O atordoante custo de pensar • A Bacia das Almas

 

Paulo Brabo, 27 de março de 2006

O atordoante custo de pensar

Estocado em Quase Ciência

Todo mundo já ouviu falar que o ser humano usa apenas 10% do poder do seu cérebro. A informação é inevitavelmente usada como argumento de superação pessoal: se apenas um décimo da nossa capacidade cerebral é de fato utilizada, restam abundantes 90% de potencial precioso e inexplorado aguardando liberação.

Pelo menos 10% de nós já ouviu, por outro lado, que essa idéia dos 90% de subutilização do cérebro é – por inteiro – conversa fiada.

A mais rápida consulta a São Google apontará diversos sáites de divulgação científica que denunciam não haver embasamento científico para a noção. Aparentemente a idéia começou a ser divulgada quando alguns neurocientistas concluíram, na década de 1930, que apenas 10% do córtex cerebral humano entrava em atividade durante a estimulação sensorial ou o controle motor do corpo, enquanto os nove décimos restantes permaneciam perfilados em repouso, aguardando o momento de serem úteis.

O que significa dizer que utilizamos apenas 10% da nossa capacidade cerebral?

A idéia da utlilização de 10% do cérebro parece portanto ter um fundo de verdade – mas ignora que outras regiões do cérebro são imediatamente acionadas durante outros tipos de atividade. Ou seja, a informação original era que utilizamos 10% da nossa capacidade cerebral de cada vez. Ninguém duvidava, no entanto, de que praticamente todo o cérebro era utilizado em algum momento, coisa que as tomografias computadorizadas acabaram confirmando.

Confesso que eu, em minha cerebral subutilização, sempre desconfiei tanto dos proponentes quanto dos desmistificadores da idéia. Talvez o problema real esteja em quão irremediavelmente vaga a noção de fato é: o que significa dizer que utilizamos apenas 10% da nossa capacidade cerebral? Que se tivéssemos 90% da massa do cérebro removida continuáriamos funcionando normalmente? Que se utilizássemos 100% do cérebro pensaríamos 9 vezes mais rápido, teríamos 9 vezes mais idéias ou lembraríamos de 9 vezes mais coisas? Por outro lado, o argumento dos desmistificadores, de que as tomografias provam que 100% do córtex entra em atividade em algum momento, nada prova. A utilização não refuta a subutilização. O fato de uma ferramenta ser utilizada eventualmente não implica em ela estar sendo usada de forma correta – ou de forma a liberar todo o seu potencial. Ainda mais quando falamos de uma ferramenta tão irredutivelmente complexa quanto o cérebro humano.

Parece sensato supor, como sugerem alguns, que estamos condenados a jamais chegar a entender o mecanismo do nosso cérebro – precisaríamos, na verdade, de um cérebro maior para chegar a entendê-lo (e de um cérebro maior para entender esse cérebro maior, ad infinitum). Talvez, no fim das contas, capacidade cerebral seja coisa imponderável demais para ser medida.

Mas há coisas que se pode medir.

Em cada dado momento, 99% do seu cérebro está desligado.

Um artigo do irriquieto colunista científico Carl Zimmer chamou-me recentemente a atenção para um estudo realizado por um certo Peter Lennie, da Universidade de Nova Iorque. O que esse sujeito se propôs a medir foi a quantidade de energia que o cérebro usa para pensar.

[Lennie] calculou a energia total utilizada pelo córtex humano, com base em recentes estudos de nueroimagem. Em seguida ele calculou quanta energia um único neurônio utiliza ao gerar um impulso elétrico. Finalmente, ele utilizou esses dados para estimar quantos neurônios do córtex podem estar ativos num dado momento. Sua estimativa? Cerca de um por cento.

Como observa Zimmer, essa nova descoberta é ainda mais estarrecedora do que a velha história dos 10%. A nova revelação é que pensar exige tamanhos recursos energéticos que apenas 1% dos neurônios pode ser utilizada de cada vez. Em cada dado instante, 99% do seu cérebro está imerso no mais absoluto blecaute. Parado. Desligado. Ocioso. Não pensa, logo não existe.

Conclui Zimmer:

Mesmo em repouso nosso cérebro utiliza 20% do oxigênio que captamos, e dependemos de uma intrincada malha de vasos sangüíneos para resfriar o cérebro enquanto ele utiliza tamanha energia. Se chegássemos a utilizar o pleno potencial do nosso cérebro, ao que parece, nós o incendiaríamos por completo no processo.

Coloque isso na cabeça.

Paulo Brabo @saobrabo

Escrevo livros, faço desenhos e desenho letras. A Bacia das Almas é repositório final de ideias condenadas à reformulação eterna.


 

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