O arbítrio da alma • A Bacia das Almas

 

Paulo Brabo, 15 de junho de 2007

O arbítrio da alma

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1. Li, estimados patriarcas, nos registros dos árabes, que Abdallah, o Sarraceno, quando perguntado sobre o que neste estágio, por assim dizer, do mundo, poderia ser visto como o mais digno de admiração, respondeu que não há nada para ser visto mais maravilhoso do que o homem.

2. Em concordância com essa opinião está a declaração de Hermes: “Um grande milagre, Asclepius, é o homem”.

Tu, nullis angustiis cohercitus, pro tuo arbitrio, in cuius manu te posui, tibi illam prefinies.

3. Porém, quando pesei os argumentos por trás dessas declarações, as numerosas considerações apresentadas por diversos homens para explicar a excelência da natureza humana não me persuadiram por completo: que o homem é o intermediário entre as criaturas, que é o familiar dos seres mais elevados, o rei das coisas abaixo de si; pela agudeza dos seus sentidos, pelo espírito inquisitivo de sua razão e pela luz da sua inteligência, o intérprete da natureza; posto a meio caminho entre a eternidade e o tempo fugaz e (como dizem os persas), o elo de ligação, ou antes a canção nupcial do mundo, no testemunho de Davi, apenas pouco inferior aos anjos.

4. Essas são razões excelentes, no entanto não consistem nos argumentos principais, isto é, aqueles pelos quais o homem pode com justiça requerer para si mesmo o privilégio da admiração máxima.

5. Porque não deveríamos admirar mais os próprios anjos e os coros beatíficos do céu?

6. Finalmente, no entanto, parece-me que cheguei à compreensão de porque o homem é o mais afortunado dos seres e consequentemente o mais digno de toda admiração, e qual é finalmente a condição que representa seu lugar na ordem universal, condição a ser invejada não apenas pelos animais irracionais mas até mesmo pelas estrelas e pelas inteligências que habitam além deste mundo.

7. Coisa espantosa e inteiramente inacreditável.

8. Mas porque não haveria de ser assim? Pois é por essa razão que o homem é com justiça chamado e considerado um grande milagre e criatura viva digna de toda admiração.

9. Ouçam, patriarcas, qual seja a exata natureza desta condição e, em nome da vossa humanidade, concedam sua benigna consideração à minha obra.

Nec te celestem neque terrenum, neque mortalem neque immortalem fecimus.

10. O Pai supremo, Deus, o Arquiteto, já havia edificado esta residência cósmica que contemplamos, o mais sagrado templo da divindade, de acordo com as leis de sua insondável sabedoria.

11. Já havia adornado a região sobreceleste com inteligências, povoado os globos celestes com almas eternas e enchido as porções excrementárias e vis do mundo inferior com uma multidão de animais de toda espécie.

12. Porém quando a obra estava concluída o Artesão ansiava ainda que houvesse alguém para ponderar o significado de tão grandiosa obra, e maravilhar-se diante de sua extensão.

13. Quando tudo estava portanto concluído (do que testificam Moisés e o Timaeus), ele finalmente pensou em trazer o homem à luz.

14. Não havia no entanto entre os arquétipos algo a partir do qual ele pudesse moldar nova progênie, tampouco em seus cofres alguma coisa que pudesse conferir a seu novo filho como herança, nem entre os assentos do universo qualquer lugar onde esse pudesse sentar-se a fim de contemplar o universo.

15. Tudo estava agora completo; todas as coisas designadas às ordens superiores, intermediárias e inferiores.

16. Mas não era da natureza do poder do Pai fracassar em sua criação final; não era da natureza da sua sabedoria hesitar diante da falta de conselho numa questão premente, nem era da natureza do seu amor beneficente que aquele que deveria louvar a generosidade divina em todas as outras coisas fosse obrigado a condená-la com relação a si mesmo.

17. Finalmente o maior dos artistas decretou que a criatura para a qual havia sido incapaz de conceder algo que fosse exclusivamente seu possuísse em comum aquilo que pertencia a todos os outros seres.

18. Ele portanto tomou o homem, essa criatura de imagem indeterminada, colocou-o no centro do mundo e disse a ele: “Não lhe concedemos, Adão, nenhum assento fixo nem características exclusivas nem capacidade peculiar; a fim de que qualquer assento, quaisquer características e quaisquer capacidades que você possa desejar com responsabilidade você possa tê-las e possuí-las de acordo com seu desejo e seu arbítrio.

19. Uma vez definida, a natureza de todos os outros seres está limitada pelas leis por nós prescritas.

Poteris in inferiora quae sunt bruta degenerare; poteris in superiora quae sunt divina ex tui animi sententia regenerari.

20. Tolhido por limite algum, você poderá determinar por si mesmo, de acordo com seu livre arbítrio, em qual mão foi colocado por nós.

21. Coloquei-o no meio do mundo para que você possa da sua posição olhar com mais facilidade para tudo que está no mundo.

22. Não o fizemos nem do céu nem da terra, nem mortal nem imortal, para que você possa, como livre e extraordinário arquiteto de si mesmo, moldar-se na forma como preferir.

23. Estará no seu poder degenerar em formas inferiores de vida, que são grosseiras; poderá também, pelo arbítrio de sua alma, renascer nas ordens superiores, que são divinas.”

Pico della Mirandola, Oratio de hominis dignitate

Paulo Brabo @saobrabo

Escrevo livros, faço desenhos e desenho letras. A Bacia das Almas é repositório final de ideias condenadas à reformulação eterna.


 

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