretários confidenciais bem como alguns de seus favoritos quadrúpedes, tinhamos no séquito dos retromencionados animais uma rara multidão de tratadores, ferradores e guias de mula. Adicionando-se a esses meus seguidores costumeiros, formávamos uma caravana que, sem contar camelos e dromedários, teria causado impressão nada desprezível na rota para Meca ou Mesched-Ali.

O ponto de partida, o local geral de encontro para toda essa assembléia heterogênea, era minha quinta de São José, com ampla vista para a foz do Tejo, abarrotado com naus de toda nação debaixo do céu, mensageiras de alegria para alguns, de tristeza para outros, mas todas com velas estendidas radiando igualmente sob os raios de um sol cordial, e deslizando sobre as efervescentes ondas azuis com igual ligeireza.

– Aqui estou, meu caro amigo – disse-me o Grande Prior quando ajudei-o a descer da tremendamente narcótica dormeuse emprestada por seu irmão, o Marquês de Marialva, expressamente para este momento de provação. – Contemple-me, afinal (afinal de fato, sendo este o terceiro adiamento que eu experimentava), sempre encantado com a sua companhia, mas não tanto com a expedição que estamos a ponto de empreender.

– Espero que não acabe sendo tão desagradável no fim das contas – foi minha resposta. – No que me diz respeito estou sinceramente ansioso por ver Alcobaça.

– Pois eu não – retrucou o Grande Prior, – mas deixa estar. Erhard já chegou? Franchi já está pronto? O primeiro já embalou o baú de remédios a respeito do qual ele agonizava outro dia, e o segundo o piano que jurou far-se-ia em pedaços a não ser que fosse melhor afinado?

– Tudo está seguro, tudo aguardando: inclusive o jantar, meu caro Senhor Prior; e, depois disso, partamos. Aparentemente não será coisa fácil mesmo agora, sendo tantos do grupo adeptos da vadiagem.

Ficou resolvido que o Prior não olharia para nada que pudesse incitar a fadiga da reflexão.

A razão pela qual o Grande Prior tanto temia a viagem eu não conseguia imaginar, quando tantos esforços haviam sido tomados para torná-la cômoda e isenta de percalços. Ficou resolvido que ele se recostaria em sua dormeuse ou em minha chaise, como lhe aprouvesse, e que não olharia para nada calculado para incitar a fadiga da reflexão; investigações topográficas deveriam ser dispensadas por completo, e nenhuma pergunta levantada sobre quem dotara tal igreja ou erguera tal palácio. Devíamos avançar, ou antes rastejar, em etapas curtas e fáceis, parando para comer, cear e repousar tão confortavelmente quanto na mais acolhedora das casas. Tudo que pudesse ser pensado, ou até mesmo sonhado, para nossa conveniência e relaxamento deveria ser carregado em nosso séquito, e nada deixado para trás a não ser o Cuidado e a Dor, dois espectros que se ousassem montar em nossos ombros seriam expulsos com mão altiva pelo Prior de São Vicente, a cuja companhia deleitável nada existiu de comparável desde os dias daqueles refinados e gráceis cônegos e cardeais que formavam tamanha galáxia de talento e entretenimento ao redor de Leão X.

Fomos formidavelmente perturbados durante o nosso repasto, sobre o qual o discurso gaio do Prior de São Vicente lançava seu brilho usual, por uma algazarra no litoral, tumulto que mostrou-se perfeitamente incômodo. O espaço entre minha quinta e o mar estava inteiramente ocupado, sendo que metade da população de Belém havia comparecido para testemunhar nossa partida. Os desengonçados condutores das carroças de bagagem estavam brigando e disputando entre si pela primazia. Um dos mais precários desses veículos mal-construídos, carregando uma pesada marquise, tinha suas rodas traseiras já bem fustigadas pelas ondas. Finalmente o carro avançou, produzindo tamanha vociferação e tão ensurdecedores gritos de “Longa vida ao Príncipe!” e “Longa vida aos Marialvas, e também a todos os seus amigos!” – o que por certo incluía o inglês – que imaginei que determinariam uma dor-de-cabeça perpétua sobre o infeliz Grande Prior.

