O papel das narrativas: descartando absolutos • A Bacia das Almas

 

Paulo Brabo, 05 de julho de 2010

O papel das narrativas: descartando absolutos

Estocado em Goiabas Roubadas

À medida em que o ocidente continua a afastar-se da cristandade, a igreja não pode esperar apelar a absolutos metafísicos ou morais a fim de dar suporte à sua proclamação enquanto se engaja com a sociedade. Dentro de uma sociedade pluralista esse tipo de realidade universal simplesmente não existe. Isso é assim porque a narrativa cristã deixou de funcionar como a metanarrativa social. Os cristãos não podem simplesmente recomendar a ética cristã àqueles fora da narrativa cristã, porque não existe um código moral universal. Noções como “amor”, “paz” e “justiça” não são realidades universalmente compreendidas, mas derivam seu significado e inteligibilidade de uma narrativa construidora.

Nesse sentido é importante entender que toda vida humana está fundamentada em narrativas. Narrativas não são substitutos para fatos ou verdades abstratas; antes, são um sistema de referência para a compreensão do mundo, e não podem ser reduzidas a máximas. O estado caótico moral do mundo ocidental reflete uma sociedade que parece ter perdido qualquer forma de narrativa estruturadora. Uma sociedade como essa subsiste apenas com “os fragmentos de um esquema conceitual, partes que agora carecem dos contextos dos quais sua significância era derivada”. A erosão dos símbolos e de uma linguagem de significado, aliada ao foco no eterno como agora e à desvalorização da tradição e da história, resultaram numa perda de narrativa. Cada pessoa abraça uma narrativa de sua própria escolha, ou abraça um modo de vida definido pela crise — em que não resta tempo de se perceber, ou de ater-se ao fato de que, está faltando uma narrativa estruturadora. A igreja não pode mais apelar para quaisquer absolutos dentro do modo de agir, pensar e sentir da sociedade pluralista contemporânea.

Daniel Oudshoorn
Poser or Prophet

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Paulo Brabo @saobrabo

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