O Fim da National Geographic • A Bacia das Almas

 

Paulo Brabo, 21 de junho de 2006

O Fim da National Geographic

Estocado em Nostalgia

Faz meses que tento escrever sobre isso, mas trata-se de assunto para mim tão aterrador que não encontro o jeito de criar o impacto certo.

Quero apenas mencionar, então, um momento concebível do futuro que me apavora: o fim da revista National Geographic.

A revista, carro-chefe das atividades da norte-americana National Geographic Society e também editada em português, circula desde 1888, mas num mundo pós-Google Earth não tem como subsistir indefinidamente dentro dos moldes originais. Quando todos os destinos do planeta se esgotarem, quando todas as culturas e distinções locais forem engolfadas pelo tsunami civilizatório do ocidente, quando não houver mais local que mereça o nome de inóspito, a revista dos bravos exploradores deixará de existir. Então horror será universal, e os homens pedirão que as montanhas desabem sobre as suas cabeças.

E, na eventualidade de continuar a ser publicada nesse mundo esgotado, a revista terá perdido a razão de ser, o que me parece destino ainda pior.

Posso encontrar talvez algum consolo em saber que Tolkien sentia-se como eu já em 1943:

Mas o horror particular do presente mundo jaz em que a porcaria toda está dentro de um saco só. Não há lugar algum para onde fugir. Mesmo os pobres samoiedos [siberianos], suspeito, comem comida em lata e o alto-falante da vila conta histórias pra dormir de Stalin, sobre a democracia ou sobre fascistas que comem bebês e cães-de-trenó.

Pode ser ainda necessário refletir que a porcaria toda estava dentro de um saco só já em 1888, quando a revista foi criada. A diferença em relação aos nossos dias é de intensidade, não de visão de mundo prevalente. As niveladoras tendências de massificação e descaracterização já estavam nitidamente presentes. E alguém poderá até argumentar, com algum fundamento, que iniciativas como as da própria National Geographic Society acabaram contribuindo para o sepultamento final da diversidade nesta terra plana e indiferenciada.

Michael Crichton estava bem certo quando profetizou, numas [das poucas] linhas memoráveis do seu A Linha do Tempo, que num mundo saturado e superlotado como o nosso o único destino concebível é o passado.

O que explica em parte toda a remixagem.

Paulo Brabo @saobrabo

Escrevo livros, faço desenhos e desenho letras. A Bacia das Almas é repositório final de ideias condenadas à reformulação eterna.

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