O Gerente Dissoluto, parte 2 • A Bacia das Almas

 

Paulo Brabo, 24 de maio de 2005

O Gerente Dissoluto, parte 2

Estocado em Manuscritos

No dia seguinte, uma terça-feira, era uma mancha deslizante de terra vermelha que começava debaixo da orelha esquerda e terminava sua curva suave na base da nuca; na quarta, uma nódoa esverdeada e aparentemente pegajosa que subia das costas peludas da mão e perdia-se punho da camisa branca adentro.

Então veio a quinta.

A primeira hora de quinta-feira, todos sabiam, era momento da reunião semanal da “equipe” na salinha refrigerada de reuniões. A “equipe” eram, além do Fausto, a Susi, o Vasquez, o Perez, o Edmundo e, dependendo do convite do gerente, o estagiário da vez.

O Fausto chegou onze minutos atrasado, por isso já estavam todos na salinha, cochichando à salvo atrás das persianas. Quando ele entrou com o Edwin, todos calaram imediatamente.

– Vamos tentar agir naturalmente – o Vasquez tinha pedido aos colegas antes que o Fausto chegasse.

O Fausto sentou-se à ponta da mesa e repousou o notebook fechado no chão. Três quartos do seu cabelo estavam cobertos por uma pasta que poderia ser graxa ou óleo queimado e, embora a camisa e o terno estivessem passavelmente limpos, metade do rosto e do pescoço estavam nitidamente marcados por uma substância fuliginosa e escura, como se o Fausto tivesse vestido a roupa limpa depois de ter deitado meio que obliquamente numa banheira de lodo.

Embora nem todos tenham conseguido observar o pedido do Vasquez, a reunião transcorreu sem maiores incidentes. O Fausto mostrou-se atento, sensato, austero e equilibrado como sempre. No encerramento, quando todas as dúvidas sobre a nova e exigentíssima norma sobre a emissão de requisições de materiais já haviam sido discutidas e dissipadas, o Fausto cruzou as mãos sobre a mesa e perguntou cansadamente se alguém tinha alguma pergunta.

– Nós não – cutucou o Edmundo, que já tinha sido o melhor amigo do Fausto mas que ressentira-se da promoção dele. – E você, tem alguma coisa a nos dizer?

O Fausto baixou a cabeça por um instante antes de responder.

– Só posso dizer – ele disse, para ninguém e para todo mundo – que agradeço a compreensão de vocês.

– Só isso? – exigiu ainda o Edmundo, para maior constrangimento de todos. – Você não acha que nós temos direito a uma explicação para esse seu comportamento?

Por um instante parecia que o Fausto estava prestes a fornecer uma longa, detalhada e plenamente satisfatória explicação. Estava escrito nos olhos dele: ele quase confessou.

Mas no momento seguinte:

– Qualquer reclamação quanto ao meu desempenho eu estou disposto a ouvir, ou pode ainda ser dirigida aos meus superiores pelos trâmites usuais. Mas, – olhando para o Edmundo, depois para todos – esse é assunto pessoal.

E saiu da sala, esquecendo o notebook, que o Edwin saiu levando para ele, servilmente.

No dia seguinte, quando o Fausto chegou coberto dos pés à cabeça de fuligem, como um mineiro de filme de terror, o cotovelo esquerdo do paletó pingando uma coisa branca que alguém sugeriu talvez fosse banha, o Vasquez fechou o Edmundo num canto e disse que era hora de alertar a Diretoria.

O Edmundo não disse nada.

Paulo Brabo @saobrabo

Escrevo livros, faço desenhos e desenho letras. A Bacia das Almas é repositório final de ideias condenadas à reformulação eterna.


 

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