O homem como peregrino • A Bacia das Almas

 

Paulo Brabo, 15 de novembro de 2006

O homem como peregrino

Estocado em Goiabas Roubadas · História

Samuel Purchas (1577-1626) foi um clérigo inglês a quem ocorreu certo dia escrever a história das grandes explorações e navegações, dos prístinos tempos bíblicos até os dias de animado comércio internacional do século XVII.

Ambicioso, Purchas compilou fontes antigas, registros da Companhia das Índias Orientais e inúmeros relatos de viajantes e descobridores (muitos dos quais herdara por sua vez de Richard Hakluyt, cujas Voyages serviram de referência para Shakespeare). Mais ou menos ao gosto do seu tempo, interpolou, comentou e acrescentou, não fazendo ao mesmo tempo muita questão de distinguir fato de lenda; juntou por fim seus próprios comentários, apartes e especulações filosóficas e teológicas.

O resultado, publicado em 4 volumes, é uma vertigem que parece ter saído da pena laboriosa de Umberto Eco nos momentos em que imita Borges: o redundante, pomposo, elucubrante – numa palavra, delicioso – Purchas his Pilgrimes, contayning a History of the World in Sea Voyages and Lande Travells, by Englishmen and others.

O primeiro volume, de que já roubei um emaranhado parágrafo aqui, é um que eu adoraria ter tempo para traduzir – e comentar. O primeiro capítulo é dedicado ao que Purchas julga ser a primeira grande navegação da história, o comércio de Salomão com a terra de Ofir, mencionado em 1 Reis 9:28, 10:11 e 22:48. Há infindas conjecturas sobre a localização perdida da misteriosa Ofir; longas discussões sobre a relação tipológica entre Cristo e Salomão; uma extensa apologia da navegação comercial, associando-a diretamente à ordem de Gênesis que o homem domine sobre terra e mar.

O segundo capítulo – A vida do homem como peregrinação. As peregrinações de Cristo e a primeira Circundução do mundo então habitado ou habitável pelos santos Apóstolos e primeiros plantadores do Evangelho – é quase tão saborosamente especulativo e (como todo texto que cede à devoção) talvez mais presunçoso. Alguns parágrafos servirão de introdução ao seu meandroso raciocínio. Purchas parte de uma idéia comum no seu tempo, a do homem como microcosmo ou mundo em miniatura, mas quer ser ele mesmo descobridor de novas associações entre idéias antigas:

Deus, que no princípio havia feito o Mundo, e concedido ao Homem o direito natural de herança sobre ele, fazendo também o homem como um outro mundo, vivo e em miniatura (de fato, uma Imagem reduzida e conjunta de Deus e do Mundo), enviou na plenitude dos tempos a seu Filho (através do qual havia feito o Mundo e o Homem) para tornar-se Homem no Mundo, a fim de que pudesse recriar e renovar tanto o Mundo quanto o Homem, agora perdidos e esvaindo-se para perdição. Salvação essa que, primeiramente efetuada no infinito valor e merecimento de sua pessoa e de sua paixão, confiou ele a testemunhas fiéis, dando a elas ordens para irem por todo o mundo e pregarem o Evangelho a toda criatura, para que por esses canais Ministeriais (na cooperação do seu Espírito) seu Exemplo afável e imitável fosse proposto como estrela-guia dos Cristãos, sua virtude salvífica sendo infundida como influência celestial, seus méritos que tudo cobrem e tudo curam imputados a seus membros crentes por graça espiritual, a fim de prepará-los para a Glória supracelestial, para a qual ele anteriormente ascendeu como nosso Sacerdote a fim de fazer intercessão e, na qualidade de Rei em carne humana, tomar posse por Nós, que somos feitos nele Reis e Sacerdotes para Deus.

Dessa forma temos um único Autor do Mundo, do Homem e das Peregrinações do homem no mundo e ao redor do Mundo. O primeiro fez ele pela sua onipotente Palavra: ordenou, e em seis dias esta imensa Trama estava tanto concluída quanto provisionada. Ao segundo é concedida maior indulgência numa preparação postulada como consulta, Façamos o Homem – e ao fazer a obra, como Obra-Prima, formou ele e construiu a partir do exemplar ou protótipo em nossa própria imagem, à nossa semelhança. Em sua generosa divisão, o Mar e a terra, com todos os seus elementos, sujeitou à régia possessão do homem, apontando os céus, com sua régia influência e régios componentes, para sua sábia e inerrante contemplação.

Assim foi ao princípio, mas o primeiro tornou-se último ao colocar o último em primeiro lugar, preferindo a Criatura ao Criador, sendo portanto merecidamente expulso do Paraíso para vaguear: um Peregrino no mundo. Mas por essa razão seu Criador (pois os remédios surgem dos contrários) preferiu sua Criatura a si mesmo, por sua infinita humildade efetuando compensação pelo indízível orgulho dela; e aquele que havia anteriormente feito o Homem a sua imagem faz-se à imagem do homem, a fim de recuperar o que se havia perdido. O amanda & admiranda dignatio! propícia, impronuncíavel, superadmirável liberalidade! O Mundo ele fez para dar ao Homem. O Homem ele fez capaz de sujeitar o mundo, e deu a ele ainda um mundo duplicado, acrescentando ao Mundo maior, anterior, o mundo menor que é o caráter do Homem. E quando ambos estavam perdidos, por vil Traição e voluntária rebelião, a fim de perdoar o Traidor concedeu ele o Príncipe, que [. . .] não se contentou em dar a ele mais uma vez o mundo perdido das criaturas, mas acrescentou um mundo supracelestial, em que o Homem recuperado pode preencher os aposentos vagos dos Anjos decaídos. De fato, ele restaurou o Homem perdido para si mesmo como possessão mais segura e mais nobre, e para complemento dessa Liberalidade concedeu a sua Criatura perdida o caráter de Deus [. . .].

Essa foi de fato a maior de todas as peregrinações, quando o verbo se fez carne (deixando de certa forma sua Pátria celeste e casa de seu Pai) e habitou entre nós [. . .] Mas minha pena é indigna de seguir suas pegadas.

Paulo Brabo @saobrabo

Escrevo livros, faço desenhos e desenho letras. A Bacia das Almas é repositório final de ideias condenadas à reformulação eterna.

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