O arrependimento de Adão • A Bacia das Almas

 

Paulo Brabo, 30 de junho de 2007

O arrependimento de Adão

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ADÃO: O arrependimento de Adão

Expulsos do Paraíso, Adão e Eva construíram para si uma cabana, e por sete dias ficaram sentados em grande aflição, lamentação e pesar. Ao final dos sete dias, atormentados pela fome, saíram e foram procurar comida. Por outros sete dias Adão cruzou a região de um lado a outro, procurando o tipo de delícias finas de que haviam desfrutado no Paraíso. Foi em vão: ele nada encontrou. Eva então disse a seu marido:

– Meu senhor, se lhe agrada, mate-me. Talvez Deus leve-o então de volta para o Paraíso, pois o Senhor Deus ficou irado com você por minha causa.

Porém Adão rejeitou esse plano com aversão, e saíram ambos novamente em busca de comida. Nove dias se passaram, e nada ainda tinham encontrado que se assemelhasse ao que tinham tido no Paraíso. Viram apenas comida adequada para gado e animais selvagens. Adão então propôs:

– Façamos penitência. Talvez Deus nos perdoe e tenha pena de nós, e nos dê alguma coisa para sustentar a vida.

Sabendo que Eva não era forte o bastante para suportar a mortificação da carne que ele propunha infligir sobre si mesmo, Adão prescreveu-lhe uma penitência diferente da sua.

Nenhuma palavra saia da sua boca, pois somos indignos de suplicar a Deus.

– Levante-se – ele disse, – vá até o Tigre, pegue uma pedra e fique em pé sobre ela na parte mais profunda do rio, onde a água chega-lhe na altura do pescoço. Que nenhuma palavra saia da sua boca, pois somos indignos de suplicar a Deus: nossos lábios estão impuros em razão do fruto proibido da árvore. Permaneça na água por trinta e sete dias.

Para si mesmo Adão determinou quarenta dias de jejum, enquanto ele permanecia em pé no rio Jordão, da mesma forma que Eva deveria ficar nas águas do Tigre. Depois de ajustar a pedra no meio do Jordão e subir nela com as águas chegando-lhe ao pescoço, ele disse:

– Conclamo a você, água do Jordão: aflija-se comigo, e reúna ao meu redor todas as criaturas nadantes que vivem em você. Que elas me cerquem e lamentem comigo e, ao invés de golpearem de aflição os seus próprios peitos, golpeiem a mim. Não foram eles que pecaram, mas apenas eu!

Logo vieram todos, os residentes do Jordão, e cercaram-no, e daquele momento em diante a água do Jordão parou, cessando de fluir.

A penitência que Adão e Eva impuseram a si mesmos despertou receios em Satanás. Ele temia que Deus perdoasse o pecado deles, e por isso planejou desviar Eva do seu propósito. Passados dezoito dias ele apareceu a ela disfarçado de anjo; fingindo condoer-se dela, começou a bradar, dizendo:

– Saia desse rio e não chore mais! O Senhor Deus ouviu a sua lamentação, e sua penitência foi aceita por ele! Todos os anjos suplicaram ao Senhor em seu favor, e ele enviou-me para tirá-la da água e dar a vocês o sustento de que desfrutavam no Paraíso, cuja perda vocês têm estado lamentando.

Enfraquecida como estava por suas penitências e mortificações, Eva cedeu à insistência de Satanás, e ele a conduziu até onde estava seu marido. Adão reconheceu-o de imediato, e entre lágrimas clamou:

– Ah Eva, Eva, onde está agora a sua penitência? Como você pôde deixar-se seduzir novamente pelo nosso adversário, ele que roubou de nós nossa permanência no Paraíso e toda alegria espiritual?

Pelo que Eva começou a chorar e clamar:

– Tenha vergonha, Satanás! Por que você nos hostiliza sem razão? O que foi que fizemos para que você nos persiga com tamanha malícia?

Com um suspiro profundo, Satanás contou-lhes de que forma Adão, de quem tivera inveja, tinha sido o verdadeiro motivo da sua queda. Tendo perdido sua glória através do homem, tinha determinado fazer com que ele fosse expulso do Paraíso.

Ele entendeu que o que tinha deplorado era o curso da natureza.

Depois de ouvir a confissão de Satanás, Adão orou a Deus:

– Senhor meu Deus! Minha vida está em suas mãos. Retira de mim esse adversário, que busca levar minha alma à destruição, e concede-me a glória a que ele não tem mais direito.

Satanás desapareceu imediatamente, mas Adão prosseguiu em sua penitência, ficando em pé nas águas do Jordão por quarenta dias.

Enquanto permanecia dentro do rio Adão percebeu que os dias iam ficando mais curtos, e teve medo de que o mundo pudesse estar escurecendo por causa do seu pecado, e desabaria em breve. Para evitar a perdição ele passou oito dias em oração e jejum. Porém depois do solstício do inverno, quando viu os dias tornando-se mais longos novamente, Adão passou oito dias festejando, e no ano seguinte celebrou ambos os períodos, o anterior e o posterior ao solstício. É por isso que os pagãos celebram as calendas e a saturnália em honra aos seus deuses, embora Adão tenha consagrado ambos os dias em honra a Deus.

Na primeira vez em que viu o sol se pôr Adão também foi tomado de apreensão e temor. Aconteceu na conclusão do Sábado, e Adão disse:

– Ai de mim! Por minha causa, pelo meu pecado, a terra escureceu, e ficará novamente sem forma e vazia. Assim será executada a punição de morte que Deus proferiu contra mim!

Toda a noite ele passou em lágrimas, bem como Eva, que chorava sentada de frente para ele. Quando o dia começou a clarear ele entendeu que o que tinha deplorado era o curso da natureza, e trouxe uma oferta para Deus, um unicórnio cujo chifre foi criado antes dos cascos, e sacrificou-o no lugar onde mais tarde se ergueria o altar em Jerusalém.

Photo by Stephen A. Edwards

Paulo Brabo @saobrabo

Escrevo livros, faço desenhos e desenho letras. A Bacia das Almas é repositório final de ideias condenadas à reformulação eterna.

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