O horror de argila • A Bacia das Almas

 

Paulo Brabo, 19 de agosto de 2009

O horror de argila

Estocado em Manuscritos

 

A coisa mais misericordiosa do mundo, creio eu, é a incapacidade da mente humana de correlacionar tudo que contém.

 

Na introdução de uma de suas histórias mais célebres, Lovecraft sustenta que a sanidade do homem comum depende do fato de vivermos numa ilha de ignorância num mar de infinidade, desconhecendo os dois ou três fatos independentes que, alinhados na nossa consciência, poderiam conduzir-nos às mais estarrecedoras das associações. A primeira parte da ironia está em que precisamente agora, enquanto escrevo, o mundo perdeu para sempre o acesso a esse bem-aventurado desconhecimento do tecido das coisas. A segunda está em que, guiado pelo impulso irresistível do cérebro em produzir associações, foi precisamente esse parágrafo de Lovecraft – mestre do horror e portanto profeta – que me veio à mente no instante em que li do Consórcio Kauppias Claerhoudt e suas calamitosas revelações.

Não faz mais de três meses mas, como grande parte das pessoas, sou inteiramente incapaz de lembrar ou, mais precisamente, de conceber, como era a vida antes. A rigor não esqueci nada. Pelo que sei todas as lembranças permanecem mais ou menos onde sempre estiveram (e já nisso, pelo que dizem, sou mais feliz do que muitos): lembro do meu melhor parceiro de truco na cantina da universidade, não esqueci a luz peculiar de um posto de gasolina numa aldeiazinha da Itália e lembro de andar descalço pelo gramado da casa da minha avó com um bebê sorridente no colo. Porém, por mais que me esforce, sou inteiramente incapaz de extrair da memória, dos músculos ou de qualquer artefato cultural a mínima recordação, verdadeira recordação, da sensação de existir e avançar pelo mundo no abrigo da ignorância do que sei agora.

O que Lovecraft não tinha como antecipar, naturalmente, era a ascensão dos computadores, que em suas formas mais simples e mais elaboradas são máquinas de fazer associações, e da rede mundial, que elevou a potências absolutamente inimagináveis esse potencial.

Entre outras coisas, a internet transformou-se numa ciclópica interface para a entrada de dados. Em ritmo cada mais acelerado, pessoas e instituições passaram a inserir conteúdo na internet: impressões, lembranças, comentários, gráficos, filmes, confidências, fotos, livros, atas, relatórios, bibliotecas inteiras. Aprendemos a imprimir alguma organização a esse caos associando a cada parcela desses conteúdos rubricas identificadoras – etiquetas ou tags – que poderiam ajudar outro ser humano (ou nós mesmos) a encontrá-la nos vastíssimos e cada vez mais numerosos corredores da biblioteca universal. Essas nossas pobres tentativas de organização, no entanto, foram tornadas obsoletas diante da inteligência transversal aplicada a esses dados pelos algoritmos dos serviços de busca da rede. Essas fórmulas autoalimentadoras transformaram cada palavra de cada documento jamais disponibilizado, bem como cada registro sonoro, cada conjunto de pixels e cada quadro de filme em sua própria rubrica independente – deixando, pela primeira vez na história, que os conteúdos da experiência humana se organizassem por si mesmos, gerando novas e imprevisíveis correlações.

Creio que foi no começo deste ano (não arrisco a usar o Google) que um estudo da Universidade de Stanford aplicou as mais sofisticadas técnicas de análise e retroprocessamento aos padrões de conteúdo do maior servidor de microblogagem da terra. O estudo encontrou inusitadas correntes ascendentes e ramificações, filigranados fractais e espirais tridimensionais, curvas estratificadas e torres recursivas, tempestades e ciclones em mensagens de texto que não ultrapassavam 140 caracteres, mas abracavam uma rede de quase um bilhão de usuários. Essas descobertas imprimiram novas bases e forneceram combustível de controvérsia a conceitos como redes neurais, mentalidade de colmeia, teoria do caos e multiplicidade causal – coisas que até o advento da internet (não acredito que acabei de escrever “o advento da internet”) não pareciam ter qualquer vocação a deixar o domínio da ficção científica.

Nada nesses padrões, no entanto, serviria para congelar o sangue exigente de Lovecraft. As associações últimas não haviam sido ainda feitas, e o mundo vivia, embora ao sabor de um inclemente tsunami de informação, na segurança relativa de sua ilha de ignorância.

Meu Deus, as coisas que sabemos agora.

Que alguém tenha decidido catalogar em tempo real todos os sonhos da humanidade me parece, em retrospecto, mais ou menos inevitável na esfera todo-ambiciosa e todo-arbitrária da internet. Que a iniciativa tenha se tornado tão vertiginosamente popular, eclipsando as em nada pequenas obsessões anteriores com redes sociais e microblogagem, deve-se pelo menos tanto às habilidades de marketing quanto ao profissionalismo dos organizadores do Consórcio Kauppias Claerhoudt.

