O equívoco dos mortos • A Bacia das Almas

 

Paulo Brabo, 02 de novembro de 2006

O equívoco dos mortos

Estocado em Manuscritos

Os mortos reuniram-se certa vez para discutir a ameaça dos vivos.

– Sabemos que hoje em dia há na Terra mais vivos do que mortos – disse o presidente dos mortos na abertura da sessão – e isso me assusta. O equilíbrio natural está ameaçado e o risco que corremos é muito real. Temos que trazer mais gente para o nosso lado.

– É besteira se preocupar com isso – opinou um blogueiro morto que achava que o presidente era um alarmista. – Toda essa gente aparentemente cheia de vida vai um dia acabar morrendo. O vivo mais obstinado acaba se rendendo à graça irresistível da morte. Acho que devemos esquecer esse assunto e cuidar cada um das nossas mortes.

– Concordo com o morto ali – disse um bombeiro morto, com queimaduras de terceiro grau. – Sem contar que os vivos não estão nem aí para os mortos. Não temos direito nem a voto.

– Isso é total preconceito dos vivos – comentou um antropólogo morto, empertigando o esqueleto. – Se não nos respeitavam quando éramos maioria, que dirá agora?

Ruídos de assentimento e ranger de dentes percorreram a necrópole.

– O que mais me incomoda é a avalanche de calúnia e falsidade ideológica contra quem não tem mais como se defender – disse um filósofo morto. – Repito que como não temos direito a réplica deveríamos processar por danos morais. Essa gente que ainda não morreu vive colocando palavras na nossa boca e distorcendo o sentido do que de fato dissemos.

– Você no lugar deles fazia a mesma coisa – lembrou o blogueiro.

– Sem contar que é preciso ser vivo para processar por danos morais – lembrou um advogado morto, que tinha sido enterrado com seu celular mas não tinha mais créditos.

– Estamos fugindo do assunto – demandou o presidente batendo com um fêmur na mesa. – Estamos falando da ameaça dos vivos.

– E que mal eles podem nos fazer? – consultou uma sexóloga morta, mordiscando um verme maldito que lhe ficara preso entre os dentes.

– Os vivos são um mau exemplo – esclareceu o presidente, sentindo-se muito rebaixado por ter de explicar o óbvio.

Paulo Brabo @saobrabo

Escrevo livros, faço desenhos e desenho letras. A Bacia das Almas é repositório final de ideias condenadas à reformulação eterna.

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