O eu viral: a obrigação moral de emocionar-se e a vontade de reinjetar • A Bacia das Almas

 

Paulo Brabo, 27 de fevereiro de 2014

O eu viral: a obrigação moral de emocionar-se e a vontade de reinjetar

Estocado em Goiabas Roubadas

A ideia por trás do conteúdo viral não é você ficar sabendo sobre “o cachorro que visita todos os dias a igreja italiana em que o corpo do seu dono foi velado” ou histórias do gênero (que frequentemente fica demonstrado não serem factuais), mas você ser a pessoa que responde de modo esperado a essas histórias e as repassa para outra pessoa. A função do conteúdo viral é permitir a participação vicária nas emoções da história, bem como a participação vicária no universo social.

Sei que minha reação a algo que estou lendo pode ser encenada no Twitter, por isso trato de ter uma reação.

A viralidade e a popularidade percebidas de determinada postagem, ilusórias ou não, geram uma resposta emocional mais rica por parte de quem consome o conteúdo. A viralidade pode exercer para o leitor o papel de desinibidor, autorizando a fantasia e o envolvimento emocional, uma suspensão da descrença que é sustentada pela aparente corroboração social. Todo mundo está falando sobre isso! Nesse sentido a história é “real” não importando se os detalhes correspondem à realidade. A circulação da história a torna um fato social.

As redes sociais provêm a plataforma para uma espécie de epidemiologia quotidiana do ego, da infecciosidade social do indivíduo. Esse pode acabar tornando-se o propósito do ego, sua âncora, seu modo de confirmar-se diante de si mesmo. Quando se distancia das timelines, para longe das plataformas de transmissão contínua de notícias, deixando de empurrar notificações sobre os outros, o eu viral cai em crise existencial, buscando desesperadamente iscas novas que possa reinjetar na rede.

O eu viral conhece a si mesmo ainda no modo como sinaliza determinados compromissos e ligações emocionais através do recompartilhamento. (Em seu artigo Klein realça o tipo de pressão de grupo que é fomentada por manchetes virais: “Você é tão babaca que não vai gastar um minuto para descobrir o motivo de cortar o coração que levou esta mãe a abandonar seu bebê agonizante? … O que você estará dizendo ao amigo que compartilhou essa história se passar por cima dela para curtir alguma coisa sobre cupcakes?”). As redes sociais criam um palco em que podemos desempenhar esse tipo de leitura receptiva, o que intensifica a experiência e aquilo que está em jogo na leitura – ou no simples “curtir”, que basta para se participar do arrebatamento da história sem que se tenha de ler mais do que a manchete.

Sei que minha reação a algo que estou lendo pode ser encenada no Twitter, por isso trato de ter uma reação: entro no personagem da minha reação e vejo o que sai. Este é um bônus adicional em se consumir conteúdo online que não extraio de folhear Casa Cláudia na fila do mercado. Ter sentimentos não leva a nada se sua performance deles não é tão viral quanto aquilo que as ocasionou. Minha performance pode depois disso circular e substanciar-me, bem como prover o prazer imediato do envolvimento vicário com a história e com a galera que imagino respondendo todos juntos a ela.

O engendramento da viralidade ameaça desse modo assumir o papel de prática moral independente. Ser capaz de jogar com diversos gatilhos emocionais de modo a gerar a viralidade e responder a eles de modo apropriado subordina essas emoções a um bem maior, cujo valor fica estabelecido pela mobilidade dos sentimentos, por sua mensurável transferibilidade – trata-se menos de algo ser comovente do que do fato de ser movente: de estar em movimento.

As emoções que provocam o conteúdo viral tornam-se quase de imediato pretexto para estabelecermos contato com a audiência, e essa sensação de uma conexão que se expande serve de emoção mestra, raiz do sentimento de “autenticidade”. Ter sentimentos não leva a nada se você não pode ser visto tendo esses sentimentos. Isso foi verdadeiro na segunda metade do século XVIII, no auge da sensibilidade incitada pela emergência dos romances como meio social; é verdadeiro nas redes sociais online, em forma amplificada. Ter sentimentos não leva a nada se sua performance deles não é tão viral quanto aquilo que as ocasionou.

A viralidade torna-se desse modo a linha do horizonte abaixo da qual uma ocorrência deixa de figurar socialmente, deixa de servir para ancorar a identidade ou afirmar o ego. Se uma experiência recontada não continua a circular, tanto a experiência quanto o recompartilhamento original nada representam. Não chegam nem mesmo a serem falsos; simplesmente não importam.

Do mesmo modo que a genuinidade mostrou-se irrelevante para o conteúdo viral, é também irrelevante para o eu viral. O eu viral é “pós-autêntico”, em que encontra sua verdade em mensurações ex post facto (quantas curtidas, quantas visualizações, quantos compartilhamentos) e não na fidelidade a uma ética ou sistema de valores preexistentes. Sua “autenticidade” é um efeito secundário de ter sido capaz de arregimentar uma audiência que dê valor ao conteúdo que faz circular.

Manter-se verdadeiro a algum espírito interior imutável, ser consistente a despeito das demandas da audiência que observa – essas deixaram de ser preocupações relevantes.

Rob Horning em The Viral Self

 

 

Paulo Brabo @saobrabo

Escrevo livros, faço desenhos e desenho letras. A Bacia das Almas é repositório final de ideias condenadas à reformulação eterna.

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