O mascarado que matou o Cafuçu • A Bacia das Almas

 

Paulo Brabo, 18 de março de 2015

O mascarado que matou o Cafuçu

Estocado em Brasil · Manuscritos

Douzemar, o cabra mais forte e nomeado da Parahyba, conseguiu manter-se incogitado até pinçarem a sua cabeça raspada no trem em Madureira; dali pra frente foi só um acumular de batuques, uma paixão com furores mais carregados a cada estação. Antes que ele botasse o pé para fora do ônibus na rua Pinheiro Machado, as lavadeiras despencavam dos morros em devassas cascatas, os meninos corriam por flores que pudessem jogar. Alertados pelo rádio, os taxistas acertavam os penteados, mulheres de mais trinta se maquilavam na direção. Os executivos branquearam as suas agendas, os bombeiros tomaram banho, as palestras motivacionais se cancelaram pela mais injusta competição. As igrejas tocaram seus sinos, os bondes pararam na praça; de Santa Teresa os boêmios verteram em pleno dia pelos arcos da Lapa. Em Copacabana os mendigos ensaiavam seu coro, os barcos escalavam a areia, os garçons corriam com petiscos para a rua e nas sacadas se sacudia o champanhe.

Quando Douzemar pisou a pedra portuguesa da calçada de Botafogo, os carros da rua Farani tinham perdido seus motoristas, cem timbaladeiros tocavam em formação e uma falange de motoboys improvisava uma coreografia.

Um cortejo de baianas descalças chegou com jarras de aluá, e a dona de uma casa de câmbio ofertou um buquê de cravos rajados. Douzemar tirou as sandálias e foi caminhando sereno em direção à Urca, arrastando unanimidade que só fazia crescer.

– É a figura escarrada do homem valente – disse um jornalista.

– Mas a seu modo rústico, é muito atraente – disse um pintor.

– O queixo se vê que é feito a facão – disse uma esteticista.

– O peito largo como o sertão – disse um agrimensor.

– Os olhos são doces feito sapoti – disse uma confeiteira.

– E peludo macho mais que mapinguari – disse um antropólogo.

– Homem mais vistoso não há no Brasil – disse uma analista financeira.

– E se subentende que é bem viril – disse o seu psicólogo.

– A barba fechada que é a orla do Tocantins – disse um lenhador.

– Mas as faces redondas dos serafins! – gritou um franciscano.

– Os braços grossos que são uma tora – disse um cantador.

– E os pés miúdos, virados pra fora – disse um alagoano.

– Mas não há enredo que baste pra cantar – disse um capitão da polícia, muito emocionado – toda a beleza de Douzemar.

Na praia Vermelha os aspirantes perfilhados sob o sol sambavam miudinho no lugar, e saudavam um a um a passagem de Douzemar. Os oficiais do alto dos cavalos atiraram no chão os seus quepes, e um vereador lhe trouxe uma placa.

– Não há sujeito mais destemido – disse um advogado.

– Não há sistema que não tenha vencido – disse um analista.

– Eliminou a corrupção do Senado – disse um deputado.

– Expulsou os jagunços do cerrado – disse um indianista.

– Não tem medo de assombração – disse um folclorista.

– E se mija toda a alma de Lampião – disse um pai de santo.

– Foi herói de guerra, desarmou fascistas – disse um cronista.

– Salvou capelães, libertou artistas – disse um padre em pranto.

– Derrotou exércitos e capou dragões – disse um assessor militar.

– Sua valentia não tem exceções – disse um estatístico.

– Lamenta profundamente a ditadura – disse uma comissão interdisciplinar.

– E mil sambas cantam a sua bravura – disse um diretor artístico.

– Mas não há verso que baste pra honrar – disse um comendador – toda a coragem de Douzemar.

Quando Douzemar pegou o bondinho, não havia espaço para um cristão a mais entre a praia da Saudade e o Leme. Giravam nos terraços os porta-estandartes, e nas ruas avançavam palmo a palmo os carros alegóricos.

– Sabe limpar peixe e plantar cana – disse um ecólogo.

– Mas tem uma quedinha por Humanas – disse um faxineiro.

– Trabalha como diz um homem de direita – disse um sociólogo.

– E reparte como diz um homem de esquerda – disse um banqueiro.

– Ninguém sabe ser mais tolerante – disse um caminhoneiro.

– Ninguém, melhor amante – disse uma gestante.

– Ninguém tem mais firmes convicções – disse uma cartomante.

