O credo narrativo dos judeus • A Bacia das Almas

 

Paulo Brabo, 09 de junho de 2006

O credo narrativo dos judeus

Estocado em Fé e Crença

No princípio eram os judeus. Isso foi antes dos cristãos.

Outro modo de dizer a mesma coisa é lembrando que antes da teologia havia a narrativa.

Os cristãos, certamente sob a influência do pensamento [circular] greco-romano, aprenderam logo a expressar e compreender a sua fé sob a forma de conceitos e abstrações: idéias como salvação, remissão, morte substitutiva, eleição, trindade, onisciência, justificação e predestinação; coisas que habitam uma dimensão paralela fora do tempo e da experiência do dia-a-dia.

Menos ambiciosos e certamente mais coerentes com a tradição bíblica, os judeus desde o começo (e até os nossos dias) entenderam a sua vocação de um ponto de vista narrativo. O que os judeus sabem é que fazem parte de uma história singular e é isso que os define e lhes basta. Não há espaço para teologia porque não há simplesmente necessidade dela.

Esse modo linear de ver o mundo, como uma narrativa que progride de um ponto a outro sob a direção de Deus, era tremendamente inusitado no cenário em que surgiu há cerca de quatro mil anos – época em que o que predominava eram os ritos circulares. A singularidade dessa consciência histórica sustentou a sobrevivência do judaísmo por milhares de anos diante da mais selvagem competição de religiões alternativas, inclusive por parte do cristianismo. A visão de mundo linear seria silencioso gatilho, séculos depois, de escolas de pensamento como o positivismo (que abriu mão da condução de Deus mas não do otimismo com relação à trajetória da flecha da história, que, cria-se, acabaria atingindo seu alvo glorioso).

A diferença de visão de mundo entre judeus e cristãos fica mais espetacularmente evidente quando se compara o credo de um com o de outro. A profissão de fé judaica, a ser repetida anualmente pelo adorador quando trazia ao santuário os primeiros frutos da colheita, encontra-se no trecho entre o quinto e o décimo verso do vigésimo-sexto capítulo do livro de Deuteronômio. E diz o seguinte:

Arameu prestes a perecer foi meu pai, e desceu para o Egito, e ali viveu como estrangeiro com pouca gente; e ali veio a ser nação grande, forte e numerosa. Mas os egípcios nos maltrataram, e afligiram, e nos impuseram dura servidão. Clamamos ao SENHOR, Deus de nossos pais; e o SENHOR ouviu a nossa voz e atentou para a nossa angústia, para o nosso trabalho e para a nossa opressão; e o SENHOR nos tirou do Egito com poderosa mão, e com braço estendido, e com grande espanto, e com sinais, e com milagres; e nos trouxe a este lugar e nos deu esta terra, terra que mana leite e mel. Eis que, agora, trago as primícias dos frutos da terra que tu, ó SENHOR, me deste.

Entre outras coisas, essa liturgia evidencia como a religião judaica transformou um evento eminentemente circular, a celebração anual da colheita, num momento que celebrava uma cosmovisão linear – Deus está envolvido nos eventos da vida do seu povo – através da rememoração da primordial história do Êxodo.

O que acho especialmente notável nessa confissão de fé é o fato dela ser totalmente narrativa; interpretativa por certo e talvez tendenciosa, mas inteiramente livre de abstrações e de necessidades teológicas. O adorador reconhece a mão de Deus na história do seu povo e na sua própria, e é grato por ela. Ponto final. Nenhuma tentativa de explicar a natureza de Deus ou destrinchar o seu plano. Nenhuma ambição de expor o mecanismo do universo ou da salvação. Compare com o credo dos apóstolos:

Creio em Deus Pai Todo-Poderoso, Criador do céu e da terra; e em Jesus Cristo um só seu Filho, Nosso Senhor: o qual foi concebido pelo poder do Espírito Santo, nasceu de Maria Virgem, padeceu sob Pôncio Pilatos, foi crucificado, morto e sepultado; desceu aos infernos, ao terceiro dia ressurgiu dos mortos, subiu aos céus, está sentado à mão direita de Deus Pai Todo-Poderoso, de onde há de vir a julgar os vivos e mortos; creio no Espírito Santo, na Santa Igreja Católica, na comunhão dos Santos, na remissão dos pecados, na ressurreição da carne, na vida eterna. Amém.

Apesar do cerne narrativo que mantém o cristianismo na estatura linear, cravando Jesus num momento específico da história, o credo apostólico é um campo minado: cuidadosíssimo jogo de palavras em que cada termo inocente remete a um complexo conceito teológico correspondente. Algumas das expressões e conceitos do credo que apontam para seus próprios tratados de teologia:

  1. Deus Pai
  2. Deus Todo-Poderoso
  3. Criador do céu e da terra
  4. Jesus Cristo um só
  5. Jesus Cristo seu Filho
  6. Jesus Nosso Senhor
  7. concebido pelo poder do Espírito Santo
  8. Maria Virgem
  9. desceu aos infernos
  10. está sentado à mão direita de Deus
  11. julgar os vivos e mortos
  12. Espírito Santo
  13. Santa Igreja
  14. Igreja Católica
  15. comunhão dos Santos
  16. remissão dos pecados
  17. ressurreição da carne
  18. vida eterna

Isso, naturalmente, em poderoso contraste com o caráter límpido da profissão de fé de Deuteronômio, que por ser narrativa – uma história – pode ser lido e assimilado de imediato por qualquer um.

Como resultado da obsessão dos cristãos com abstrações e filigranas teológicas, prefiguradas no credo mas desenvolvidas à exaustão nos séculos seguintes, o cristianismo tornou-se religião essencialmente menos linear – mais circular, etérea e teórica – do que o judaísmo.

O judeu, em seu credo, recorda o que Deus fez na história e retraça a atividade divina do nascimento do seu povo até o preciso momento presente e sua precisa benção. O cristão, no seu, estabelece distinções e categorias que pressupõe fundamentais, define termos e parece crer que o que caracteriza sua fé pessoal está na sua capacidade de elencar e abraçar uma série precisa de crenças corretas.

Jesus, que (judeu como era) se deslocava no terreno da vida real, da necessidade do momento e do poder evocativo da narrativa, ergueria por certo uma sobrancelha intrigada.

Ou duas.

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Teologia narrativa

Paulo Brabo @saobrabo

Escrevo livros, faço desenhos e desenho letras. A Bacia das Almas é repositório final de ideias condenadas à reformulação eterna.

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