O amor é mais severo que a justiça • A Bacia das Almas

 

Paulo Brabo, 21 de janeiro de 2008

O amor é mais severo que a justiça

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Jesus foi o primeiro a demonstrar de que modo superar esse monstruoso estado de coisas. No momento em que afirmamos que nada pode nos dizer o que é bom a não ser uma tradição dada por Deus, a religião irá prevalecer sobre o sentimento moral de uma forma que se mostrará fatal para ela mesma.

Nosso único meio de proteção consiste em perceber que a coerência moral – em outras palavras, a sinceridade da vontade – é o primeiro passo na direção daquela religião na qual o Deus vivo é verdadeiramente buscado.

A expressão bíblica para religião é confiança em Deus e amor a Deus. Confiança genuína em Deus consiste em sentirmos que somos filho de Deus; amar a Deus consiste em colocarmos como nosso alvo, como o objeto final da nossa vontade, a qualidade de união com Deus que fica implícita no desejo de tornar-se filho de Deus.

“Por que vocês não julgam por si mesmos o que é bom?”

Ora, de acordo com Jesus isso só pode ser obtido através da obediência moral – através de um amor ao próximo que permaneça impassível diante da inimizade dos homens. Ele portanto coloca o discernimento moral como elemento primário em toda verdadeira religião. Não seremos capazes de amar a Deus até que comecemos a experimentar aquela paz interior que culmina com o amor a nossos inimigos. É impossível ansiar pelo próprio Deus, a não ser que saibamos o que é bom, pois Deus somente é bom. Se queremos encontrar e seguir a Deus, devemos ser capazes de reconhecer o que é bom. É por isso que Jesus ataca a ideia errônea de que, a fim de reconhecer o que é bom, devemos primeiro conhecer a Deus e compreender os seus mandamentos. Aos que assim pensam Jesus propõe a pergunta: “Por que vocês não julgam por si mesmos o que é bom?” (Lucas 12:57).

A mesma verdade Jesus imprimiu de forma profunda sobre nós em sua explicação do mandamento sobre o amor, esse amor que constitui a unidade da sua mente.

Porém para obtermos uma real compreensão desse mandamento não basta apontar que trata-se de um amor a Deus que é também amor ao próximo e de um amor ao próximo que é ao mesmo tempo amor a Deus. Esse método de elucidar a questão, na verdade, tem muitas vezes servido para obscurecê-la, porque pode gerar a impressão de que em sua natureza e operação o amor distingue-se da justiça por ser menos severo do que ela.

A justiça admite exceções; o amor não admite exceção alguma.

Porém esse não é, de modo algum, o amor de que Jesus está falando. Desse amor podemos desenvolver uma ideia mais clara observando em que ele de fato difere da justiça, e a primeira distinção está em que o amor é mais rigoroso do que qualquer justiça. A justiça admite exceções; o amor não admite exceção alguma.

A justiça não possui propósito constante, apenas segue as mudanças na natureza humana que revelam-se na história. É impossível dizer o que será considerado justiça numa data futura. O amor se presta, é verdade, a incansável variedade, a adaptar-se a todo impulso; porém seu propósito está inalteravelmente dirigido a um alvo que ele conhece – a saber, uma comunhão interpessoal em que todos sintam em cada um uma felicidade que ultrapasse qualquer outra alegria.

A vontade de amar busca produzir e intensificar essa comunhão ao redor de si, reconhecendo ser este o seu alvo eterno, e encarando como impensável que seu alvo pudesse jamais ser qualquer outro. A paz interior produzida por um alvo invariável e claramente percebido torna a vontade de amar ao mesmo tempo mais forte e mais severa do que qualquer forma de justiça.

Devemos pensar no amor do qual Jesus fala como o exercício máximo da força de vontade, o poder concentrado de uma mente que conhece o objeto de sua vontade. Quando chama os homens a amarem seus inimigos, Jesus não está requerendo deles algo extraordinário – algo assombroso e impossível de compreender. O que ele está oferecendo é um exemplo claro do exercício da vontade cujo único objetivo é a comunhão interpessoal. Esse propósito é confirmado pelo discernimento claro de sua lei eterna; e consequentemente não representa a perda da vida individual, mas é a ação mais intensamente concentrada e viva da vontade pessoal.

Adolf Harnack, em Ensaios sobre o Evangelho Social (1907)

Paulo Brabo @saobrabo

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