– E ninguém, que se saiba, maiores colhões – disse um cangaceiro.

– Leu Derrida, leu Marx, leu Deleuze – disse um historiador.

– Respeita ateus e feministas, e ainda crê em Deus – disse um rapaz.

– Sabe sambar e vencer no repente – disse um lavrador.

– Dá axé a macumbeiro e ajuda crente – disse um Nobel da paz.

– Mas não há refrão que baste pra exaltar – cantaram todos na avenida Atlântica – as grandezas de Douzemar.

No alto do Pão de Açúcar aguardava Valenciana, amante e amada do parahybano Douzemar, escoltada pelo governador da Guanabara. A cabrocha virou-se em seu vestido para sorrir, e seus cabelos eram no vento uma ressaca negra de caracóis. Seus olhos encontraram Douzemar, que subia gingando a plataforma; para saudá-lo o governador, que trazia Valenciana pela mão no braço estendido, desviou por um instante o olhar do decote.

Lá embaixo todos viram a aproximação no telão, pararam de dançar e se deram as mãos. “Ahhh”, fez o coro das lavadeiras. “Ohhh” respondeu o coro dos escriturários. Fluminenses e flamenguistas onde estavam fecharam o mais inegociável dos abraços. O presidente, vendo pela tevê, assinou a anistia perpétua.

Porém nesse momento uma figura encapuzada pisou a plataforma, e o tamanho era o poder do seu pé que foi derrubando numa onda circular toda a população, da Urca até Petrópolis. Ficaram em pé só Douzemar e Valenciana, e o governador porque se pendurara no ombro da moça.

– Douzemar, que perigo esta vez? – disse Valenciana, derrubando o governador como se fosse uma caspa.

– Está encapuzado – disse Douzemar, – mas pelo manto meio aberto estou espiando os pés de bode, a pele vermelha com aspecto de cera. O terno de babaca.

– E o cheiro de enxofre.

– É ele. É o Cão. O Cabrunco. O Canheta. O Cafuçu.

– Vossia é muito peitudo de vir interromper as comemorações! – disse Valenciana, que era quanto mais furiosa mais bonita.

– Vim interromper mais do que isso, vim – disse o encapuzado, com a voz de toda uma escola de tenentes.

– E aquele acordo que temos? – exigiu Douzemar. – De que se vossia me deixa em paz não volto a quebrar tudo no inferno?

– Esse acordo pode até valer neste Brasil, mas olhe ao redor porque tudo está para mudar. Vou te dar um Brasil encantado em que ninguém vai respeitar, Douzemar, vai sequer olhar pra um cabra azedo da sua monta.

– Vossia tem uma imaginação que só o diabo – riu alto Douzemar. – No Brasil o que somos é assim: todo mundo encontra no outro o que admirar.

– Atenção para a contagem – disse o encapuzado: – UM.

E que tudo já tinha mudado Douzemar demorou a entender, porque o diabo jazia caído na plataforma com um tiro pelas costas. O verdadeiro encapuzado, que tinha tomado o Cão por refém no abrigo do seu manto e ali mesmo o assassinara, permanecia de pé, a identidade bem oculta pelo capuz. Do manto para fora só a mão enluvada e um revólver de cinema.

Douzemar correu para tirar o pulso do diabo, mas já era tarde demais. Valenciana levou a mão à boca, os olhos mareavam.

– O que vossia fez? – disse Douzemar ao encapuzado – Quem diabos é vossia?

Mas antes que ele respondesse o parahybano olhou lá de cima e viu que a praia da Lapa e a praia de Santa Luzia não existiam mais. A orla do Flamengo além da praia de Botafogo alguém tinha aterrado.

Algo estava muito, muito errado.

Valenciana viu a mesma coisa, e o casal sem pensar estendeu os braços um em direção ao outro.

Mas então houve dois tiros, e se voltariam a se tocar os amantes, naquele mundo não seria.

Paulo Brabo @saobrabo

Escrevo livros, faço desenhos e desenho letras. A Bacia das Almas é repositório final de ideias condenadas à reformulação eterna.

Arquivado sob as rubricas

 

<
>

Depositado em juízo por Paulo Brabo · Desde 2004 · Sobre o autor e esta Bacia · Leia um livro · Olhe desenhos · Versões digitais dos manuscritos da Biblioteca do Monastério de São Brabo nas Índias Ocidentais · Fale comigo · A Bacia das Almas pode causar dependência. Procure um grupo de apoio na sua igreja