O paradoxo da escolha • A Bacia das Almas

 

Paulo Brabo, 23 de dezembro de 2005

O paradoxo da escolha

Estocado em Nostalgia

Estamos condicionados a pensar que mais é mais. Parece-nos uma verdade evidente – daquelas que não requerem demonstração – que quanto maior o número de opções maior é nossa liberdade e maior o nosso nivel geral de satisfação. Barry Schwartz, professor de Teoria Social e Ação Social da Universidade de Swarthmore, escreveu The Paradox of Choice: Why More is Less (O Paradoxo da Escolha – Porque menos é mais) para provar que podemos estar errados.

Dito claramente, nunca houve tantas opções e em tudo quanto nos nosso dias. Carros, telefones celulares, programas de computador, cremes dentais, filmes, blogs, livros, biscoitos, planos de seguro, bonecas, músicas, parques de diversões, marcas de margarina, páginas da internet, restaurantes, religiões e relacionamentos – virtualmente cada possibilidade da vida arrasta atrás de si uma miríade de opções e subopções que cruzam-se e multiplicam-se promiscuamente – coisa sem precedentes na história da civilização, em que se costumou definir o valor de cada coisa pela sua escassez.

“A maioria das pessoas acha que a diversidade de opções é uma coisa boa. Afinal de contas, associamos escolha com autonomia, controle, independência e resultados desejados. Na realidade não é esse o caso”.

O paradoxo, segundo Schwartz, é que pensamos que queremos mais escolhas, mas quanto mais opções temos menos satisfeitos ficamos. Os tempos de escassez são invariavelmente vistos nostalgicamente, e com algum acerto, como tempos mais felizes.

Schwartz identifica quatro possíveis razões para essa insatisfação com a diversidade de opções:

1. O custo da oportunidade. Nossas decisões são maculadas por uma vantagem específica que tivemos de abrir mão no ato de fazermos determinada escolha. Analisando duas opções, você pode acabar concluindo que cada uma oferece algo que a outra deixa de oferecer; você percebe que, escolhendo uma, você estará invariavelmente perdendo alguma coisa que a outra opção podia garantir. Trata-se do custo da oportunidade: quanto mais alternativas você considera, maiores os custos de oportunidade de uma decisão.

2. Arrependimento. Há também o peso das opções integrais que deixamos de fazer. “Se aceito um emprego com um bom salário, posso me arrepender de não ter aceito um emprego numa boa localização. Posso me arrepender até mesmo de não esperar por um emprego hipotético com uma boa localização e um bom salário. Todas as outras possibilidades diminuem o prazer da minhas escolha”.

3. Capacidade de adaptação. Nossa capacidade de adaptação pode também trabalhar contra nós, quando uma decisão que parecia a princípio empolgante e inteiramente satisfatória perde gradualmente o brilho, ao ponto de deixar-nos insatisfeitos com a escolha original.

4. O peso da comparação. Finalmente, como estamos constantemente comparando-nos com as outras pessoas, acabamos concluindo sempre – e com todo o acerto – que alguém sempre está sempre em situação mais favorável.

Com base em como encaram a diversidade de opções, Schwartz divide as pessoas entre maximizadores e satisfazedores. Os maximizadores buscam incessamente e a qualquer custo a opção mais vantajosa – vasculham todas as lojas de todos os shoppings até encontrar o sapato que oferece o melhor custo-benefício. Os satisfazedores, por outro lado, procuram uma opção que lhes pareça satisfatória para o critério que determinaram para si mesmos. Assim que encontram uma opção que lhes pareça boa, param de procurar.

A evidência é de que não apenas os maximizadores gastam uma parcela muito significativa do seu tempo fazendo decisões, mas tendem ainda a ser menos felizes com as decisões que fizeram. Gastam mais tempo arrependendo-se e comparando-se com os outros ao seu redor, torturando-se com as opções mais vantajosas do que a que fizeram.

O paradoxo está em que a diversidade de opções pode produzir não a liberdade, mas a paralisia.

Olhai, senhoras e senhores, os lírios do campo.

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Paulo Brabo @saobrabo

Escrevo livros, faço desenhos e desenho letras. A Bacia das Almas é repositório final de ideias condenadas à reformulação eterna.

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