O bibliotecário de Babel • A Bacia das Almas

 

Paulo Brabo, 21 de fevereiro de 2006

O bibliotecário de Babel

Estocado em Grandes Navegações · The Net

No conto A Biblioteca de Babel, de Jorge Luis Borges, o universo é uma infinita biblioteca em que os livros que vale à pena ler são tão exuberantemente raros que os bibliotecários dedicam suas vidas a encontrá-los e catalogá-los.

O mundo real, o nosso mundo, é uma infinita biblioteca, e os livros que vale à pena ler são tão exuberantemente raros que certas pessoas dedicam suas vidas a encontrá-los e catalogá-los. Morto Borges, o semimisterioso Mr. H, do sáite Giornale Nuovo, talvez seja o último bibliotecário de Babel remanescente; é por certo o único que conheço.

Mr. H é um louco e um santo.

Na selvagem competição da internet, não há blog mais erudito, mais singular e mais classudo do que o Giornale. Trata-se de irresistível baú de curiosidades, do qual Mr. H (cujo verdadeiro nome não sou autorizado a revelar) retira com um toque esporádico de graça coisas novas e velhas.

Mr. H não é apenas um caçador de erudições dignas de nota: é também um louco e um santo, e comete periodicamente a suprema transgressão/auto-sacrifício/desfaçatez de livrar-se de livros que já leu oferecendo-os voluntariamente a quem interessar possa. Seu selvagem desapego não é apenas pelas coisas materiais, mas também pelas coisas do espírito, sendo que a segunda coisa é ainda mais rara e notável do que a primeira.

Movido por essa liberalidade, vez por outra Mr. H posta no Giornale uma relação de livros ou CDs (relação que cobre invariavelmente uma boa amostra de seus ecleticíssimos interesses), e oferece-se para enviar os itens da relação aos primeiros mortais que se derem ao trabalho de levantar a mão para reivindicá-los. A generosidade do bibliotecário cobre inclusive os custos de correio – mesmo em se tratando de destinos remotos como as Índias Ocidentais.

Seu selvagem desapego não é apenas pelas coisas materiais, mas também pelas coisas do espírito.

Fui tocado recentemente por essa graça, e chegou-me semana passada pelo correio o delicioso volume dourado de Hieroglyphics – A Note upon Ecstasy in Literature, volume de “idéias” do inglês Arhur Machen, escritor de literatura fantástica que teve admiradores do calibre de Borges e Lovecraft. O volume, publicado em Londres em 1912, já era (como convém) usado quando chegou às mãos de Mr. H.

Queria deixar aqui uma frase de efeito ou um pensamento original, mas não sei o que dizer sobre a generosidade desse sueco, sobre livros antigos, sobre livros lidos a anotados por outras pessoas, sobre os milagres da cega deusa internet, sobre envelopes de terras distantes ou sobre o êxtase na literatura.

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Veja também:
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Paulo Brabo @saobrabo

Escrevo livros, faço desenhos e desenho letras. A Bacia das Almas é repositório final de ideias condenadas à reformulação eterna.

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