Entre os ruídos que lhe davam não pequeno motivo de incômodo cabe registrar os escandalosos bufos e relinchos de seus dois altamente mimados cavalos de carruagem favoritos, lançados em saudação a uma de minhas delicadas éguas inglesas, que tentava avançar pela multidão com um cativante ar de recato, ao mesmo tempo reservado e sentimental.

Meio rindo, meio indignado com a possibilidade de que algum coice ou arrojo infeliz pudessem privar-me dos cordiais serviços da égua, não me abstive de gritar ao Grande Prior:

– Por misericórdia, deixemos de vaguear e garatujar e avancemos se for possível por essa multidão. O senhor pode ver que perturbação ocasionou o tremendo estardalhaço que tem sido feito ao redor dessa viagem, e o resultado de tamanho excesso de superfluidades. Se estivéssemos, na verdade, partindo a fim de explorar o reino do Prestes João ou ao local semelhante onde Dom Sebastião largou seus ossos (se é verdade que acolheu-os a costa da África, e não alguma masmorra favorite do Rei Filipe), dificilmente teríamos acumulado tamanho rol de estorvos. Neste ritmo teremos ocasião de colocar nossa tenda em uso ainda esta noite, a não ser que adiemos novamente a viagem e durmamos sob meu teto em São José.

– Não, não – disse o Prior de São Vicente. – Dormiremos na minha agradável quinta no convento de Tojal. Partirei com os meus imediatamente para preparar a sua recepção.

O feito seguiu-se à palavra: seus condutores de mula estalaram seus chicotes da maneira mais imponente, seus ferradores avançaram, a multidão se dividiu e uma passagem foi aberta. O Grande Prior, ordenando que sua dormeuse o seguisse, entrou em minha enorme carruagem de viagem, e pelos esforços de seis vigorosas mulas logo chegamos a Bemfica.

Para além desse vilarejo uma alameda umbrosa, cercada de elmos, trouxe-nos a Nossa Senhora de Luz, um grande amontoado de edifícios construídos no majestoso estilo que prevaleceu durante a dominação espanhola em Portugal, porém muito danificado pelo terremoto. Dali seguimos até Lumiares, por intricadas ruas pavimentadas orladas de aloés, que alcançavam a altura de dez ou doze pés e não eram distintos em cor e formato de gigantescos aspargos.

Em Lumiares há uma quinta pertencente ao Marquês de Anjeja, na qual imensas somas têm sido dispendidas tendo em vista os sábios propósitos de pavimentar-se suas ruelas com pitorescos mosaicos de pedra (vermelho, negro e azul que formam colossais reservatórios para ouro e peixes dourados), de pintar-se suas lisas laterais de gesso em diversas cores flamejantes e de recortar-se num morro íngreme uma sucessão compacta de terraços, sob o único pretexto, devemos imaginar, de criarem-se lances de degraus de mármore desajeitadamente estreitos que comuniquem um terraço com o outro, pois não pareciam conduzir a qualquer outra área do jardim. A estrada de Lumiares até Loures estende-se ao longo de um vale, entre encostas pontuadas por plantações de grãos e pastos marcados por arbustos selvagens. O ar suave do entardecer era adorável, e o mugido dos rebanhos que desciam os morros para saciar a sede nas nascentes e fontes, depois de um dia sufocante, cheio de charme pastoril.

Escurecia quando passamos pelo vilarejo de Tojal e, cruzando a ponte sobre o rio Trancão, adentramos o domínio arborizado dos monges de São Vicente. Luzes cintilando na extremidade de uma avenida de laranjeiras conduziram-nos até a casa, um edifício baixo e pitoresco, meio casarão, meio eremitério. Nossa recepção foi verdadeiramente de tirar o fôlego, tão perfeita no que dizia respeito a todo conforto e deleite que um homem, ou mesmo clérigo, poderia desejar, que prometemos de bom grado passar o dia seguinte inteiro nessa residência cordial, e adiar nosso avanço para depois de amanhã.

William Beckford

Paulo Brabo @saobrabo

Escrevo livros, faço desenhos e desenho letras. A Bacia das Almas é repositório final de ideias condenadas à reformulação eterna.


 

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