O outro símbolo universal • A Bacia das Almas

 

Paulo Brabo, 11 de setembro de 2009

O outro símbolo universal

Estocado em Manuscritos

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O outro símbolo universal que não está ausente do relato das origens em Gênesis é a Árvore da Vida.

A árvore é símbolo mais transversal e ambíguo do que a serpente. Seus poderes de evocação são ainda mais profundos e inconscientes. A imagem da serpente desperta temor e uma estranha fascinação, o que pode ser em parte explicado pela seu aspecto e por sua conduta; o que evoca a imagem da árvore, símbolo em tudo anterior e alheio à humanidade, não pode ser adequadamente explicado por razões conscientes.

A árvore é entidade dividida pela linha invisível que separa céu e terra. É símbolo de unidade e de dualidade: o tronco e os ramos que vemos na experiência do dia-a-dia existem ocultos, duplicados e invertidos, no sistema de raízes sob a superfície. A árvore reside perpetuamente no limiar: metade na luz do dia, metade na escuridão que nada penetra; é redimida pelo sol mas alimentada pela sombra. Nessa qualidade ela representa, a seu próprio modo onipresente e silencioso, a transição e o tráfico entre raízes e ramificações, passado e futuro, entre consciente e inconsciente.

Essa posição entre o céu e o inferno levou a árvore a ocupar, nas lendas de muitas culturas, o papel de porta de passagem, local de transição: é na sombra da árvore que o Buda encontra a iluminação, é num crucificado numa árvore que os cristãos encontram a divisa entre dois mundos.

Em contraposição à serpente, que é símbolo fálico e portanto masculino, a árvore é emblema da Grande Mãe, vasta, eterna e inescapável, ao mesmo tempo generosa e terrível. Em conformidade com essa vocação, a árvore foi e permanece sendo venerada, de um extremo a outro do mundo, como emblema suficiente de eternidade e fertilidade. Cada árvore é todas as árvores; cada uma é a árvore do conhecimento e é também Yggradasil, a colossal árvore cósmica que é o eixo do universo e cujos ramos sustentam o céu.

Paulo Brabo @saobrabo

Escrevo livros, faço desenhos e desenho letras. A Bacia das Almas é repositório final de ideias condenadas à reformulação eterna.

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