O esfolador de anjos • A Bacia das Almas

 

Paulo Brabo, 11 de março de 2006

O esfolador de anjos

Estocado em Manuscritos

– O que você está lendo?

– Esse aqui.

– É romance? Nunca ouvi falar.

– Todo mundo já ouviu falar dO esfolador de anjos. Todo mundo já leu O esfolador de anjos. Ou pelo menos sabe o final.

– Eu não. Do que se trata?

– De que planeta você é? Bom, o que posso contar que é a história de um contador desempregado, bêbado e deprimido que recebe de um sujeito misterioso uma oferta irrecusável.

– Esfolar anjos, naturalmente.

– Ele não sabe quando aceita a oferta, mas é isso mesmo. O visitante misterioso é mandante da máfia dos demônios e vende peles de anjos no mercado negro.

– O contador vende a alma ao demônio, tipo Fausto.

– Mais ou menos. O demônio precisa da ajuda de um ser humano porque só os humanos são imateriais o bastante para manusear os corpos dos anjos. Os demônios esmagam-nos só de olhar para eles, e as peles estragam.

– Nossa.

– É basicamente isso. O resto não vou contar.

– Pode contar. Eu não vou ler.

– Mesmo? Tem certeza?

– Absoluta. Não é o tipo de história que me prende.

– Essa prenderia. O demônio passa toda semana na casa do contador e deixa um carro diferente na garagem, com o corpo de um anjo no porta-malas. O contador tira a pele e as asas e enterra o resto no quintal. No dia seguinte o demônio passa e leva o carro embora com a pele e as asas no porta-malas. Os dois, o contador e o anjo, nunca mais se falam nem se vêem, só se tratam assim, intermediados pelo carro.

– Só isso?

– Mas é bem legal, descreve bem direitinho como o homem esfola os anjos começando pela base das asas, e os métodos especiais que ele tem de usar para destrinchar os anjos antes de enterrar os pedaços. Eles tem uma anatomia diferente da nossa, embora sejam por fora parecidos. O esqueleto dos anjos é um colar de pérolas.

– O que o contador recebe em troca?

– Essa parte é engraçada. Nunca fica muito claro. Talvez nada, se for pensar bem. No quintal da casa do contador, onde ele enterra as carcaças dos anjos, nasce um jardim maravilhoso, com flores brancas desconhecidas e perfumadas, que todos na vizinhança passam a invejar. Um vizinho vem todos os dias para admirar as flores e traz sempre um engradado de cerveja. Mas fica a impressão de que o contador está esfolando os anjos porque quer. Porque gosta.

– E você gosta dessa história.

– Gosto. Especialmente do final.

– E como termina?

– Um dia, quando o contador abre o porta-malas, está o vizinho ali dentro, só que ele é um anjo, e está vivo.

– O vizinho do engradado de cerveja?

– Ele mesmo. Ferido, mas vivo. Ele vem dar ao contador uma última chance, por assim dizer.

– E o cara se arrepende?

– É meio tarde para se arrepender. O anjo revela ao contador que o demônio mafioso o enganou desde o começo. No começo da história ele não era pobre, nem bêbado nem desempregado; era feliz e tinha uma família bonita, embora não lembre hoje de mais nada. Cada anjo que ele esfolou custou um membro querido da sua família, que desapareceu da existência e de que por isso ele não tem como se lembrar.

– Caraca, e por que ele aceitou a oferta do demônio em primeiro lugar, se não estava deprimido nem desempregado?

– É o que o anjo quer saber antes de matar o contador.

– E o que contador responde?

– Não sei. Não cheguei ainda nesta parte.

– Você está nesta parte.

– Como assim?

– Este é O esfolador de anjos, idiota. Nunca estivemos fora da história. Nunca estivemos fora de história alguma.

– Absurdo. Não é possível.

– Se o contador foi enganado; se estamos na história, nada é inconcebível. Podemos ter enganado ou sido enganados nós mesmos. Não que faça diferença.

– Se é verdade, quem é você na história?

– A pergunta é: quem é você na história?

– E como eu vou saber?

– Depende da pergunta que você me fizer. Ou da resposta que me der.

– Ei, pra que essa faca?

– Está vendo? Você deveria ter perguntado na mão de quem ela está.

– Espere, deixe eu ler a última página.

– Idiota, a última página nunca faz diferença.

Paulo Brabo @saobrabo

Escrevo livros, faço desenhos e desenho letras. A Bacia das Almas é repositório final de ideias condenadas à reformulação eterna.

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