O nascimento de Abraão • A Bacia das Almas

 

Paulo Brabo, 06 de abril de 2009

O nascimento de Abraão

Estocado em Goiabas Roubadas

ABRAÃO: O nascimento de Abraão

Tera casou-se com Emtelai, filha de Karnavo, e o fruto da sua união foi Abraão. Seu nascimento tinha sido lido nas estrelas por Ninrode, pois esse rei perverso era também um hábil astrólogo, e ficou manifesto a ele que nos seus dias nasceria um homem que se levantaria contra ele e exporia triunfalmente a mentira da sua religião. Em seu terror diante do destino previsto para ele pelas estrelas, Ninrode mandou chamar seus príncipes e governadores, e pediu-lhes que o aconselhassem a respeito da questão.

Eles responderam:

— Nossa recomendação unânime é que o senhor construa uma grande casa, coloque uma guarda na entrada, e faça anunciar em todo o seu reino que todas as mulheres grávidas devem dirigir-se até ali com suas parteiras, as quais devem permanecer com elas até que tenham dado à luz. Quando chegar a hora do parto e a criança nascer, será dever da parteira, se for menino, matá-lo. Se for menina, será mantida viva, e a mulher recebera presentes e vestidos caros, enquanto um arauto promulgará: “Assim é tratada a mulher que tem uma filha!”

O rei agradou-se da recomendação deles, e fez com que uma proclamação fosse publicada no reino inteiro, convocando todos os arquitetos para que construíssem uma grande casa, com sessenta varas de altura e oitenta de largura. Uma vez concluída ele emitiu uma segunda proclamação, convocando todas as mulheres grávidas até a casa, onde deveriam permanecer em regime de confinamento.

Oficiais foram apontados para levar as mulheres até a casa, e guardas foram colocados nela e nos seus arredores, para impedir que escapassem. Ele além disso mandou parteiras para a casa, e ordenou que matassem os filhos homens no próprio seio de suas mães. Se a mulher desse à luz uma filha, a parteira deveria envolvê-la em bisso, seda e trajes bordados, e levá-la para fora da casa de detenção entre grandes honrarias.

Nada menos do que setenta mil crianças foram massacradas dessa forma. Então os anjos foram à presença de Deus e disseram:

— O senhor não vê o que está fazendo Ninrode filho de Canaarl, aquele pecador e blasfemador, matando tantas crianças inocentes que nada de mal fizeram?

Deus respondeu:

— Santos anjos, sei e vejo, pois não durmo nem caio no sono. Contemplo e conheço as coisas secretas e as coisas que são reveladas, e vocês testemunharão o que farei a esse pecador e blasfemador, pois voltarei minha mão contra ele para castigá-lo.

Foi nessa época que Tera tomou como esposa a mãe de Abraão, e ela estava grávida. Quando, depois de três meses de gravidez, seu corpo cresceu e seu semblante empalideceu, Tera disse a ela:

— O que está afligindo você, minha esposa? Porque seu semblante está tão pálido e seu corpo tão inchado?

— Todo ano sofro desse mal — ela respondeu.

Mas Tera não se deu por satisfeito, e insistiu:

— Mostre-me o seu corpo. A mim parece que você está esperando um bebê. E, se estiver, não nos cabe violar a ordem de nosso deus Ninrode.

Quando ele apalpou o corpo da esposa, um milagre aconteceu. A criança ergueu-se até ficar sob os seios dela, e Terá não sentiu nada com as mãos.

— Você está dizendo a verdade — ele disse à esposa, e nada ficou visível até o dia do parto.

Quando chegou a hora a mulher deixou a cidade tomada de grande terror e perambulou na direção do deserto, caminhando ao longo da orla de um vale, até deparar-se com uma caverna. Ela entrou nesse refúgio, e no dia seguinte foi tomada de dores e deu à luz um filho. Como que com o esplendor do sol, toda a caverna encheu-se com a luz do semblante da criança, e a mãe encheu-se de júbilo. O filho que ela gerou foi nosso pai Abraão.

Lamentando-se, a mãe disse ao filho:

— Triste é que você tenha nascido numa época em que o rei é Ninrode. Por sua causa setenta mil meninos foram massacrados, e por causa de você estou aterrorizada, com medo que ele ouça da sua existência e mate você. Melhor é que você morra nesta caverna do que meus olhos tenham de vê-lo assassinado no meu seio.

Ela removeu o vestido que trajava e envolveu com ele o menino.

— O senhor permaneça com você. Que ele não lhe falte nem o deixe.

E abandonou-o sozinho na caverna.

* * *

Lendas dos Judeus é uma compilação de lendas judaicas recolhidas das fontes originais do midrash (particularmente o Talmude) pelo talmudista lituano Louis Ginzberg (1873-1953). Lendas foi publicado em 6 volumes (sendo dois volumes de notas) entre 1909 e 1928.

Paulo Brabo @saobrabo

Escrevo livros, faço desenhos e desenho letras. A Bacia das Almas é repositório final de ideias condenadas à reformulação eterna.

Arquivado sob as rubricas

 

<
>

Depositado em juízo por Paulo Brabo · Desde 2004 · Sobre o autor e esta Bacia · Leia um livro · Olhe desenhos · Versões digitais dos manuscritos da Biblioteca do Monastério de São Brabo nas Índias Ocidentais · Fale comigo · A Bacia das Almas é repositório final de ideias condenadas à reformulação eterna