A idéia original (se é que é possível retornar à idéia original) era produzir dados confiáveis sobre a mais intangível das matérias. O primeiro registro do sonho coletivo da humanidade – dizia, aos que clicavam o banner ou recebiam o convite encaminhado por e-mail, a página principal do projeto em dreamstream.com (hoje, inevitavelmente, fora do ar. Não há, no entanto, quem ignore que toda a informação pertinente permanece disponível, quem sabe por quanto tempo, na memória temporária do Google. É inteiramente concebível, em virtude do presente estado de coisas, que o Google expire antes que seu próprio cache.)

“O registro sistemático da atividade onírica noturna de uma parcela significativa da humanidade pode fornecer ferramentas de valor incalculável a psicólogos, antropólogos e neurologistas, etc etc etc”. Abaixo disso, três ou quatro diretrizes simples (“procure registrar o seu sonho o mais cedo possível, logo depois de acordar; se necessário faça notas”, “não volte atrás para editar o que escreveu; se precisar acrescentar algum detalhe ou correção registre-os no formulário no momento e na ordem em que lhe ocorrerem, mesmo que isso gere textos recursivos ou incoerentes”). A página do Consórcio oferecia a opção de inscrição para aqueles que quisessem acompanhar ao longo do tempo sua dreamstream pessoal, mas esse protocolo de acesso (sempre sob pseudônimo) não era requerido de ninguém 1Uma conspícua caixa de seleção, entretanto, explicava que clicar no botão “Submeter” implicava na cessão integral dos direitos de reprodução do sonho em questão ao Consórcio Kauppias Claerhoudt. Essa medida, apesar da controvérsia que gerou entre antagonistas e defensores do copyright – quando essas coisas ainda faziam sentido – foi mantida até o final.. Bastava acessar a página e começar a escrever.

E um número absolutamente incrível de pessoas passou a fazer exatamente isso. Não havia contas privadas na página do Consórcio, e qualquer usuário (idealmente maior de idade) podia ter acesso ao dreamstream de qualquer outro. Esse mergulho coletivo na psiquê individual mostrou-se vertiginosamente popular. Em vinte e sete dias o site do Consórcio em dreamstream.com comemorou a marca de 15 milhões de usuários. Em três dias esse número havia duplicado, e não parou de crescer até o último momento.

Se o sonho coletivo da humanidade tomava corpo, a maior parte das pessoas só era capaz de acompanhá-lo em regime micro. Depois de algumas semanas de controvérsia legal, no entanto, o conteúdo de dreamstream.com passou a ser indexado pelos sites de busca, e suas correlações internas passaram a estar disponíveis a qualquer um que soubesse o que procurar. Este foi o apocalipse e o fim do mundo. Este foi o verdadeiro advento da internet.

Um programador hindu em seu blog e uma psicóloga ucraniana no maior jornal de psicologia do leste europeu esboçaram mais ou menos simultaneamente as mesmas conclusões, e forneceram as mesmas diretrizes de busca, a serem usadas na página da internet mais visitada do mundo, para demonstrarem o que estavam propondo.

Os escritores de ficção científica procuraram sem trégua antever o momento em que o mundo se depararia com uma estarrecedora singularidade ou se veria forçado a um encontro cósmico de consequências cataclísmicas. Em muitos sentidos, o que fez o Consórcio Kauppias Claerhoudt foi trazer à tona foi o terror oposto, retrospectivo: a revelação de que para cada pessoa (e para cada um de modo diferente) esse momento fatal alojava-se num momento impensável do passado, e não do futuro.

As estatísticas não são confiáveis e provavelmente nunca voltarão a ser, mas estima-se que quase um por cento dos que foram submetidos à revelação enlouqueceram imediatamente. Nas primeiras semanas não houve aumento sensível no número de suicídios, mas esse lapso foi espetacularmente corrigido até o final do primeiro mês, e permanece sendo.

Eu, que não imaginava ver algo mais vasto do que a queda das torres gêmeas, não cheguei a tremer diante do incêndio de Florença ou do “remanejamento” dos Andes – porque a essa altura já havia me atingido minha própria tragédia pessoal.

Como todos, depois de conhecer a revelação fiz uma busca e dei um telefonema. Na sala em que eu estava havia por infortúnio um espelho, e demorei mais de cinco segundos absolutamente surpreso, absolutamente surdo e seguro na minha última zona de conforto, até entender quem era a pessoa que estava gritando.

Paulo Brabo @saobrabo

Escrevo livros, faço desenhos e desenho letras. A Bacia das Almas é repositório final de ideias condenadas à reformulação eterna.

Notas   [ + ]

1. Uma conspícua caixa de seleção, entretanto, explicava que clicar no botão “Submeter” implicava na cessão integral dos direitos de reprodução do sonho em questão ao Consórcio Kauppias Claerhoudt. Essa medida, apesar da controvérsia que gerou entre antagonistas e defensores do copyright – quando essas coisas ainda faziam sentido – foi mantida até o final.
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